
Um ano depois do lançamento original, Ghost of Yōtei Complete Edition deixa de ser apenas uma sequela de Ghost of Tsushima e passa a ser a forma mais coerente de jogar a aventura de Atsu. O mundo aberto continua a seguir uma fórmula que a Sucker Punch já dominava, mas o jogo sabe quando deve confiar nela e quando deve afastar-se dela, e é aí que ganha identidade própria.
Ghost of Yōtei é um jogo de aventura e ação em mundo aberto, na terceira pessoa, exclusivo da PS5 e com suporte para PS5 Pro. Passa-se em Ezo, em 1603, mais de 300 anos depois de Ghost of Tsushima, e é uma história autónoma. Não precisam de ter jogo o primeiro jogo para se aventurarem em Ghost of Yōtei.
Atsu, a protagonista, regressa à sua terra natal para caçar os Yōtei Six, o grupo responsável pela destruição da sua família. A premissa é simples, e a sua força está na forma como o jogo a usa para justificar um mapa vasto e uma estrutura que permite abordar a vingança pela ordem que o jogador preferir. Podem ler aqui a nossa review de Ghost of Yōtei aquando do seu lançamento.
Ghost of Yotei: Review – O Vento Sopra Mais Forte em Hokkaido
A decisão de design mais importante de Ghost of Yōtei é a substituição das posturas de Jin por um arsenal. Atsu tem cinco armas corpo a corpo: katana, duas katanas, yari, kusarigama e odachi. Troca entre elas em pleno combate, e cada uma tem vantagens contra tipos específicos de inimigos. As duas katanas funcionam bem contra lanças, a odachi impõe-se a adversários grandes e a kusarigama é útil para quebrar escudos.
A lógica é próxima de um jogo de pedra, papel e tesoura, com a diferença de que Atsu pode ainda desarmar inimigos e usar as suas armas. Soma-se a isto o arco, a arma de fogo e utensílios como bombas e pó que cega os adversários.
Esta mudança mostra bem a diferença entre as duas personagens. Jin era um samurai que dominava uma única lâmina, Atsu é uma sobrevivente pragmática que usa o que tiver à mão. O custo está na fluidez, trocar de arma não é tão elegante como trocar de postura, e o ritmo do duelo pode ser interrompido.
O jogo não obriga a trocar de arma, e a katana base é fiável o suficiente para se jogar quase só com ela, o que permite abordagens menos exigentes e deixa a variedade a cargo de quem a procura. As árvores de habilidades de cada arma acrescentam técnicas novas, o que ajuda a manter o combate interessante, mas o essencial continua a ser o mesmo ciclo de ler o inimigo, aparar e contra-atacar.

O combate continua interessante depois de dezenas de horas? Em grande medida sim, desde que o jogador aproveite o sistema de armas. Os encontros são pequenos e bem desenhados, e as formações de inimigos obrigam a mudar de abordagem. A partir de determinado ponto, porém, alguns confrontos começam a parecer-se entre si, e esse desgaste é inerente à estrutura de mundo aberto.
A furtividade tem um papel real nos acampamentos inimigos, onde se pode escolher entre infiltração e confronto direto. O lobo que acompanha Atsu acrescenta opções e fica mais útil à medida que se ajuda os diferentes covis.
Exploração do mundo aberto
Ezo é um mapa grande, variado e menos preenchido de forma artificial do que é normal neste tipo de jogos. Existem pontos de interesse, caçadas a procurados, covis de lobos, altares que melhoram habilidades e encontros pontuais com personagens excêntricas, do ronin obcecado ao mestre de odachi com pouca paciência.
Esta combinação é o que torna explorar genuinamente divertido, porque quase sempre há algo que recompensa um desvio, seja uma habilidade, uma arma ou apenas uma boa cena. A liberdade de abordar a história por qualquer ordem reforça essa ideia.
O problema não é a falta de curiosidade do mundo, é a familiaridade da estrutura. Quem está cansado do género vai reconhecer o padrão, e a fadiga de mundo aberto surge ao fim de algumas dezenas de horas. A dinâmica meteorológica, inspirada no clima da região, e a beleza do cenário atenuam esse efeito.
A força das missões está na forma como usam o mundo. Os confrontos com os Yōtei Six e os seus acampamentos dão à campanha principal uma estrutura de caçada, e as histórias secundárias tendem a ser mais curtas e mais surpreendentes do que o habitual. Há humor, há melancolia e há encontros que não acabam necessariamente numa luta.

A repetição existe nas atividades de menor importância, e o jogo não disfarça bem que algumas funcionam por rotina. Ainda assim, a variedade de armas, de inimigos e de abordagens ajuda a evitar que a sensação de repetição se instale cedo.
A vingança nunca foi tão bela
A história de Ghost of Yōtei é mais pessoal do que a de Ghost of Tsushima. Em vez de um conflito entre honra e pragmatismo, é um percurso de vingança que o jogo faz questão de tornar mais complexo, falando de cura e de redenção.
Atsu funciona porque é pragmática, teimosa e vulnerável sem recorrer a estereótipos. Na história tem motivação própria e é uma protagonista que não é uma versão feminina de Jin.
A progressão assenta em árvores de habilidades associadas às armas, em amuletos que alteram o estilo de combate, em equipamento e em melhorias. Os mestres que ensinam cada arma tornam as novas capacidades mais orgânicas, e as habilidades acrescentam movimentos e opções em vez de apenas números.
A personalização é generosa em termos cosméticos, com armaduras, tintas e opções visuais que a atualização veio expandir.
Direção artística e gráficos
A direção artística é excelente em Ghost of Yōtei. A composição dos cenários, a paleta de cada região, o uso do vento, da neve e das flores e o contraste entre planícies e montanhas, com o Monte Yōtei como marco, dão ao jogo uma identidade visual coesa.
O jogo mantém o Modo Kurosawa e acrescenta modos inspirados em Takashi Miike e Shinichiro Watanabe, que mudam o tom da imagem e da música. A atualização 2.0 traz ainda o modo “Beleza de Yōtei”, uma vista contemplativa dos ambientes que também serve para o Modo Foto.

Existem modos gráficos orientados para qualidade, para desempenho e para ray tracing. O alvo de 60 fotogramas por segundo existe no modo de desempenho, e os de qualidade e ray tracing apontam para 30.
Tal como referi na review do jogo, o DualSense faz diferença. Os gatilhos adaptativos e a vibração háptica são usados de forma contextual, como no acender de fogueiras ou em mini-jogos, e o toque é aplicado de forma discreta durante o combate. Quem preferir pode desligar o efeito dos gatilhos. Não transforma o jogo, mas reforça o contacto com o mundo.
A banda sonora tem um papel essencial na atmosfera, com música que sublinha a solidão e o ritmo dos duelos. O áudio ambiente, do vento aos sons da natureza, dá consistência ao cenário, e o silêncio funciona como parte da narração. O Modo Watanabe acrescenta batidas lo-fi e muda o carácter do jogo, e a atualização 2.0 traz-lhe novas faixas.

A Complete Edition inclui o jogo base, o modo Legends, a expansão Echoes of Sekigahara, o modo “Mais Procurados” e todo o conteúdo da Digital Deluxe Edition. Traz ainda novos cosméticos e Troféus para os novos conteúdos.
Echoes of Sekigahara divide-se entre o presente e flashbacks do passado de Atsu, uma nova região, novas armas e armaduras. É uma expansão curta, que é de valorizar mais pela narrativa do que por novidades de jogabilidade.
Mais Procurados é um modo roguelike em que se aceitam recompensas, enfrentam ondas de inimigos e se desbloqueiam personagens.

A campanha principal ocupa dezenas de horas, e o tempo total varia muito conforme o interesse pelas missões secundárias. A estas somam-se a expansão, o Mais Procurados, o Legends, o New Game+ e os desafios dos acampamentos.
A experiência definitiva de Ghost of Yōtei
O que gostei
O sistema de armas dá ao combate uma lógica de leitura e adaptação que a franquia não tinha. A direção artística transforma o mapa num lugar que se quer visitar. Atsu é uma protagonista com voz própria, e a estrutura livre da vingança respeita o ritmo do jogador. A Complete Edition acrescenta ainda uma razão concreta para regressar, com Echoes of Sekigahara e Mais Procurados.
O que podia ser melhor
O mundo aberto segue um padrão que gera cansaço em quem já o conhece. O terço final da história divide opiniões, a expansão é curta e o Mais Procurados tem um arranque lento.
Vale a pena comprar Ghost of Yōtei Complete Edition?
Sim, sobretudo para quem ainda não jogou. Ghost of Yōtei Complete Edition junta um bom jogo de mundo aberto, uma protagonista forte e dois conteúdos que acrescentam variedade, e é a forma mais completa de o experimentar.
Deve jogá-lo quem gostou de Ghost of Tsushima, quem procura um mundo aberto com identidade visual forte e quem aprecia combate baseado em leitura e resposta. É uma boa porta de entrada para novos jogadores, porque a história é independente. Poderá desiludir quem já está saturado do género, quem prefere narrativas mais concisas ou quem esperava uma revolução de jogabilidade.











