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Autor de Nippon Sangoku apaga conta no X após receber fanarts BL explícitas

Um simples pedido levou o autor de Nippon Sangoku a apagar a conta no X

Nippon Sangoku anime last visual (1)

Ikka Matsuki, autor e ilustrador do mangá Nippon Sangoku, encerrou a sua conta no X (antigo Twitter) depois de um pedido aparentemente inofensivo ter escalado numa das polémicas mais comentadas do fandom japonês esta semana.

Tudo começou quando Matsuki pediu, de forma educada, que não lhe enviassem diretamente ilustrações de fãs com conteúdo sexual explícito envolvendo as personagens masculinas da sua obra, um subgénero conhecido como Yaoi. O autor terá explicado que este tipo de representação transformava as suas personagens em algo que já não reconhecia como seu.

Em vez de acalmar os ânimos, o pedido teve o efeito contrário. Uma parte da comunidade interpretou o comentário como uma manifestação de preconceito contra conteúdo homossexual, acusando Matsuki de homofobia. A resposta a essa acusação foi uma vaga ainda maior de publicações explícitas dirigidas ao próprio perfil do autor, precisamente o comportamento que ele tinha pedido para não acontecer.

Segundo publicações partilhadas por utilizadores japoneses no X, Matsuki chegou a escrever que essas interpretações faziam com que as suas personagens fossem transformadas em algo completamente diferente daquilo que imaginou ao criá-las. Pouco depois, as mensagens foram apagadas e, horas mais tarde, a conta oficial do autor no X deixou de existir.

Nippon Sangoku é serializado desde novembro de 2021 no site Ura Sunday e na aplicação MangaONE, ambos da Shogakukan, e conta já sete volumes publicados. A história decorre num Japão devastado por conflitos nucleares, refugiados, uma pandemia e um terramoto devastador, cenário que leva à divisão do país em três reinos rivais. É neste contexto político e bélico que surge Aoteru Misumi, jovem que lidera o movimento para reunificar a nação.

A obra ganhou ainda mais visibilidade com a adaptação para anime, produzida pelo Studio Kafka em parceria com a Amazon MGM Studios, que foi exibida entre abril e junho de 2026. A direção é de Kazuaki Terasawa (The Ancient Magus’ Bride, Tatsuki Fujimoto 17-26 “Woke-Up-as-a-Girl Syndrome”) e o design de personagens é de Takahiko Abiru (The Ancient Magus’ Bride, Vinland Saga)..

Apesar do enredo centrado em guerra, política e reconstrução de um país, uma parte significativa do fandom dedica-se há tempo a interpretar a relação entre o protagonista e outra personagem masculina, Tsune-chan, como um casal romântico, algo que alimentou uma quantidade considerável de material criado por fãs com esse tema.

Nippon Sangoku vol 1 cover (1)

As reações da comunidade japonesa

A discussão gerada em torno do sucedido levou a um debate mais amplo sobre os limites entre a liberdade criativa dos fãs e o respeito pelas preferências pessoais dos autores. Entre os comentários mais partilhados por utilizadores japoneses, destacam-se opiniões como:

  • Mesmo tendo personagens que parecem feitos para agradar o público de BL, isso não significa que a obra o seja.
  • Cerca de 90 por cento dos dōjinshi deste mangá centram-se na relação entre o protagonista e Tsune-chan.
  • O protagonista é viúvo e Tsune-chan também costumava levar mulheres para casa, é apenas o estilo visual que remete para BL.
  • Será que a fandom desta obra é assim tão agressiva?
  • É assim que se usa a acusação de discriminação contra homossexuais.
  • O que mais me surpreendeu foi descobrir que o autor é homem, pelo estilo da narrativa e pela forma educada como escrevia, estava certo de que era uma mulher.
  • Enviar dōjinshi erótico da própria obra diretamente ao autor é um comportamento perturbador.

O episódio junta-se a outros casos recentes em que criadores japoneses se veem obrigados a gerir, muitas vezes sozinhos, a forma como o público reage às suas obras nas redes sociais. A discussão levantada por este caso concreto não é só sobre Yaoi ou sobre a orientação das personagens, mas sobre até que ponto um autor pode definir limites para o próprio trabalho sem que isso seja lido como uma tomada de posição política ou social.

Até ao momento, Ikka Matsuki não voltou a pronunciar-se publicamente sobre o sucedido, e não há qualquer indicação de que este episódio venha a afetar a continuação da serialização de Nippon Sangoku.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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