
Quando lhe perguntaram quem é, afinal, o Tsubasa da vida real, Yoichi Takahashi não precisou de pensar muito. Riu-se e respondeu: “Messi, provavelmente“. A frase fecha uma entrevista publicada esta sexta-feira no Anime Corner, em que o autor de Captain Tsubasa fala do jogo entre o Japão e o Brasil no Mundial deste ano, da origem do nome da personagem e do motivo pelo qual recusou escrever um treinador implacável.
Takahashi era um adolescente de Tóquio quando viu o Mundial de 1978, na Argentina, pela televisão. Começou a publicar Captain Tsubasa em 1981, numa altura em que o Japão nem sequer tinha uma liga profissional, com a intenção de ajudar a popularizar a modalidade. A J.League seria fundada em 1993, e o Japão passou a marcar presença regular em fases finais de campeonatos do mundo.
O alcance da obra foi muito além do Japão. Messi e Andrés Iniesta leram e viram a série durante a infância, e juntaram-se a uma lista nomes de jogadores que foram influenciados pelo anime como Zidane, Mbappé, Thierry Henry e Del Piero.
A ligação entre o autor e o argentino não se fica pela inspiração. Takahashi já desenhou versões em mangá de Messi e de Takefusa Kubo, com camisolas inspiradas em Captain Tsubasa, para cartas do eFootball. Ele esteve no Qatar para assistir à final do Mundial de 2022 e ficou satisfeito por ver Messi finalmente levantar o troféu.
Japão contra Brasil, o jogo que o mangá anunciava
Takahashi diz que a obra sempre apontou ao Brasil. Tsubasa admirava o futebol brasileiro acima de tudo, profissionalizou-se em São Paulo e teve como mentor Roberto Hongo, um nipo-brasileiro que tinha jogado pela seleção do Brasil. Por isso, o autor descreve o duelo do Mundial como algo especial: “Jogar contra o Brasil num Mundial é algo especial“.
O jogo disputou-se a 29 de junho, em Houston, e acabou com uma vitória brasileira por 2-1. O Japão tinha aberto o marcador por Kaishu Sano, aos 29 minutos, mas o Brasil virou com golos de Casemiro e de Martinelli, já no período de compensação. Takahashi encara o desfecho com serenidade: “Perdemos, sim, mas foi um jogo maravilhoso. Estou satisfeito“.
Quando Takahashi começou, o género dominante no Japão era o que se chamava supokon, histórias desportivas de treinos brutais, treinadores impiedosos e heróis que se tornam fortes à custa de sofrimento. A sua ideia foi a oposta: “O desporto deve ser divertido. Pontapear uma bola é divertido, pontapear uma bola com os amigos é divertido, e é por isso que se joga“.
Queria afastar a sensação de obrigação e mostrar um rapaz que joga por escolha própria. É daí que vem a ideia de a bola ser uma amiga, uma frase que quase se tornou provérbio no Japão. O autor garante que não a criou a pensar em fazer história, surgiu a partir de uma lição do mentor Roberto, segundo a qual quem está sempre com a bola acaba por melhorar. “Estar sempre com a bola, pensei, é o mesmo que ser amigo dela“, explica.
O protagonista esteve perto de se chamar Tsubasa Taro. Takahashi conta que Tsubasa, que significa asas, estava decidido desde o início e que Ozora foi acrescentado depois.
Rivais que cresceram mais do que o previsto
Para tornar a história de Tsubasa mais interessante, a primeira ideia foi Wakabayashi, um guarda-redes contra um jogador de campo, com a tensão simples de saber se a bola entra ou não. Hyuga veio depois e foi construído como o contrário exato do protagonista. A família de Tsubasa vive com algum conforto, a de Hyuga é pobre e ele entrega jornais para poder continuar a jogar. Tsubasa é aberto e luminoso, Hyuga é feroz.
O autor diz que todos os rivais nasceram assim, a partir da pergunta sobre que adversário tornaria a história mais empolgante. Mas houve um efeito inesperado, quanto mais exagerados ficavam, mais os leitores os reconheciam como personalidades próprias. “Wakabayashi e Hyuga cresceram até ficarem ao mesmo nível do próprio Tsubasa“, afirma.
Takahashi é administrador de um clube real, o Nankatsu SC, que compete no quinto escalão do futebol japonês e adotou o nome da equipa escolar fictícia. O criador diz manter os dois mundos separados quando vê os jogos, mas admite que houve momentos em que se tocaram, um jogador que marcou de bicicleta e, por um instante, a ficção e a realidade coincidiram. “Um jogador como o Tsubasa, a marcar um golo como o Tsubasa, no mundo real. Esses momentos ficam connosco”.
A publicação em papel de Captain Tsubasa terminou em abril de 2024, após 43 anos, mas o autor garantiu na altura que a história continuaria online. Entretanto, a Bandai Namco lançou em agosto o videojogo Captain Tsubasa 2: World Fighters, com uma história baseada no arco do Campeonato do Mundo de Juniores, supervisionada pelo próprio Takahashi.









