Quando se fala nos melhores filmes de animação, é tentador medir tudo em bilheteiras e prémios. Mas há obras cuja importância se mede de outra forma, pelas técnicas que inauguraram, pelos públicos que conquistaram e pelos estúdios que cresceram, ou quase desapareceram, por causa delas. Aqui ficam 8 dos filmes de animação mais influentes de sempre, num percurso que atravessa quase nove décadas de cinema, de 1937 a 2025.
8Branca de Neve e os Sete Anões
Tudo começou em 1937. A 21 de dezembro desse ano, o Carthay Circle Theatre, em Hollywood, acolheu a estreia de Snow White and the Seven Dwarfs (Branca de Neve e os Sete Anões), o primeiro filme de animação em celuloide com duração de longa-metragem. Não foi a primeira longa-metragem animada da história, ao contrário do que por vezes se ouve, mas foi a primeira americana, a primeira feita por um grande estúdio e a primeira em Technicolor.
Na altura, quase ninguém acreditava no projeto. A ideia de levar o público adulto a ver um desenho animado durante mais de uma hora valeu-lhe o apelido de a loucura de Disney, e o próprio Walt Disney chegou a hipotecar a casa para ajudar a pagar uma produção que custou cerca de 1,5 milhões de dólares. A resposta do público foi esmagadora, o filme arrecadou cerca de 8 milhões de dólares no primeiro lançamento e valeu a Disney um Óscar honorário, entregue por Shirley Temple.
Mais do que um êxito, foi a prova de que a animação podia ser poderosa e rentável ao mesmo tempo, o que levou outros estúdios a arriscar o meio e fez da Disney o gigante que hoje se conhece. Do ponto de vista técnico, o filme levou a câmara multiplano a um nível de perfeição inédito e originou o primeiro disco de banda sonora original alguma vez editado.
7Toy Story
Quase seis décadas depois, a animação deu outro salto, desta vez tecnológico. Toy Story estreou a 22 de novembro de 1995 e foi o primeiro filme inteiramente feito por computador, fruto de um acordo entre a Disney e a Pixar assinado em 1991. O plano inicial era um especial de televisão de meia hora, mas a Disney insistiu numa longa-metragem.
O resultado ultrapassou as expectativas. O filme arrecadou 39,1 milhões de dólares no fim de semana de estreia, rendeu cerca de 373 milhões em todo o mundo com um orçamento de 30 milhões, e valeu a John Lasseter um Óscar especial e uma nomeação para melhor argumento original, a primeira de um filme de animação nessa categoria.
O efeito dominó foi rápido. A DreamWorks, cofundada por Steven Spielberg, anunciou logo que o seu primeiro filme seria em animação digital, e os outros estúdios seguiram o exemplo. Dez anos depois, a Disney reconheceu que o futuro passava pelo computador e comprou a Pixar, em 2006, por 7,4 mil milhões de dólares. Toy Story popularizou a fórmula do e se este objeto tivesse sentimentos?, que a Pixar repetiu várias vezes e que muitos outros estúdios acabaram por copiar.
6Akira
Em 1988, do outro lado do mundo, Katsuhiro Otomo apresentava Akira. O diretor chegou a dizer à mulher que o filme era um fracasso depois de ver as primeiras imagens da produção. Estava longe de ser verdade, e o que se seguiu foi um dos projetos mais ambiciosos da animação japonesa.
Otomo arriscou onde outros não arriscavam, a produção usou mais de 160 mil células de animação, recorreu a um gravador de ação rápida para testar a fluidez dos movimentos e adotou diálogos gravados antes da animação, algo inédito no anime. O resultado foi uma ficção científica sombria, com violência, horror corporal e temas adultos, que mostrou que a animação podia contar histórias duras.
O impacto no Ocidente foi enorme. Até então, a animação por lá era vista quase só como entretenimento infantil, e até um remake de Astro Boy dos anos 80 seguia o modelo da Disney. Akira obrigou o público a aceitar o anime como era e abriu a porta para que a animação não americana fosse levada a sério. A influência chegou ao cinema, com a mota de Kaneda a aparecer em Ready Player One, e à música, com o videoclipe de Stronger, de Kanye West.
Hoje, o filme já não ocupa o mesmo espaço no imaginário dos mais novos, que associam a animação japonesa ao Studio Ghibli e a séries como Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba. Mas foi Akira que ajudou a abrir caminho a todos eles.
5The Nightmare Before Christmas
A história deste filme começa em 1982, num poema escrito por Tim Burton quando era animador na Disney. Depois do sucesso da curta-metragem Vincent, no mesmo ano, o estúdio chegou a considerar transformar a ideia numa curta ou num especial de televisão de 30 minutos, mas o projeto só avançou em 1990, quando Burton fechou um acordo de desenvolvimento com a Disney. A produção arrancou em São Francisco em julho de 1991.
Há aqui um detalhe que costuma passar despercebido. A direção foi de Henry Selick, que fez a sua estreia em longas-metragens, e não de Burton, que concebeu a história e foi produtor. Burton não chegou a dirigir por incompatibilidade de agenda. Danny Elfman assinou as canções e a banda sonora e foi também a voz cantada de Jack.
A Disney acabou por estrear o filme através da Touchstone Pictures, por o considerar demasiado escuro e assustador para os mais novos. A estreia foi no New York Film Festival, a 9 de outubro de 1993, e o lançamento nacional chegou a 29 de outubro. Com o tempo, o público inverteu a leitura do estúdio, o filme foi nomeado para o Óscar de melhores efeitos visuais, uma estreia para um filme de animação, e tornou-se o primeiro filme de stop-motion convertido integralmente para 3D pela Disney.
O impacto fora do ecrã, em t-shirts, tatuagens e artigos de coleção, mostrou o potencial do stop-motion e abriu caminho a obras como Chicken Run e Coraline.
4A Viagem de Chihiro
Estreado no Japão a 20 de julho de 2001, A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, tornou-se rapidamente um fenómeno. Com um orçamento de 19 milhões de dólares, rendeu cerca de 396 milhões em todo o mundo e foi o filme mais rentável da história do Japão durante 19 anos, até ser ultrapassado, em 2020, por Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – The Movie: Mugen Train. Antes, tinha ainda partilhado o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2002.
O momento decisivo foi o Óscar de melhor filme de animação, em 2003. Spirited Away (A Viagem de Chihiro) tornou-se o primeiro, e até hoje o único, filme desenhado à mão e falado numa língua que não o inglês a vencer a categoria. Miyazaki não esteve na cerimónia, em protesto silencioso contra a guerra do Iraque, e, depois da vitória, o filme voltou aos cinemas norte-americanos em 714 salas.
A importância do filme está no que provou. Mesmo depois de Akira, a animação continuava a ser vista como um meio essencialmente americano, e Spirited Away mostrou o contrário, com uma obra sem receio das suas raízes japonesas. A isto junta-se uma mensagem ambientalista, a crítica ao consumismo e ao capitalismo e uma protagonista que não começa a história como alguém forte, uma escolha pouco comum no género.
3Shrek
Quando chegou aos cinemas, a 18 de maio de 2001, Shrek não tinha o estatuto de favorito que hoje lhe atribuímos. A co-realizadora Vicky Jenson recorda que o filme era visto internamente de forma pouco entusiasta: “Quando entrei no filme, Shrek era considerado a Sibéria na DreamWorks”. O desfecho foi bem diferente. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes, o primeiro filme de animação a fazê-lo desde Peter Pan, em 1953, e arrecadou mais de 490 milhões de dólares em todo o mundo.
Foi ainda o primeiro vencedor do Óscar de melhor filme de animação e ajudou a consolidar a DreamWorks Animation como rival direto da Pixar na animação por computador. Temos três razões para a influência do filme: a música, o humor e a sátira. Em vez de um musical com canções originais, Shrek recorreu a temas pop conhecidos, como All Star, dos Smash Mouth, e a banda sonora chegou ao topo da tabela de bandas sonoras da Billboard.
O humor era mais irreverente e o tom mais brejeiro do que o habitual nos filmes de animação, e a paródia aos contos de fadas, sobretudo aos da Disney, apresentava-os de uma forma que o público ainda não tinha visto. A fórmula ficou a ecoar durante anos em muitos outros filmes que apostaram em referências à cultura popular.
Em 2020, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos escolheu o filme para o Registo Nacional de Filmes, o primeiro filme de animação do século XXI a receber essa distinção.
2The Iron Giant
É talvez a escolha mais surpreendente da lista. The Iron Giant, de Brad Bird, estreou em 1999 e foi um fracasso de bilheteira, arrecadou 31,7 milhões de dólares com um orçamento de 50 milhões. A crítica elogiou-o, mas a Warner Bros. quase não o promoveu. O estúdio vinha de outro desaire, Quest for Camelot, e não houve sequer uma parceria promocional como as que a concorrência fazia.
O que lhe deu o lugar nesta lista foi o que aconteceu depois. Através do vídeo doméstico e da televisão, o filme foi ganhando um público fiel até passar de esquecido a clássico de culto e, por fim, a clássico sem mais rótulos. É a prova de que mesmo um filme com pouco apoio pode ser influente.
Era a estreia de Bird na realização de longas-metragens e a premissa partia de uma pergunta que ele fez aos responsáveis da Warner: e se uma arma tivesse alma e escolhesse não ser uma arma?. Essa ideia, uma reflexão sobre os perigos das armas, é fácil de entender para adultos e crianças.
A carreira de Bird também sairia a ganhar. Depois deste filme, tornou-se o primeiro realizador externo a dirigir uma longa-metragem na Pixar, com The Incredibles, em 2004, que venceu o Óscar de melhor filme de animação.
1Ne Zha 2
O mais recente da lista é também o mais rentável. Ne Zha 2, realizado por Yang Yu, também conhecido como Jiaozi, estreou na China a 29 de janeiro de 2025, durante o Ano Novo Lunar. Em poucas semanas, ultrapassou Inside Out 2 como o filme de animação de maior bilheteira de sempre.
Os números são impressionantes. Foi o primeiro filme de animação a passar os 2 mil milhões de dólares, e o primeiro filme fora de Hollywood a superar os mil milhões, com mais de 99% da receita vinda da China continental. Chegou a ocupar o quinto lugar entre os filmes mais rentáveis de sempre, com um orçamento estimado em 80 milhões de dólares, menos de metade do de Inside Out 2.
Números assim tornam o filme influente por defeito, e a sua marca tenderá a crescer à medida que outros estúdios analisarem o que o tornou tão popular. A combinação de efeitos digitais avançados com padrões de arte chinesa e uma história assente em mitos, magia e folclore da China, bem como em filosofias taoistas e budistas, resultou muito bem
O filme é a sequela de Ne Zha, de 2019, e baseia-se num romance chinês do século XVI, A Investidura dos Deuses.









