
Quem chama walking simulator a Death Stranding sem alguma vez o ter jogado é, para Hideo Kojima, um bom exemplo do que as redes sociais fazem às opiniões. O criador de Metal Gear Solid e Death Stranding falou do assunto numa conversa com o realizador Alejandro González Iñárritu, publicada pela Gizmodo Japan a propósito da estreia japonesa de Digger, comédia negra do cineasta mexicano.
Antes da entrevista, Kojima já tinha dito nas suas redes que Digger era “um filme que todos nós, que vivemos no mundo de hoje, devíamos ver“. Na conversa com Iñárritu, explicou o motivo, o filme faz-lhe lembrar Metal Gear Solid 2, lançado em 2001, quando as redes sociais ainda não existiam, mas cuja história já retratava um mundo em que elas ganham vida própria.
Para Kojima, essa ideia tornou-se realidade, e Digger vai no mesmo sentido. O criador alerta para o facto de que, nas redes sociais, “a informação falsa continua a amplificar-se“, com a possibilidade, que considera assustadora, de acabar por influenciar a política e o dia a dia das pessoas.
Do lado do realizador, o que mais o inquieta é a perda de uma “realidade partilhada“. Iñárritu defende que os algoritmos decidem o que cada pessoa vê no telemóvel, e que isso deixa cada utilizador apenas com fragmentos da verdade.
O próprio filme serve de exemplo. Iñárritu notou que as conversas online sobre Digger se alimentam sobretudo das histórias que o rodeiam e não da obra em si, o que faz com que até quem não o viu tenha opiniões fortes sobre ele.
Death Stranding e o rótulo que não desaparece
Foi a partir daqui que Kojima trouxe o seu próprio caso. Em 2019, quando Death Stranding foi lançado, o jogo foi muitas vezes descartado por quem nunca lhe tinha pegado. Kojima contou que havia pessoas que, sem terem jogado, repetiam “isto é só um walking simulator“, como se o tivessem feito. O que mais o assusta, disse, é que essa perceção ainda persista.
Kojima acredita que esta perda de contacto com uma realidade partilhada só vai ser agravada pela inteligência artificial. O criador antecipa que as pessoas passem a ver apenas as opiniões com que concordam e as coisas de que gostam, o que as impede de encontrar ideias completamente diferentes e de se cruzarem com alguém por acaso.









