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10 animes controversos que ficaram na história

Violência, censura, polémicas nos bastidores e até crimes reais, há animes que ficaram na história pelas razões mais inesperadas

10
Death Note

Death Note visual anime

Death Note é provavelmente o anime mais recomendado da história para quem está a começar no medium. A premissa é simples e viciante, um estudante brilhante encontra um caderno sobrenatural capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito nas suas páginas e decide usá-lo para limpar o mundo da criminalidade. O que se segue é um duelo de inteligências entre Light Yagami e o detetive L que dificilmente tem paralelo em qualidade narrativa no anime dos anos 2000.

O problema surgiu quando a série chegou ao ocidente e alguns alunos decidiram levar réplicas do Death Note para a escola, com listas de nomes de colegas escritas dentro. Vários incidentes deste género foram relatados nos Estados Unidos, o que desencadeou reações fortes de grupos de pais e algumas escolas chegaram mesmo a proibir os cadernos. A série virou meme por razões completamente alheias à sua qualidade, e essa associação persiste durante anos.

Hoje, Death Note aparece em praticamente todas as listas de animes essenciais, mas ainda há pessoas que o evitam por causa de uma reputação construída à volta de episódios isolados e de uma cobertura mediática que nunca se preocupou muito em distinguir a obra da reação que causou.

9
Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation

Quando Mushoku Tensei estreou em 2021, era difícil não ficar impressionado com a execução técnica. O Studio Bind construiu um mundo isekai com uma densidade de lore e uma qualidade de animação que envergonhava a maioria da concorrência, e a série rapidamente ganhou reconhecimento como uma das melhores do género. Essa reputação mantém-se, mas nunca chega a existir sem uma ressalva.

O protagonista Rudeus reencarna no corpo de uma criança mas com a memória e a mentalidade de um homem de trinta e tal anos, e o anime não é subtil quando se trata de mostrar o seu interesse por personagens femininas consideravelmente mais novas. Há cenas que existem numa zona de desconforto que a série parece não querer resolver, e isso garante que Mushoku Tensei volta ao centro do debate da comunidade de forma regular, sempre que um novo arco introduz algo que reacende a conversa.

O resultado é uma série que divide genuinamente. Há quem argumente que o contexto narrativo justifica o comportamento de Rudeus como parte do seu arco de crescimento, e há quem considere que a série normaliza algo que não devia ser normalizado independentemente do framing.

8
Berserk (2016)

Berserk vol 1 cover

O mangá de Kentaro Miura está entre as obras mais respeitadas de toda a cultura pop japonesa. Décadas de publicação intermitente construíram uma história sobre trauma, ambição e sobrevivência que conquistou leitores em todo o mundo e estabeleceu Berserk como uma referência incontornável no seu género. A adaptação anime de 2016 tinha, portanto, uma herança enorme para honrar, e gerou uma reação que ficou longe do que os fãs esperavam.

O motivo não foi tanto a qualidade da animação, embora esse fosse um problema real, mas a forma crua e sem filtro com que os primeiros episódios apresentavam o lado mais sombrio da série. Berserk não suaviza os seus momentos mais difíceis, e para quem chegou à série sem contexto, a violência explícita dos primeiros episódios pareceu simplesmente gratuita. Muita gente abandonou o anime antes de perceber que aquela dureza toda serve uma história com uma profundidade emocional considerável.

É uma das ironias mais persistentes do anime, uma das narrativas mais humanas e complexas do anime continua a ser ignorada por uma parte significativa da audiência por culpa de uma primeira impressão que nunca foi corrigida.

7
Goblin Slayer

Goblin Slayer 2 main visual 2

Goblin Slayer chegou em outubro de 2018 e gerou, logo no primeiro episódio, uma das reações mais intensas que uma estreia de anime alguma vez provocou nas redes sociais. A série acompanha um aventureiro obcecado com a eliminação de goblins, criaturas que o mundo de fantasia em que a história se passa considera menores e não ameaçadoras. O primeiro episódio torna imediatamente claro porque é que essa atitude é um erro fatal.

O que acontece ao grupo de aventureiros principiantes nos primeiros minutos é violento, explícito e filmado sem qualquer recuo. A intenção narrativa era legítima, estabelecer de forma inequívoca o perigo real dos goblins e justificar a obsessão do protagonista. Mas o efeito para muitos espectadores foi simplesmente o de choque suficiente para fechar a janela e não voltar.

A série tem muito mais para dar a quem ultrapassa essa barreira de entrada. O humor, a dinâmica entre personagens e a forma como subverte expectativas do género de fantasia são qualidades reais que ficaram enterradas debaixo da polémica do episódio piloto. Goblin Slayer é um caso de uma série que nunca conseguiu separar completamente a sua reputação do impacto daqueles primeiros minutos.

6
Interspecies Reviewers

Interspecies Reviewers cancelado na Sun TV

Interspecies Reviewers não tentou enganar ninguém sobre o que era. A série, adaptada do mangá de Amahara e Masha, estreou em 2020 com um conceito explicitamente adulto, aventureiros que visitam bordéis de diferentes espécies fantásticas e publicam críticas detalhadas das experiências, e nunca fingiu ser outra coisa. No Japão, foi exibida sem problemas de maior. No ocidente, a história foi completamente diferente.

A Funimation licenciou a série, disponibilizou os primeiros três episódios na plataforma e chegou mesmo a dobrar o episódio de estreia para inglês. Depois, sem aviso prévio significativo, removeu tudo. Nenhum comunicado explicou os detalhes da decisão com clareza, o que alimentou semanas de debate intenso sobre onde deveria estar a linha entre decisão editorial legítima e censura pura de conteúdo adulto que tinha sido distribuído normalmente noutros mercados.

O irónico é que a polémica deu a Interspecies Reviewers uma visibilidade que dificilmente teria atingido de outra forma. A série acabou disponível noutras plataformas, mas o episódio Funimation transformou-a num símbolo de um debate que vai muito além dos seus próprios méritos, ou deméritos.

5
The Executioner and Her Way of Life

The Executioner and Her Way of Life vol 1 cover

Há animes que pagam caro por serem inteligentes. The Executioner and Her Way of Life, lançada em 2022 e baseada no light novel de Mato Sato, construiu o seu primeiro episódio como uma armadilha elaborada para quem conhece o género isekai, e isso acabou por ser simultaneamente o seu maior trunfo e o principal motivo pelo qual muita gente a abandonou.

O episódio começa como um isekai completamente convencional, jovem japonês acorda num mundo de fantasia, descobre que não tem poderes especiais, é recebido com simpatia por uma sacerdotisa. Tudo parece familiar. E então a sacerdotisa mata-o, a série revela que Menou é uma assassina treinada para eliminar viajantes interdimensionais antes que os seus poderes descontrolados causem catástrofes, e o anime que o espectador julgava estar a ver deixa de existir.

É uma subversão genuinamente bem executada, mas exige que o espectador esteja disposto a aceitar que foi deliberadamente enganado como parte da experiência. Uma fatia considerável dos fãs de isekai não estava, e as críticas negativas que se seguiram reflectem mais a frustração com expectativas não correspondidas do que uma avaliação honesta do que a série realmente faz.

4
Darling in the FranXX

DARLING in the FRANXX terá 24 episódios

Poucas séries na história recente do anime subiram tão alto e caíram tão depressa como Darling in the FranXX. A co-produção dos estúdios A-1 Pictures, Trigger e CloverWorks estreou em 2018 e durante a primeira metade foi tratada como um evento, as comparações com Neon Genesis Evangelion multiplicavam-se, Zero Two tornou-se uma das personagens mais populares da temporada, e havia uma sensação genuína de que se estava a assistir a algo que iria durar.

O décimo quarto episódio mudou tudo. Ichigo, uma personagem secundária, rouba um beijo ao protagonista Hiro numa cena que a comunidade de fãs recebeu como uma traição à relação central da série. A reação nas redes sociais foi imediata e desproporcional, mas o que se seguiu nos episódios seguintes deu razão a quem estava preocupado, a narrativa tornou-se cada vez mais fragmentada, as decisões de guião perderam coerência, e o final foi recebido como uma combinação de ideias mal desenvolvidas e referências demasiado óbvias a outras obras.

Darling in the FranXX é hoje citada frequentemente como exemplo de uma série que não soube gerir o seu próprio potencial, e o episódio 14 funciona como o marcador simbólico do momento em que tudo começou a desmoronar, independentemente de a culpa ser realmente daquela cena ou de problemas mais profundos no desenvolvimento da série.

3
Kokoro Connect

Kokoro Connect

Kokoro Connect estreou em 2012 com críticas sólidas. A série misturava mistério sobrenatural e comédia romântica de uma forma que funcionava, e os fãs que acompanharam os primeiros episódios ficaram geralmente satisfeitos com o que encontraram. O desastre que se seguiu não tinha absolutamente nada a ver com o que estava no ecrã.

Antes do lançamento, o produtor Takahiro Yamanaka, da King Records, montou uma humilhação pública ao ator de voz Mitsuhiro Ichiki. Ichiki foi convencido de que tinha passado numa audição para um papel na série, só para descobrir, ao vivo numa apresentação transmitida online, que a audição inteira tinha sido uma câmara escondida. O vídeo foi editado para o ridicularizar, foi-lhe atribuído o cargo de “chefe de relações públicas” e foi-lhe exigido que cumprisse tarefas de promoção ou enfrentasse jogos de castigo humilhantes, incluindo uma descarga eléctrica também transmitida publicamente.

Quando a história se tornou amplamente conhecida, o boicote foi rápido e eficaz. As pré-encomendas colapsaram, o programa de rádio promocional da série foi cancelado, e Kokoro Connect ficou para sempre associada ao escândalo, uma série que não tinha feito nada de errado narrativamente e que pagou o preço de decisões tomadas pelos adultos que a rodeavam.

2
School Days

School Days é um fenómeno de internet que começou como um anime menor e acabou como um dos memes mais reconhecíveis da comunidade global de anime. A série, animada pelo estúdio TNK em 2007 a partir de uma visual novel de 2005, ficou conhecida por um protagonista deliberadamente antipático e por um final de violência extrema, mas o que a tornou verdadeiramente inesquecível aconteceu fora da ficção.

O episódio final estava programado para ser transmitido a 18 de setembro de 2007. No dia anterior, uma adolescente de 16 anos matou o pai com um machado em Quioto. A semelhança com eventos do episódio foi suficiente para que as estações televisivas japonesas o retirassem da grelha de emissão. A TV Kanagawa não teve tempo de preparar conteúdo de substituição e transmitiu meia hora de imagens de paisagens com a música “Air on the G String” de Bach a acompanhar. Uma dessas imagens mostrava o ferry norueguês MS Skagastøl a navegar num fjord.

Um utilizador do 4chan capturou o ecrã e publicou-o com a legenda “Nice boat”, e assim nasceu um dos memes mais duradouros da história do anime. A expressão espalhou-se tão rapidamente que o jornal Yomiuri Shimbun registou “Nice boat” como uma das dez pesquisas mais populares do Yahoo Japan na semana seguinte ao incidente. School Days passou de série obscura a referência cultural em menos de uma semana, pelos motivos mais estranhos imagináveis.

1
Elfen Lied

Elfen Lied

Existe uma geração inteira de fãs de anime para quem Elfen Lied foi o primeiro contacto real com o lado mais sombrio do mundo do anime, e o impacto disso nunca foi esquecido. A série, baseada no mangá de Lynn Okamoto e lançada em 2004, começa com uma sequência de abertura que não deixa dúvidas sobre o que está a oferecer, corpos desmembrados, sangue por todo o lado, e uma protagonista que usa poderes telecinéticos invisíveis para destruir tudo à sua volta enquanto tenta escapar de uma instalação de investigação.

Para quem cresceu com o anime mainstream daquela época, era algo completamente diferente. A série foi rapidamente apelidada de excessiva, gratuita e perturbadora, e essa reputação colou-se de tal forma que muita gente nunca chegou a perceber que Elfen Lied é, por baixo de toda aquela violência, uma história sobre rejeição, solidão e o que acontece quando a sociedade decide que certos seres não merecem pertencer ao mundo dos humanos.

Vista hoje, a violência pode parecer menos extrema do que em 2004, o anime evoluiu consideravelmente nessa direção. Mas a série continua a ser um caso de estudo interessante sobre como uma primeira impressão forte pode definir para sempre a forma como uma obra é percebida, independentemente do que esconde por baixo da superfície.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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