
Menos de 24 horas depois da publicação de um anúncio de emprego para um diretor criativo de dobragens com inteligência artificial, a Amazon removeu discretamente a oferta. A posição, publicada a 17 de janeiro, tinha como objetivo liderar o desenvolvimento de uma plataforma de dobragens geradas por IA para o Prime Video, com o anime especificamente mencionado entre os tipos de conteúdo a serem trabalhados.
O anúncio procurava um diretor criativo para a equipa LEAP (Localization Enablement & Accessibility Program) do Prime Video, responsável por “definir a visão criativa para a plataforma de dobragens habilitada por IA” da empresa. Entre as responsabilidades estava expandir as capacidades de dobragem com IA para novos idiomas e tipos de conteúdo, incluindo anime, documentários e ficção.
A descrição do cargo prometia “estabelecer novos padrões da indústria para narrativa internacional imersiva e emocionalmente autêntica em escala”, através do desenvolvimento de fluxos de trabalho híbridos que combinam eficiência da IA com refinamento artístico e culturalmente relevante.
Recuo após reação massiva
Esta aposta renovada na tecnologia surge apenas algumas semanas depois da Amazon ter recuado numa tentativa anterior de implementar dobragens geradas por IA. Em novembro e dezembro de 2025, a plataforma lançou versões com vozes artificiais de anime populares como Banana Fish, pet e No Game, No Life Zero em inglês, além de Banana Fish e Vinland Saga em espanhol.
A qualidade das dobragens foi amplamente criticada por espectadores e profissionais da indústria, com vozes robóticas e sem emoção que falhavam completamente em transmitir a profundidade dramática das obras originais. A reação foi tão intensa que a Amazon removeu silenciosamente as dobragens em inglês poucos dias depois.
O ator de voz Daman Mills, conhecido por dar voz a Frieza em Dragon Ball Super, foi um dos primeiros a manifestar-se contra a iniciativa. “Atores de voz merecem o mesmo nível de respeito que os artistas em frente às câmaras. O anime já paga muito pouco aos talentos. Os custos de produção de dobragens não devem fazer mossa nos bolsos destas empresas”, escreveu Mills nas redes sociais.
Amazon recua e remove vozes criadas por IA de Banana Fish e No Game No Life Zero
Estudios desconheciam decisão
A polémica agravou-se quando vários estúdios afirmaram não ter autorizado as dobragens com IA. A Kadokawa declarou que nunca aprovou uma dobragens com IA “de qualquer forma”. Fontes da HIDIVE, que tinha dobrado No Game, No Life Zero, afirmaram que “não estavam cientes antecipadamente” da dobragem alternativa com IA antes do seu lançamento na Amazon e que estavam em contacto com a empresa.
No caso de No Game, No Life Zero, a situação foi particularmente estranha: a Amazon criou uma versão com IA apesar de já existir uma dobragem profissional em inglês produzida pela Sentai Filmworks, que estreou a obra nos cinemas norte-americanos em 2017.
A Amazon não está sozinha neste caminho. A Netflix anunciou esta semana aos acionistas que está a expandir o uso de IA para melhorar a localização de legendas, afirmando estar a usar “IA para melhorar a localização de legendas, facilitando que os nossos títulos cheguem a mais espectadores em todo o mundo”.
Netflix confirma uso de inteligência artificial para otimizar legendas
Disney e Crunchyroll também exploraram a prática, embora a Crunchyroll tenha recuado após controvérsia própria. O CEO Rahul Purini chegou mesmo a afirmar que a empresa considera os atores de voz como “criadores porque estão a contribuir para a história e enredo com a sua voz”.
A remoção do anúncio de emprego da Amazon acontece numa altura em que a empresa prepara uma nova vaga de despedimentos corporativos, com relatos a indicar que milhares de posições podem ser eliminadas já na próxima semana. A razão específica para a remoção do anúncio de diretor criativo de dobragens com IA permanece desconhecida.









