Há géneros que se gastam com o tempo, e o isekai é um dos que mais sentiram essa pressão. Todas as temporadas chegam novos títulos sobre personagens que reencarnam ou são transportadas para outro mundo, e a sensação de repetição é cada vez mais difícil de ignorar. Ainda assim, entre tantas variações da mesma ideia, há séries que conseguiram dar a volta à fórmula e deixar marca.
10Zenshu
O estúdio MAPPA é conhecido por projetos de grande escala, mas não é habitual vê-lo no isekai. Zenshu, uma produção original estreada em janeiro de 2025 e sem qualquer obra de origem, mostra que o estúdio sabia o que estava a fazer quando decidiu entrar no género. A animação é cuidada do início ao fim, e a série cabe em apenas 12 episódios, o que a torna uma boa porta de entrada para quem nunca se interessou por isekai.
A protagonista é Natsuko Hirose, uma jovem diretora de animação considerada um génio depois de o seu primeiro anime se tornar um sucesso. O problema surge quando lhe pedem uma comédia romântica sobre o primeiro amor, algo que nunca viveu, e o projeto fica bloqueado. É nesse contexto que acaba transportada para o mundo de A Tale of Perishing, a obra que a fascina desde criança. O próprio título faz referência a uma expressão usada na indústria da animação, que significa corrigir tudo ou recomeçar do zero.
O que distingue Zenshu de muitos isekai recentes é o foco. Em vez de a protagonista querer ficar no novo mundo, o objetivo é regressar a casa, como nas histórias mais clássicas do género. Ao longo do caminho, Natsuko enfrenta uma ameaça existencial e é forçada a crescer enquanto pessoa, aprendendo a lidar com os outros e com as suas próprias falhas.
9The Wrong Way to Use Healing Magic
Estreado em janeiro de 2024, com 13 episódios produzidos pelo Studio Add e pela Shin-Ei Animation, este anime parte de um cliché conhecido, o protagonista que recebe uma habilidade supostamente fraca. Usato Mikuri, um estudante comum, é arrastado para outro mundo por engano, juntamente com a presidente do conselho de alunos e um colega de turma, e descobre que tem afinidade com magia de cura, uma capacidade rara naquele lugar.
Seria fácil seguir o caminho habitual e transformá-lo num herói invencível, mas a série evita-o. Usato é entregue à equipa de resgate liderada por Rose e passa por um treino brutal, no qual aprende a usar a cura de maneiras pouco convencionais para aguentar esforços que ninguém aguentaria. Os resultados são visíveis, mas o protagonista está longe de ser todo-poderoso.
Essa contenção acaba por ser a grande vantagem do anime. A história não gira em torno de uma única personagem capaz de resolver tudo, e as personagens secundárias têm espaço para brilhar. A adaptação da light novel de Kurokata já tem segunda temporada confirmada.
8Trapped in a Dating Sim
A premissa de Trapped in a Dating Sim é simples de explicar e surpreendentemente eficaz na prática. Leon, um antigo funcionário de escritório, reencarna no mundo de um jogo otome que conhece de cor, um lugar onde as mulheres dominam a sociedade e os homens comuns têm pouco ou nenhum estatuto. A série, adaptada das light novels de Yomu Mishima, estreou em abril de 2022 com 12 episódios, produzidos pelo estúdio ENGI.
O humor assenta no facto de Leon usar o que sabe do jogo para travar acontecimentos importantes antes de se concretizarem, como quem joga em novo jogo com o conhecimento da primeira vez. O objetivo, porém, é modesto, o que ele quer é uma vida tranquila no campo. Em vez de ser recompensado por ser poderoso, como acontece com muitos protagonistas modernos, Leon luta contra um sistema que o rejeita, e as pessoas à sua volta contrariam-no constantemente por ele não se encaixar.
É esse atrito que torna as suas vitórias mais interessantes. A segunda temporada, anunciada há vários anos, estreou a 8 de julho de 2026, de novo com o estúdio ENGI e com Kazuya Miura na direção.
7From Bureaucrat to Villainess: Dad’s Been Reincarnated!
Quando um subgénero fica saturado, surgem ideias que só fazem sentido nesse contexto, e esta é uma delas. Kenzaburo Tondabayashi é um funcionário público de 52 anos que acorda no corpo de Grace Auvergne, a vilã do jogo otome favorito da filha. O anime, produzido pelo estúdio Ajiado e emitido entre janeiro e março de 2025, tem 12 episódios e é baseado no mangá de Michiro Ueyama, publicado desde 2020.
A piada central está na incompatibilidade entre a personagem e quem a habita. Kenzaburo tenta comportar-se como uma vilã, mas a educação e o bom senso de um adulto equilibrado estragam o plano a cada passo. Em vez de rivalizar com a heroína, trata-a como trataria uma filha, e acaba por alterar o rumo das personagens e da própria história do jogo.
A mulher e a filha, ambas assumidamente otakus, tornam-se aliadas improváveis e procuram ajudá-lo a regressar. A série aproveita alguns clichés do género e ignora ou subverte outros, e o resultado é uma comédia leve e simpática, sem grandes pretensões.
6I’ll Become a Villainess Who Goes Down in History
As histórias de vilãs costumam partir do mesmo ponto, a protagonista descobre que reencarnou como antagonista e tenta, por todos os meios, evitar o destino trágico. Aqui o caminho é o oposto. Alicia Williams, reencarnada no jogo otome que conhecia, sempre se identificou mais com as vilãs do que com as heroínas, e encara a nova vida como a oportunidade de se tornar a maior vilã de que há memória.
A sua visão de vilã é peculiar. Para Alicia, ser vilã é basicamente ter poder para fazer o que quiser, e a série mostra-a a treinar com empenho para chegar a esse ideal. A confiança que tem em si própria não é infundada, e o anime, produzido pela Maho Film e estreado a 1 de outubro de 2024, vai mostrando os resultados desse esforço.
Apesar do tom geralmente leve, a história não se limita à comédia. Explora também temas mais sombrios, sobretudo através da relação entre Alicia e a heroína do mundo, algo pouco habitual noutros animes do mesmo subgénero e que acaba por ser um dos pontos mais interessantes da série.
5The Most Heretical Last Boss Queen
Em grande parte dos isekai de vilãs, o lado vilanesco é tratado com humor, e a protagonista resolve tudo decidindo simplesmente ser boa pessoa. The Most Heretical Last Boss Queen vai noutra direção. Pride Royal Ivy descobre aos oito anos que reencarnou como a futura rainha tirana de um jogo otome, e o corpo que herdou tem um passado pesado, a versão anterior de si própria usou os seus poderes para tornar infelizes todos os que a rodeavam.
A série interessa-se pelas consequências dessa herança. Pride arrisca a vida várias vezes para corrigir erros que não cometeu, mas dos quais não se pode desligar, e esforça-se por evitar que se repitam no futuro. É uma abordagem mais séria do que a habitual e a que melhor responde a uma pergunta que muitos espectadores já colocaram, o que acontece, de facto, a quem assume o lugar de uma vilã?
A primeira temporada, da OLM Team Yoshioka, foi exibida entre julho e setembro de 2023, com 12 episódios, e a segunda estreou a 7 de abril de 2026, com Norio Nitta de novo na direção. A história é adaptada da light novel de Tenichi.
4Uncle from Another World
O isekai tradicional apresenta o protagonista a descobrir um mundo desconhecido. Uncle from Another World inverte a lógica e pergunta o que acontece depois, como é regressar a casa depois de salvar outro mundo, e ainda por cima conservando todos os poderes que permitiram sobreviver lá.
Yosuke Shibazaki, o tio do anime, acorda de um coma que durou 17 anos e garante ter passado esse tempo noutro mundo. O sobrinho, Takafumi, acolhe-o em sua casa e, com a ajuda da amiga de infância Sumika, tenta ajudá-lo a adaptar-se a uma sociedade que mudou muito, com smartphones, internet rápida e todo o universo dos animes e dos videojogos modernos.
A série, adaptada do mangá de Hotondoshindeiru e produzida pelo Atelier Pontdarc, foi exibida entre julho de 2022 e março de 2023, em 13 episódios. Desde o início mostra que não tem medo de gozar consigo própria e com o isekai em geral. Os flashbacks do mundo fantástico existem, mas o humor vem sobretudo da forma como o protagonista tenta reajustar-se ao mundo real, e das muitas referências à Sega.
3The Red Ranger Becomes an Adventurer in Another World
Há ideias que só podem surgir quando um género está tão explorado como o isekai, e esta é uma delas. Togo Asagaki era o Red Ranger de uma equipa de heróis e, depois do confronto final com a organização que ameaçava o seu mundo, acaba noutro, de fantasia. O anime, do estúdio Satelight e estreado a 12 de janeiro de 2025, baseia-se no mangá de Koyoshi Nakayoshi, publicado na revista Monthly Shonen Gangan desde 2020.
Embora o objetivo inicial seja voltar a casa, Togo decide usar os poderes para ajudar quem precisa, o que o leva a transformar-se em Kizuna Red e a juntar-se a um grupo de heróis completamente diferente. A série funciona como uma paródia à Super Sentai, a franquia que deu origem aos Power Rangers, mas faz questão de demonstrar carinho por ela.
Esse carinho vê-se em vários detalhes. Antigos intérpretes de Super Sentai, como Masaya Matsukaze, Mika Kikuchi, Hiroshi Tsuchida e Arisa Komiya, fazem parte do elenco de vozes, e os flashbacks são apresentados como se fossem episódios de uma série Sentai. O temperamento impetuoso de Togo garante ainda boas cenas de ação, e o equilíbrio entre comédia e combate é um dos trunfos da produção.
2My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom!
Se existe uma série responsável pela popularidade das vilãs no isekai, é esta. Katarina Claes, filha de um duque, bate com a cabeça e recupera as memórias da vida anterior. Percebe então que vive no mundo de Fortune Lover, um jogo otome em que ela é a vilã, e que todos os finais possíveis lhe reservam exílio ou morte.
A partir daí, Katarina começa a preparar planos para escapar ao destino. O problema é que não é particularmente esperta, e as estratégias são tão absurdas que parecem condenadas ao fracasso. O que a salva é o carisma, e o resultado é um grupo de admiradores cada vez maior à sua volta, construído de forma completamente involuntária. É não só um dos melhores isekai dos últimos anos, como uma das melhores comédias da década.
Convém, no entanto, fazer uma ressalva. A primeira temporada, do estúdio Silver Link e adaptada da light novel de Satoru Yamaguchi, estreou em abril de 2020, ou seja, fora da janela dos cinco anos. A segunda, My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom! X, chegou a 2 de julho de 2021, e em dezembro de 2023 estreou ainda um filme nos cinemas japoneses.
1Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation
Apesar dos elementos problemáticos que a obra contém, nenhum isekai estreado nos últimos cinco anos chega ao nível de Mushoku Tensei. A história acompanha Rudeus Greyrat, que renasce noutro mundo e decide dar tudo numa segunda oportunidade, e segue-o desde a infância até à idade adulta. O anime, do Studio Bind, é adaptado da light novel de Rifujin na Magonote, ilustrada por Shirotaka.
O principal trunfo está na construção do mundo e no desenvolvimento das personagens. Poucos isekai se dedicam tanto a estas duas componentes, e a série tem o cuidado de fazer entrar e sair personagens da vida de Rudeus, criando um universo que parece real mesmo quando ele não está em cena. Há momentos de grande carga emocional e combates bem conseguidos, e é essa combinação que a mantém como a referência da década.
A primeira temporada estreou em janeiro de 2021 e teve 23 episódios, divididos em dois blocos. A segunda foi exibida em duas partes, em julho de 2023 e abril de 2024, e a terceira estreou a 5 de julho de 2026, com a direção de Ryosuke Shibuya. Esta nova etapa adapta o volume 14 da light novel, em que Rudeus, Nanahoshi e o grupo visitam a misteriosa fortaleza flutuante de Perugius, e uma doença grave ameaça um dos seus.



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