
A Newzoo publicou esta semana o seu relatório anual sobre o mercado de PC e consolas para 2026, 80 páginas de dados que pintam um quadro bastante claro sobre para onde a indústria está a caminhar. A conclusão central, o PC está a tornar-se a plataforma dominante, e a tendência só deverá acelerar nos próximos anos.
Segundo o relatório, o PC deverá ultrapassar as consolas em receita total ainda antes do final de 2028, depois de mais de uma década em que as consolas lideraram nesse indicador. A Newzoo prevê uma taxa de crescimento anual composta de 6,6% para o PC entre 2025 e 2028, face a 4,4% para as consolas, uma diferença que, acumulada, resulta numa inversão da hierarquia que definiu o mercado desde há muito. O mercado combinado de PC e consolas deverá atingir os 103,7 mil milhões de dólares em receita até 2028.
Manu Rosier, director de Inteligência de Mercado da Newzoo, colocou os dados em perspectiva:
“O crescimento está a regressar ao mercado, mas está a ser impulsionado por fundamentos diferentes dos dos anos pandémicos. Os ciclos de hardware estão a alongar-se, os custos de desenvolvimento estão a subir, e mesmo as franquias mais estabelecidas já não têm sucesso garantido. As regras que moldaram a indústria nas últimas duas décadas estão a mudar. Os ecossistemas de PC e consola estão a evoluir em direcções diferentes”.
Mil milhões de jogadores em PC até 2028
A base de utilizadores é talvez o número mais impressionante de todo o relatório. Neste momento, o PC tem cerca de 966 milhões de jogadores activos a nível global, já substancialmente acima das consolas. A Newzoo projecta que esse número ultrapasse os mil milhões até 2028, enquanto as plataformas de consola deverão ficar pelos 688 milhões. Ambos são, vale a pena recordar, largamente ultrapassados pelo mobile, que continua a ser a plataforma com maior número de jogadores no mundo.
O crescimento da base de PC está a ser liderado pela expansão asiática. A China viu a sua base de jogadores de PC crescer 11,7% em 2025, mas o fenómeno não se limita a esse mercado. O Japão, historicamente um país de mobile e consola, está a descobrir o Steam de forma mais expressiva do que alguma vez o tinha feito. “O Japão, que historicamente foi um ambiente de mobile em primeiro lugar, consola em segundo, PC em terceiro, está também a descobrir o Steam de forma mais significativa do que antes” refere o relatório.
A isto junta-se a crescente adopção de PC entre as gerações mais jovens. Os dados da Newzoo mostram que a quota de jogadores da Geração Z e da Geração Alpha na plataforma está a aumentar, o que torna a tendência estrutural e não apenas conjuntural.

O que está a segurar os jogadores no PC
O relatório identifica os títulos que mais contribuem para a retenção de jogadores na plataforma. Roblox, Counter-Strike 2 e League of Legends ocupam os primeiros lugares, seguidos por Minecraft, Fortnite, Dota 2 e VALORANT. Mais atrás surgem World of Warcraft, The Sims 4, Call of Duty e Escape from Tarkov.
O que une a maioria destes títulos é um modelo de negócio assente no free-to-play, e esse é um dos pontos mais relevantes do relatório. Nos principais mercados, a receita de jogos gratuitos no PC está a quase duplicar a das consolas PlayStation e Xbox. League of Legends e Counter-Strike 2 são os exemplos mais óbvios, mas a tendência é transversal.
O relatório destaca ainda o bom desempenho de jogos com preço entre 30 e 50 dólares, e a força crescente dos títulos independentes com preço abaixo dos 30 dólares, uma categoria onde o PC domina claramente. Mais de metade de toda a receita gerada no PC provém de jogos fora do top 20 da plataforma. Nas consolas, a realidade é quase oposta, a esmagadora maioria das receitas está concentrada nos 20 títulos mais populares do ecossistema.
O que está a acontecer às consolas
Os números do lado das consolas são mais difíceis de ler de forma optimista. Entre 2024 e 2025, o tempo de jogo caiu 3% na Xbox e 4% na PlayStation, enquanto o PC registou um aumento de 3% no mesmo período. O segmento de consolas diminuiu 3,9% em 2024, atingindo 42,8 mil milhões de dólares, com as vendas de jogos a cair 14%.
O que mantém as consolas financeiramente de pé é a concentração de receita nos grandes lançamentos, títulos anuais como EA Sports FC e NBA 2K dominam as tabelas, e a PlayStation continua a gerar volume com uma base de utilizadores fiel e títulos exclusivos. Mas o relatório aponta para um “declínio estrutural” dos géneros impulsionados por títulos AAA de grande orçamento, algo que já não é surpresa para quem acompanha a indústria há alguns anos.
O relatório acrescenta algo que não deve ser ignorado, a crescente crise de memória e armazenamento, causada pelas exigências de produção de IA, pode perturbar as previsões para o hardware de PC antes de 2028. Se os preços dos componentes subirem de forma significativa, o cenário pode mudar, embora o problema afete igualmente as consolas, que também dependem dos mesmos fornecedores de componentes.









