Há pouco mais de um ano publicámos a análise de Tales of Graces f Remastered e, nas nossas conclusões, questionámos-nos sobre qual seria a próximo jogo a ver a luz do dia. A resposta surgiu rapidamente na forma de Tales of Xillia Remastered. Contudo, como a segunda aventura de Milla e Jude ainda não tinha sido incluída, o lançamento desta parecia ser o passo natural. Contudo, e de forma surpreendente, e algo controversa, o próximo conto a ser narrado nas celebrações do 30.º aniversário da Tales of Series acabou por ser Tales of Berseria. Originalmente lançado no Japão para a PlayStation em 2016, o jogo chegou ao Ocidente um ano depois, também para PC.
A escolha de Tales of Berseria como próxima remasterização suscitou controvérsia assim que foi anunciada. Apesar de terem passado cerca de seis anos desde o lançamento original, Tales of Berseria continua a ser um dos capítulos mais recentes da série de RPG. Tendo em conta a existência de várias histórias “Mothership Series” e “Escort Series” (principais e spin-offs) ainda por descobrir nesta parte do mundo, tais como como Tales of Destiny: Director’s Cut e Tales of Rebirth, muitos fãs encararam este remaster como um simples cash grab, sobretudo no PC, e questionaram as prioridades dos Bandai Namco Studios.

Do ponto de vista técnico, a versão remasterizada para PC trouxe melhorias gráficas e opções de resolução superiores às da versão de 2017. No entanto, estas são muito subtis e, tendo em conta que o jogo foi lançado novamente a preço completo, sem possibilidade de atualização para os utilizadores da versão original, torna-se difícil justificar a aquisição apenas por uma experiência ligeiramente superior. É verdade que, até certo ponto, se nota uma maior nitidez nos detalhes e uma gameplay mais robustas, mas as diferenças estão longe de ser suficientemente significativas para justificar uma nova compra.
As maiores melhorias visuais concentram-se nas texturas do chão e da folhagem, que surgem ligeiramente mais nítidas, com cores mais vibrantes, menos arestas serrilhadas e um aspeto geral mais moderno. Contudo, várias limitações da versão original mantêm-se, como o antialiasing excessivo em algumas texturas, as luzes a cintilar, as sombras a tremer e uma draw distance questionável. Além disso, as animações de monstros, personagens e elementos da vegetação não foram revistas, surgem e desaparecem abruptamente com um simples movimento para a frente ou para trás. Honestamente, se não tivesse revisitado Tales of Berseria durante um período de desconto, em preparação para esta análise, e colocado as duas versões “lado a lado”, duvido sequer que conseguisse apontar exemplos precisos das alterações gráficas e técnicas implementadas.
Embora já tenhamos detalhado os pontos positivos e negativos de Tales of Berseria na nossa análise original, vale a pena recordar a sua narrativa, que considero uma das mais marcantes de toda a série. Após uma tragédia atingir Velvet Crowe como um raio e destruir a sua vida pacífica nos campos, a jovem é transformada num therion e enviada para uma prisão, onde permanece durante três anos. Entretanto, o seu cunhado, Artorius Collbrande, torna-se o governante de um mundo devastado pela praga daemon, que transforma as pessoas em monstros sedentos de sangue. Velvet consegue escapar e embarca numa demanda pessoal de vingança contra Artorius, o responsável por dar 180º à sua vida. Para isso, conta com os seus poderes como therion e com a ajuda de um grupo de personagens que se juntam à sua causa não por ideais heroicos ou pela salvação do mundo, mas sim por motivos próprios e, muitas vezes, egoístas.
A Bandai Namco Entertainment parece ter-se inspirado na anedota clássica de “um pirata, um samurai e uma bruxa entram num bar” para criar um dos elencos mais carismáticos da série até ao momento. Ao contrário do que é habitual neste género, o grupo não é composto por heróis nobres ou guerreiros lendários, mas maioritariamente por antigos criminosos e figuras marginalizadas, que, no início, mal conseguem confiar uns nos outros. Esta dinâmica gera uma sucessão constante de situações inesperadas, tensas e, muitas vezes, bem-humoradas, especialmente nos característicos skits que contribuem para uma forte química entre as personagens. Contudo, é difícil não destacar Magilou, que acaba por roubar grande parte das atenções com a sua personalidade irreverente e imprevisível.

Mesmo com uma estética inspirada anime, Tales of Series sempre abordou temas profundos e reflexivos. Em Tales of Berseria, estas temáticas tornam-se mais evidentes do que nunca ao explorar conceitos como a identidade, livre-arbítrio e a luta contra um destino imposto. O jogo demonstra como a dor faz parte da vida e como as emoções dão sentido às nossas decisões. O resultado é uma narrativa impactante, que culmina num final marcante e estabelece uma ligação direta com o início de Tales of Zestiria.
No que diz respeito à gameplay, Tales of Berseria mantém a estrutura de cenários segmentados e o sistema de combate “Liberation Linear Motion Battle System”, que permite atribuir ataques a cada botão e ganha profundidade à medida que avançamos. Somos recompensados com combos cada vez mais elaborados, apoio automático dos restantes membros do grupo e Mystic Artes (Hi Ougis) tão devastadoras como visualmente espectaculares. Adicionalmente, encontramos vários sistemas próprios que enriquecem a experiência, tais como um modelo de equipamento baseado em habilidades passivas, bastante mais intuitivo do que o apresentado em estilo de tabela periódica em Tales of Zestiria, desafios específicos para cada personagem e a Grade Shop, que nesta remasterização surge desbloqueada desde o início, assim como todos os DLC anteriormente lançados. No entanto, infelizmente, e à semelhança das remasterizações anteriores, o conteúdo licenciado continua a não estar presente. Mesmo assim o remaster melhora a experiência com várias novas funcionalidades. A adição de viagem rápida desde o início, um ligeiro aumento da velocidade de movimento e vários novos ícones e indicadores, como vimos em Tales of Xillia Remastered. Também foi incluída uma função de auto-save, e uma função de skip melhorada e texto dos diálogos nas batalhas.
Apesar de estas novas funcionalidades e adições melhorarem significativamente a experiência de jogo, algumas são bastante desapontantes. Por exemplo, a opção de viagem rápida está limitada a um sub-menu que transporta os jogadores apenas para áreas específicas dentro de secções do mapa, em vez de permitir a escolha a partir de uma lista completa de áreas disponíveis, como acontecia nos títulos anteriores. O ligeiro aumento da velocidade de movimento é pouco satisfatório, já que mal se nota diferença em relação à versão original, e continua a não existir um botão de sprint.

Em contraste com o seu Tales of Zestiria, Tales of Berseria Remastered retifica as caóticas câmaras nas batalhas, amplia a variedade de conteúdos com minijogos e algumas masmorras adicionais. No entanto, estas áreas não envelheceram muito bem, não só devido ao seu aspeto visual datado, mas também à sua estrutura excessivamente linear, que limita a sensação de exploração. Para reforçar ainda mais a sensação de redundância desta remasterização, as configurações gráficas e até as conquistas permanecem as mesmas da versão original. Felizmente para os nossos amigos no Brasil, os textos da versão para PC estão totalmente localizados em português de Portugal, e o áudio mantém-se exatamente o mesmo da versão original, disponível em inglês e japonês. Para os outros leitores podemos desfrutar de textos em outros idiomas, tais como inglês, espanhol e francês. Por último, e especialmente para os puristas, este é o último capítulo que considero preservar verdadeiramente o ADN clássico da série. O mais recente, nomeadamente Tales of Arise, neste contexto, acabou por representar, com o passar dos anos, uma certa crise de identidade ao afastar-se de vários dos elementos que definiram e destacaram a série no seu grupo e género.

Tales of Berseria Remastered encontra o seu verdadeiro valor nos sistemas onde o jogo nunca tinha sido lançado, nomeadamente na Xbox Series e na Nintendo Switch. Já no caso da PlayStation 5, este lançamento revela-se mais questionável, sobretudo devido à retrocompatibilidade da consola, que permite jogar a versão original sem limitações significativas. No PC, não existe qualquer justificação plausível para esta edição. Apesar de incluir todo o DLC disponível, apresentar texturas ligeiramente melhores e uma gameplay um pouco mais estável, estas melhorias não são suficientes para justificar a compra de um jogo a preço completo.
Se realmente desejam revisitar ou conhecer um dos melhores jogos da série, esta não é a melhor opção de momento e recomendo a aquisição da versão base por um preço muitíssimo inferior, porque Tales of Berseria Remastered fez jus ao termo “Remaster”. Espero que o eventual Tales of Zestiria Remastered tome uma abordagem mais ambiciosa.











