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10 vilões de anime que provam que nem toda a maldade precisa de explicação

Existe uma tendência no anime, e na ficção em geral, de justificar os vilões. O passado traumático, a ideologia distorcida, o momento de hesitação que sugere que ainda há algo a salvar. Mas há uma categoria diferente de antagonista que recusa essa narrativa por completo.

10
Gendo Ikari — Neon Genesis Evangelion

Neon Genesis Evangelion vol 1 cover

A maldade de Gendo Ikari não se manifesta em explosões nem em discursos sobre dominação mundial. Manifesta-se no silêncio. No abandono calculado de um filho de quatorze anos que usou como ferramenta para pilotar o Evangelion Unit-01, aproximando-se apenas quando precisava de um mártir e afastando-se de seguida, com a indiferença de quem descarta um utensílio.

O que distingue Gendo de outros pais terríveis na ficção é a escala do seu egoísmo. O Projeto de Instrumentalidade Humana, o colapso forçado da consciência individual de toda a humanidade, não é um projeto de poder nem de salvação. É um plano pessoal, construído durante anos, para reunir com a sua esposa falecida, Yui. Gendo está disposto a apagar a existência autónoma de cada ser humano no planeta simplesmente porque não sabe lidar com o luto.

Há um argumento a fazer de que Gendo possui um motivo humano, o amor, ainda que doentio. Mas a frieza com que sacrifica Shinji, tratando o trauma psicológico do filho como dano colateral aceitável, retira qualquer possibilidade de simpatia. É um monstro de fato e gravata.

9
Eren Yeager — Attack on Titan

Attack on Titan

A queda de Eren é das mais devastadoras do anime moderno, não porque seja súbita, mas porque é completamente premeditada. O rapaz que no início da série jurava proteger a humanidade acabou por ser responsável pela morte de cerca de 80% da população mundial, desencadeando o Rumbling, milhares de Titãs Colossais a esmagar civilizações inteiras.

O que torna Eren verdadeiramente irrepreensível não é a escala do massacre, mas o facto de ele ter visto o futuro e escolhido esse caminho mesmo assim. Não foi cegado pela raiva nem enganado por ninguém. Usou os poderes do Titã para influenciar eventos no passado, incluindo a morte da sua própria mãe, calculando que essa dor seria o combustível emocional necessário para garantir que o seu eu mais jovem se tornaria no monstro que o mundo precisava que ele fosse.

Há quem argumente que Eren agia por amor à Ilha e aos seus amigos. Mas há uma diferença enorme entre proteger os teus e exterminar o resto da humanidade sem hesitação. Eren não cedeu à crueldade, escolheu-a metodicamente, com os olhos abertos.

8
Makima — Chainsaw Man

Chainsaw Man – O Filme Reze Arc - Poster Portugal (1)

Makima é o tipo de vilã que assusta porque parece completamente razoável. A diretora da Divisão de Segurança Pública apresenta-se como protetora, quase maternal na forma como trata Denji, e é precisamente essa fachada que torna tudo o que faz a seguir tão perturbador.

O seu ato mais monstruoso não é matar. É construir. Makima constrói deliberadamente uma ilusão de família à volta de Denji, sabendo desde o início que a vai destruir. Não por necessidade táctica, mas para quebrar completamente o espírito de um rapaz que nunca na vida tinha tido ninguém. A crueldade é cirúrgica e pessoal.

Por baixo da violência está uma filosofia ainda mais perturbadora. Makima quer criar um mundo perfeito, livre de guerra, fome e morte. Mas a sua versão de perfeição é uma distopia onde os seres humanos existem como animais de estimação sob o seu controlo total. É incapaz de qualquer relação entre iguais porque, para ela, não existem iguais. Apenas peças num tabuleiro que só ela pode ler.

7
Yoshikage Kira — JoJo’s Bizarre Adventure

Imagem promocional do 3º cour de JoJo's Bizarre Adventure: Diamond Is Unbreakable,

A maioria dos grandes vilões do anime quer algo grandioso: poder, transformação, vingança. Kira quer uma vida tranquila. O problema é o que faz para a garantir.

Durante décadas, Kira usou Morioh como território de caça, assassinando mulheres para guardar as suas mãos como troféus, companheiras macabras que descartava quando começavam a deteriorar-se e substituía por novas vítimas. Não há manifesto nem trauma fundador que explique isto. Kira é um psicopata clínico que simplesmente organizou a sua vida em torno de um fetiche letal, com a mesma normalidade com que outra pessoa organiza os fins de semana.

O que o torna tão difícil de esquecer é a banalidade. Kira tem emprego, rotinas, vizinhos. Parece uma pessoa comum. E quando é encurralado, a sua resposta é matar um grupo de crianças e investigadores repetidamente, não por ideologia, mas por conveniência. Proteger o segredo é tudo o que importa.

6
All For One — My Hero Academia

My Hero Academia episódio moere visual

All For One tem mais de um século de maldade acumulada e nunca precisou de uma razão particularmente elaborada para justificar nenhuma dela. Quando questionado sobre os seus objetivos, é direto: quer ser o Rei Demónio. Não porque o mundo precise de ser salvo nem consertado. Porque lhe agrada a estética.

Ao longo de gerações, roubou as Quirks de milhares de pessoas, as suas identidades, as suas forças, uma parte fundamental do que são, tratando-as como cromos de uma coleção descartável. Mas o ponto mais baixo que atinge é a manipulação de Tenko Shimura. Encontrou um rapaz traumatizado, neto da rival que mais odiava, e moldou-o deliberadamente no vilão Tomura Shigaraki. Não por necessidade estratégica, mas para ver All Might a ser destruído por dentro ao perceber que estava a combater a linhagem da sua mentora.

É um parasita do progresso humano que existe há mais de cem anos, orquestrando guerras, destruindo famílias e descartando aliados como lixo. Tudo para alimentar um ego narcisista que nunca precisou de se justificar a ninguém.

5
Muzan Kibutsuji — Demon Slayer

Durante mil anos, Muzan construiu o seu império sobre uma combinação de narcisismo absoluto e cobardia profunda. É o criador de todos os demónios, o responsável por incontáveis gerações de sofrimento, e a sua motivação central é encontrar uma flor que lhe conceda imunidade ao sol porque tem medo de morrer.

O massacre da família Kamado é apenas um ponto numa lista infindável de crimes. Uma mãe e os seus filhos, assassinados casualmente enquanto Muzan experiementava variações do seu sangue. Não foi um ato de guerra nem uma decisão calculada. Foi distração. Isso diz tudo sobre a forma como vê os seres humanos.

O momento que melhor define Muzan acontece quando diz aos Caçadores de Demónios que deveriam tratar o massacre das suas famílias como um desastre natural, como um raio ou uma inundação, e não como algo que mereça vingança. Não é crueldade performativa. É uma incapacidade genuína de compreender que as outras vidas têm valor. Para Muzan, o universo tem um único habitante que importa.

4
Frieza — Dragon Ball

Frieza é um dos vilões mais antigos e mais icónicos do anime, e o tempo não diminuiu em nada o impacto do seu mal. A aniquilação do Planeta Vegeta, o genocídio de toda uma raça guerreira, não foi um ato de guerra. Foi uma decisão corporativa tomada por conveniência e paranoia, executada calmamente na sua cadeira flutuante, com uma gargalhada.

O que define Frieza não é a escala da violência mas a forma como a enquadra. Conquista mundos, elimina populações e vende os planetas vazios ao melhor comprador, tudo com a eficiência fria de quem gere um negócio. A crueldade é parte do modelo. A tortura psicológica de Vegeta em Namek, garantindo que morria a saber que a sua existência nunca teve qualquer importância para o imperador, é tão deliberada quanto qualquer decisão financeira.

Frieza não odeia as suas vítimas. Essa seria uma forma de as reconhecer. Simplesmente não as considera.

3
Griffith — Berserk

Berserk anime visual

A traição de Griffith é uma das mais dolorosas de toda a ficção, anime ou não. Como líder do Bando do Falcão, era adorado pelos seus soldados com uma devoção que ia além da lealdade militar. Griffith sabia disso. Usou esse amor como moeda.

Quando o seu corpo ficou destruído e se sentiu traído por Guts e Casca, invocou o Eclipse e ofereceu cada um dos companheiros que o tinham amado para serem devorados por demónios, em troca da sua ascensão ao God Hand como Femto. Não foi uma decisão tomada em desespero súbito. Foi uma escolha fria, com plena consciência do que cada um daqueles rostos representava.

O seu primeiro ato como entidade divina foi a violação de Casca diante de Guts acorrentado, puramente para demonstrar o seu novo poder e destruir o espírito do homem que mais tinha amado e mais tinha odiado. Griffith construiu depois um reino utópico sobre os ossos e as almas da sua antiga família, escondendo a sua natureza monstruosa por detrás de uma aparência angelical. É irrepreensível não apesar da beleza que projeta, mas por causa dela.

2
Mahito — Jujutsu Kaisen

Jujutsu Kaisen 3 main visual part 1

Mahito é uma maldição nascida do ódio coletivo que os seres humanos nutrem uns pelos outros, e vive à altura dessa origem com um entusiasmo que vai além do perturbador. A sua habilidade permite-lhe distorcer almas, transformando pessoas inocentes em monstros grotescos que usa como projéteis ou simplesmente abandona à sua agonia.

O que distingue Mahito de outros antagonistas violentos é a ausência completa de qualquer agenda superior. Não tem plano político, não quer transformar o mundo, não carrega nenhum trauma que explique o que é. Tortura humanos porque é a sua natureza, e retira disso um prazer genuíno e infantil que é impossível de racionalizar.

A sequência em que assassina Junpei e Nanami diante de Yuji Itadori, e quase faz o mesmo a Nobara Kugisaki, não serve nenhum propósito estratégico. Serve apenas para destruir. Mahito não quer ganhar, quer ver o espírito humano a ser consumido, e sorri enquanto isso acontece.

1
Shou Tucker — Fullmetal Alchemist: Brotherhood

Fullmetal Alchemist: Brotherhood

Os outros vilões desta lista destruíram planetas, corromperam gerações e apagaram civilizações. Tucker entra em primeiro lugar porque o seu mal não tem escala, tem uma cara, tem um nome, tem uma voz que chama com dor.

Antes ainda de os eventos principais de Fullmetal Alchemist: Brotherhood começarem, Tucker já tinha fundido a própria esposa com um animal para criar uma quimera capaz de falar e obter assim a sua licença de alquimista de estado. Deixou-a morrer de fome em desespero quando a experiência foi concluída. Ninguém soube durante anos.

Quando a licença precisava de ser renovada, voltou a fazê-lo. Desta vez à sua filha pequena, Nina, e ao cão dela, Alexander. A fusão resultou numa criatura em agonia que ainda conseguia articular palavras, e que chamou a Edward pelo nome carinhoso que lhe dava. Tucker não mostrou remorso. Defendeu os seus atos como progresso científico, comparando-os ao que o próprio Edward tinha feito ao tentar ressuscitar a mãe.

É essa comparação que torna Tucker tão insuportável. Não é um monstro óbvio. É um homem que encontrou uma forma de tornar a monstruosidade banal, de a embrulhar em linguagem académica e de a praticar sobre as pessoas que mais confiavam nele. É o vilão mais odiado do anime, e a razão é simples, não há maneira de olhar para o que fez e encontrar qualquer coisa que não seja horror puro.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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