
Quase oito anos depois de Ace Combat 7: Skies Unknown, Ace Combat regressa à PS5, às Xbox Series X|S e ao PC com Ace Combat 8: Wings of Theve e uma ideia que se percebe logo na primeira missão, o céu deixou de ser pano de fundo e passou a ser parte do combate. As nuvens escondem-nos, desorientam-nos e escondem também quem nos persegue. É a mudança mais interessante, e é a que melhor justifica o número oito no título.
Desenvolvido pela Project Aces e publicado pela Bandai Namco, Ace Combat 8: Wings of Theve mantém-se fiel ao ADN arcade da série. Não é um simulador de voo. É um jogo de ação aérea em que a fantasia de ser piloto de caça pesa mais do que a física de uma aeronave real.
Passa-se no universo de Strangereal, onde a Federação da Usea Central foi invadida pela República de Sotoa. Assumimos o papel de Rex, um piloto que herda o nome e o peso simbólico de uma lenda da força aérea. A grande novidade de apresentação é a narrativa em primeira pessoa, que nos coloca dentro da história e não apenas à sua volta.
Gameplay e combate aéreo
O combate de Ace Combat 8 assenta em ideias simples e bem calibradas. Aproximamo-nos do alvo, ganhamos posição, bloqueamos o míssil no momento certo e usamos contramedidas como chaff e flares quando somos nós a presa. As manobras são fáceis de executar, e é essa acessibilidade que deixa espaço para a profundidade surgir noutro lado.
Essa profundidade vem do ambiente. Os rastos de condensação, o fumo negro de uma aeronave danificada e os reflexos permitem localizar inimigos sem depender exclusivamente do radar. Obriga a levantar os olhos do mapa e a ler o céu, o que dá ao jogador atento uma vantagem palpável.
A meteorologia completa o gameplay. Entrar numa formação de nuvens pode servir de refúgio contra mísseis, mas tem o custo de perder referências visuais, e quem nos persegue pode aproveitar essa fragilidade. Este tipo de decisão torna os confrontos mais tridimensionais do que a simples troca de voltas apertadas que marcou jogos anteriores.
Os comandos rápidos para os ala, herdados de Ace Combat 5: Squadron Leader, regressam com ordens como ataque disperso, fogo de cobertura e fogo concentrado. A mecânica de destruição em cadeia, em que um alvo bem escolhido arrasta outros consigo, acrescenta momentos de satisfação imediata nas missões.
Quem procura realismo vai encontrar aqui uma abordagem demasiado permissiva. Quem quer ação fluida, legível e espetacular tem motivos para ficar satisfeito.

Missões e campanha
A campanha tem 30 missões e demora cerca de vinte horas. É um salto claro face às 20 missões base de Ace Combat 7, e a variedade é o argumento principal para justificar a duração, há ataques a defesas antiaéreas, operações navais, missões de infiltração, batalhas em larga escala e encontros com superarmas.
As superarmas continuam a ser uma assinatura da série e aqui ganham escala. Exigem mais do que perseguir e disparar, porque pedem leitura do inimigo, paciência e adaptação. São, na prática, os momentos em que o jogo se lembra de que é um espetáculo.
O esquadrão Joker Flight, composto por Baxter, Tasha e Noise, dá à história um núcleo humano que a série nem sempre conseguiu. Há charme de anime nos diálogos e uma construção de personagens que cresce com as missões, ainda que o arranque seja mais lento do que o ideal e o universo exija alguma paciência a quem não conhece Strangereal.
O ponto menos conseguido está no desenho de algumas missões, onde a curva de dificuldade sobe de forma abrupta e a estrutura pode soar repetida a quem joga de seguida. Nada que comprometa o conjunto, mas convém saber.

Aeronaves, progressão e personalização
O hangar tem cerca de três dezenas de aeronaves, distribuídas por papéis distintos: multifunções, caças, aparelhos de ataque e guerra eletrónica. O F/A-18C Hornet serve de ponto de partida, e há nomes que os fãs reconhecem, como o F-14D Super Tomcat, o F-4E Phantom II ou o F-22A.
A progressão faz-se através de uma árvore de aeronaves comprada com dinheiro ganho em missão, a que se juntam peças de melhoria e armamento especial. O sistema funciona melhor quando nos obriga a escolher o aparelho certo para cada operação. A diferença entre aviões é suficiente para justificar experiências, sobretudo quando o objetivo muda de ar-ar para ar-terra.
O sistema meteorológico proprietário, chamado Cloudly, é o grande protagonista técnico. Chuva, vento forte, relâmpagos e nuvens em várias camadas criam céus que mudam consoante a missão e interferem com o combate.
A sensação de escala resulta da soma de várias coisas, campos de batalha amplos, rádio constante, aliados que se movem e reagem, superarmas que enchem o horizonte e cenários que variam entre mar, terra e montanha. A intenção é que cada missão pareça parte de uma guerra maior, e na maior parte do tempo consegue-se esse efeito. O jogo suporta ainda formato ultra-wide 21:9, o que reforça a imersão para quem tem o equipamento.

Gráficos
Construído em Unreal Engine 5, Ace Combat 8 brilha mais nas nuvens, na iluminação e nos efeitos atmosféricos do que em qualquer outra área. Os pormenores de água a escorrer pela canopy, os rastos de vapor após uma manobra e a forma como a luz atravessa uma formação densa são o tipo de detalhe que dá espetacularidade ao ambiente.
Os modelos das aeronaves estão muito bem trabalhados, por dentro e por fora, e é por isso que a vista de cabina (cockpit) é a mais recomendável. Dito isto, a evolução face a Ace Combat 7 é mais evidente na atmosfera do que nas aeronaves, que já estavam num patamar elevado. Na minha leitura, o salto é real mas é sobretudo de ambiente.
O áudio faz o que a série sempre fez bem, transforma uma sequência de ações numa guerra. As comunicações por rádio indicam movimentos inimigos, os aliados reagem à ação e a banda sonora acompanha a tensão, com partes mais dramáticas e momentos mais pessoais. A imersão depende muito da mistura entre a voz do rádio e a música, e é aí que o jogo marca pontos.
A interpretação vocal tem aquele tom herdeiro da dobragem de anime, que agrada a quem aprecia o estilo e pode soar exagerado a quem prefere maior contenção.

O modo online chama-se Ace Combat Online e é o maior alguma vez incluído num jogo principal da série. Tem progressão e dados de gravação separados da campanha, avatares persistentes e lobbies com capacidade até 100 jogadores. Todo o jogo online suporta cross-play entre plataformas.
A longevidade vai depender do ritmo de conteúdo e da saúde da comunidade, algo que só o tempo confirma. Fora do online, o valor após a campanha assenta nas dificuldades superiores, nas missões extra, nos pilotos a derrotar e nas aeronaves por desbloquear.

Vale a pena comprar Ace Combat 8: Wings of Theve?
Sim, com uma ressalva. Ace Combat 8: Wings of Theve é uma das melhores razões para voltar a pegar na série de jogos e é um excelente jogo de ação aérea. A campanha é longa, variada e tem identidade, e o combate com o céu a participar é a ideia mais fresca da série em anos.
Recomenda-se a fãs de longa data, que encontram aqui a continuação mais completa de Ace Combat 7, e a quem procura ação aérea acessível e cinematográfica. É também uma boa porta de entrada para novos jogadores, desde que aceitem a abordagem arcade e um enredo que pede alguma paciência com o universo.
Poderá desiludir quem espera simulação, quem se incomoda com modelos de serviço contínuo no online e, sobretudo, quem tem um PC que não cumpre os requisitos ou que prefira esperar pelas correções que estão a ser trabalhadas. Nas consolas, a escolha é mais simples.












