Não é difícil perceber porque a mais recente aposta da Gearbox Software, recebeu destaque e atenção por parte dos jogadores e da imprensa desde o seu anúncio. O aspeto gráfico sobressaiu imediatamente e destacou-se com um verdadeiro título de próxima geração, enquanto apresentava uma jogabilidade diversificada.

Godfall apresenta-nos uma dupla de irmãos, sendo que um deles se deixa seduzir pela conquista de poder. Durante esta demanda, Macros, combate com o seu irmão, Orin num duelo mortal. Após uma luta sangrenta, Macros atira o seu irmão para um oceano profundo, ciente que sangue do seu sangue já estava morto. Contudo, este sobreviveu e secretamente reúne aliados num dos subsolos do reino. Orin, como último dos Valorian Knights, parte para os campos de Asperion para evitar que Macros, se torne um Deus, e condene toda a humanidade no processo. Como já devem ter-se apercebido a premissa da história não é de todo uma novidade, aliás deixa certas semelhanças com a série Devil May Cry, onde um dos filhos de Sparda procura incansavelmente por poder, enquanto combate contra o seu irmão que se opõe a este. Embora apresente um mundo épico e robusto, cheio de lore, falha por se incidir demasiado no seu marketing e filosofia de jogo.

Desde muito cedo que Godfall, se debruçou no termo “Looter-Slasher” uma mecânica onde podemos reconhecer armamento e equipa-lo na nossa personagem. No entanto, o jogo cegou-se tanto nesta mecânica que até a tornou contraproducente. Pois, devido a esta, o jogo está mergulhado num loop tremendo de repetição que se propaga até os instantes finais do jogo.

Dispersos nos três mundos de Asperion estão vários baús contendo várias categorias de equipamento. Desde espadas a escudos, passando por anéis até armaduras. Este à partida parece um elemento entusiasmante comum em qualquer jogo de aventura. O problema é quando um jogo faz deste elemento a sua única constituinte. Não existem quaisquer missões secundárias ou enigmas para resolver, toda a ação do jogo se cinge a confrontos contra inimigos em corredores ou pequenas arenas, enquanto procuramos por baús de tesouro e prosseguimos a aventura, nada mais nada menos. É certo que com o desenrolar desta se atinge a monotonia, devido a incansável repetição de eventos. Este até poderia ser um mal menor, se a história conseguisse empolgar o jogador, no entanto, esse registo não acontece. Além de ser simples e sem explorar um vasto lore criado para o jogo, resume-se a Orin viajar por três mundos elementais -água, terra e ar- confrontar um general inimigo e partir em frente na sua epopeia. Não existem reviravoltas ou acontecimentos, enfim toda a história e personagens, metaforicamente também podem ser comparadas ao seu fluxo de jogo.

Claro que nem tudo é negativo no mundo de Godfall, e se existe uma área onde não existem dúvidas de qualidade é na sua jogabilidade, contudo para a absorver ao máximo, o jogador terá de desbloquear a maioria das suas habilidades através de uma enormíssima e requintada skill tree. Existem cinco classes de armas do jogo – espada longa, lâminas duplas, martelo de guerra, bastão e greatsword. Este armamento oferece várias camadas de aprendizagem, destreza e controlo para serem usados de forma eficaz. Também consoante o perfil de cada jogador se adaptam à sua forma de jogar. Para os jogadores mais metódicos, o martelo de guerra é a melhor via a tomar, para mais agilidade nos combates podem optar por lâminas duplas, ou um bastão, finalmente para força bruta devem empunhar uma greatsword, ou se desejam um equilíbrio entre todos os elementos de combate, a espada longa é a melhor arma a usar.  Também existem diversas manobras de esquiva e uso de escudo que complementam, enriquecem e estendem ainda mais os elementos descritos acima. Para derrotar os exércitos de Macros, Orin, pede emprestada uma mecânica de outro jogo, Resonance of Fate. Enquanto o ataque rápido disfere dano de despedaçamento, Orin apenas conquista as suas ameaças com dano pesado, e com base no índice de despedaçamento acumulado o dano total é disferido.  É realmente gratificante assistir a estes elementos em harmonia, e como se integram no ecossistema de combate do jogo.

Tremenda fidelidade visual

Igualmente gratificante é o seu majestoso grafismo. Aqui sim, não vamos poupar reservas e afirmar que estamos perante um dos mais surpreendentes grafismos alguma vez concebidos, digno desta precoce geração. Paisagens cheias de folhagens, florestas densas, corredores em palácios espelhados e personagens meticulosamente detalhadas enchem os ecrãs e fazem cair os queixos perante esta tremenda fidelidade visual. Godfall, pode ser o primeiro de muitos jogos especialmente criados para a arquitetura AMD, e como a PlayStation 5 e a Xbox Series X herdam este hardware, é bem provável que muitos lançamentos no PC estejam otimizados para a Team Red daqui em diante.

A versão PC Epic Games Store foi jogada através de um computador equipado com o novíssimo processador AMD Ryzen 5950, 32 GB de memória RAM, e uma placa gráfica Nvidia Geforce 2080ti. Com base no seu portento tecnológico, estávamos cientes que o nosso equipamento não fosse capaz de suportar 4K a 60 fps. Surpresa das surpresas, afinal a 2080ti ainda consegue levar os seus jogadores a mundos visualmente impressionantes no “presetEpic. Ao longo das 12 horas que nos acompanharam nesta jornada o jogo manteve-se sempre nos 60 fps, e sem quaisquer quebras de fluidez de animação, incrível!

Depois de Godfall subir um pouco está na altura de descer à terra um pouco novamente. Isto porque a sua banda-sonora não só é do mais genérico, como também incentiva ainda mais a sua repetição. Enquanto alguns confrontos contra bosses são do mais épico, a maioria das restantes melodias é demasiado simples, pior do que tudo é sempre a mesma em confrontos menores e termina sempre da mesma forma, o que introduz um sentimento de fadiga após uma dezena de embates.

Godfall pode descrever-se como um verdadeiro potencial desperdiçado. O seu grafismo sublime esconde uma história, personagens e desenvolvimentos demasiado simples. O seu marketing também produziu um efeito de fadiga por se instalar demasiado no seu próprio ecossistema. Contudo, perante uma jogabilidade incrivelmente diversa e evolutiva, Godfall pode tornar-se numa aventura a ter em conta quando o seu preço também descer um pouco.

Vindo de vários mundos e projetos, juntou-se à redação do Otakupt, pronto para informar todos os leitores com a sua experiência nas várias áreas da cultura alternativa. Assistiu de perto ao nascimento dos videojogos em Portugal, até à sua atualidade. Devora tudo o que seja japonês (menos a gastronomia), mas é também é adepto de grandes histórias e personagens sejam essas produzidas em qualquer parte do globo terrestre.