No meio de tantos clássicos da CAPCOM, Onimusha é uma das séries que honestamente nunca imaginei ver a regressar. Apesar de terem sido lançados vários jogos no passado, foram os dois primeiros que me conquistaram, devido ao seu ambiente de terror e pela fantasia de um Japão invadido por criaturas saídas do folclore nipónico.

Passados mais de 20 anos, a produtora japonesa decide trazer a série de volta com Onimusha: Way of the Sword. O conceito clássico mantém-se presente, continuamos a explorar um Japão feudal assolado por seres demoníacos e a empunhar uma poderosa manopla Oni. Contudo, este novo capítulo, que funciona possivelmente como um reboot, expande o combate e o mundo para outra escala, colocando um novo protagonista no centro da ação.

Antes de avançar, importa referir que não é necessário ter jogado os títulos anteriores para embarcar nesta obra. Ainda assim, os fãs da série vão reconhecer vários elementos familiares, desde a atmosfera sombria ao regresso dos Genma e dos Oni.

Desta vez somos Miyamoto Musashi, um samurai recriado à imagem do ator japonês Toshiro Mifune (Os Sete Samurais de 1954), que segue orgulhosamente o caminho da sua espada, mas seu destino sofre uma reviravolta quando é morto por um grupo de criaturas e fica à beira do inferno. Para sua sorte, ou talvez não, é salvo por uma figura misteriosa que lhe concede a manopla Oni, um poderoso artefacto mágico que se torna imprescindível na luta contra as forças demoníacas que ameaçam o Japão.

Não demora muito até Musashi descobrir que existem outros guerreiros capazes de utilizar o mesmo poder, embora nem todos sigam o mesmo objetivo. A sua missão passa por enfrentar os Genma e impedir que o miasma se espalhe por Quioto, consumindo lentamente tudo o que encontra pelo caminho.

Com a manopla Oni absorvemos as almas de cor dos inimigos, que são precisas para curar, desbloquear habilidades, etc.

Em termos de ritmo, estamos perante uma jornada fortemente focada na narrativa, sem nunca deixar a ação de lado. Aliás, é provavelmente o lançamento mais recente da CAPCOM a apostar de forma vincada em inúmeras cinemáticas para dar vida aos acontecimentos e às suas personagens. O início é relativamente lento, servindo sobretudo para apresentar o mundo, as mecânicas e os sistemas que teremos de dominar ao longo da jornada. Durante as primeiras horas, o jogo dedica-se exclusivamente a essa construção. No entanto, quando a narrativa começa a engrenar, os combates também ganham uma nova intensidade, tornando a experiência mais envolvente e despertando constantemente a curiosidade para descobrir o que vem a seguir.

A escrita dos personagens chega a ser surpreendente. Não só acrescentam uma enorme profundidade à narrativa, como também ajudam a dar uma identidade muito própria a esta aventura. É impossível não gostar de Miyamoto Musashi, um protagonista carismático, com uma personalidade descontraída que faz relembrar algumas das figuras interpretadas por Jackie Chan nos seus clássicos filmes de ação e comédia. As suas expressões faciais contribuem imenso para isso, seja durante os confrontos ou nas conversas, transmitindo frequentemente a sensação de que preferia estar a fazer outra coisa do que armado em herói.

A relação que desenvolve com a companheira que habita na manopla acaba por ser importante para o enredo. Inicialmente vista apenas como uma guia, a personagem acaba por construir uma dinâmica genuína com Musashi, dando-lhe conselhos, partilhando momentos importantes e ajudando-o a alcançar o seu objetivo.

O mesmo cuidado reflete-se nos antagonistas. Não faltam criaturas grotescas com aparências de meter medo, mas aquilo que realmente as distingue são as suas personalidades. Muitas delas têm um sentido de humor perverso e uma presença forte sempre que surgem em cena. Entre elas, destaca-se o seu rival Ganryu Sasaki, uma figura sádica e impiedosa que representa na perfeição o tipo de vilão disposto a sacrificar tudo e todos, chegando ao ponto de absorver a força vital dos humanos para expandir o seu poder.

Relativamente ao combate, já há algum tempo que não me divertia tanto, talvez desde Sekiro: Shadows Die Twice. Dá para perceber desde de imediato que os movimentos de Musashi foram concebidos a partir do comportamento real de um samurai. Sem grandes rodeios, a jogabilidade anda em torno de uma dança constante entre o ataque e defesa, com o parry a assumir o papel de principal destaque.

O nosso samurai tem inicialmente à sua disposição uma espada, um arco e a manopla Oni, com novos poderes místicos a ficarem disponíveis à medida que progredimos. Para além dos ataques leves e pesados, temos uma esquiva própria para lidar com investidas desarmadas (como pontapés) e o parry para quando os inimigos atacam com armas, exigindo um bloqueio no timing exato para funcionar. Saber usar cada uma destas reações é importante para quebrar a postura dos adversários e deixá-los abertos para um ataque Issen. Esta técnica é capaz de eliminar instantaneamente os Genma comuns e retirar uma enorme parte de vida aos inimigos mais poderosos. Podemos ainda usar o próprio cenário a nosso favor, usando tochas para incendiar os Genma ou aproveitando cercas de madeira caídas para bloquear os ataques antes de as empurrarmos contra eles.

A juntar ao arsenal, temos as armas Oni. Com elas desencadeamos ataques especiais capazes de provocar danos significativos e que são uma peça fulcral da vertente estratégica. Por exemplo, quando ficamos cercados, uma destas armas permite executar um golpe giratório semelhante a um pequeno tornado que corta tudo à sua volta. São recursos que nos salvam em situações de risco, mas há uma condição, precisamos de ter a respetiva barra de poder Oni cheia.

Tudo isto faz com que o tempo para eliminar os inimigos dependa normalmente da nossa perícia e da facilidade com que dominamos as técnicas de Musashi. Tal como em Sekiro, este é um sistema que pede paciência e muita concentração, mas que evolui constantemente à medida que desbloqueamos novas técnicas e adquirimos armas diferentes, tornando-se cada vez mais incrível e gratificante de controlar.
Mesmo que o combate vá beber à fonte de títulos como Sekiro e Nioh, a CAPCOM tem sempre a sua identidade única presente, que vai além das suas referências e que poderá certamente servir de modelo para futuros jogos de outras empresas.

Relativamente aos inimigos, podemos dizer que são quase tão astutos quanto o protagonista. Ficam a analisar os nossos passos à procura de uma abertura para atacar, esquivam-se dos golpes e mantêm-nos em alerta constante. Ao princípio achei que o desafio estava a ser demasiado fácil, com os Genma comuns a oferecerem pouca resistência. Mas essa sensação desapareceu assim que comecei a enfrentar criaturas de outro nível, capazes de elevar a fasquia e puxar ao máximo pelas nossas habilidades.

O combate atinge o seu auge precisamente nos confrontos contra os bosses. Entregam confrontos com padrões complexos e astutos, que nem sempre são simples de memorizar à primeira tentativa. São indiscutivelmente do melhor que Onimusha: Way of the Sword tem para oferecer, um mimo para quem aprecia batalhas energéticas e exigentes.

Na exploração, optaram por uma estrutura que mistura áreas mais lineares com uma área mais aberta, sendo Quioto o ponto principal do jogo. Não temos um mundo aberto propriamente dito, mas sim uma aventura dividida em diferentes zonas, algumas mais amplas que outras, onde podemos afastar-nos por momentos do caminho principal e descobrir o que há à nossa volta. Ainda que esta cidade sirva de grande ponto de encontro, a narrativa empurra-nos para ambientes variados, alternando entre templos, castelos, e outras zonas surpreendentes como florestas de bambu por exemplo.

Quioto acaba por funcionar como uma espécie de hub. À medida que a história avança, novas áreas ficam acessíveis e podemos regressar a locais anteriormente visitados para encontrar novos caminhos, lojas, baús, recursos e mais habitantes com missões secundárias. Até a própria presença do miasma atua como uma barreira natural bem pensada, tornando a cidade principal progressivamente mais explorável conforme progredimos.

A exploração não se limita apenas a seguir a missão principal. Pelo caminho temos pequenos desvios, passagens bloqueadas que para abrirem precisamos de habilidades específicas, e segredos que nos pedem para olhar melhor o cenário. Os recursos que vamos achando são particularmente importantes para melhorar os equipamento de Musashi e para aumentar o seu reportório de habilidades.

As missões principais, por outro lado, são bem mais focadas e lineares. Cada missão coloca-nos em cenários específicos povoados por Genma, alguns quebra-cabeças e obstáculos que nos desafiam a encontrar a rota certa. Esta transição entre os cenários mais diretos e a liberdade oferecida por Quioto não quebra de todo o ritmo da exploração e do combate, pelo contrário, ambos os formatos complementam-se e cumprem o seu propósito.

As missões secundárias acabam por cumprir também o seu papel. Algumas são simples pedidos que nos levam a investigar uma área, a lutar contra os Gemna, ou ao encontro de novas histórias. Nem todas têm a mesma qualidade narrativa, mas servem para dar mais motivos para explorar e, acima de tudo, para obter recursos e acessórios importantes para fortalecer o protagonista.

Depois de ter jogado, no mesmo ano, Resident Evil Requiem e PRAGMATA, já esperava que o RE Engine voltasse a brilhar em Onimusha: Way of the Sword. E não errei. O jogo vence na maioria dos aspetos e, tirando uma textura aqui e acolá menos bem conseguida, apresenta um mundo incrivelmente bem recriado, com um detalhe e um cuidado visual que merecem aplausos. Os ambientes são vivos e autênticos à época representada, além de que os modelos das personagens e dos inimigos estão fantásticos. Este motor não para de mostrar o seu valor, sobretudo nas cinemáticas, que muitas vezes dão a sensação de estarmos a assistir a um filme.

Parte das personagens de Onimusha: Way of the Sword baseia-se em figuras históricas reais do Japão Feudal mas com um toque de fantasia e ficção.

Em jogo, temos dois modos disponíveis, um focado na qualidade visual e outro focado na fluidez. Ambos funcionam sem problemas, mas o segundo acaba por resultar melhor neste estilo de jogo, onde o timing do parry, as esquivas e a resposta dos ataques são determinantes.

Quanto ao som, mantém-se o carimbo de qualidade dos últimos projetos da CAPCOM. A banda sonora acompanha impecavelmente a atmosfera, seja nos momentos mais descontraídos ou durante os confrontos, enquanto o som das espadas e dos movimentos transmitem uma sensação de impacto credível durante os combates. O elenco de vozes em japonês faz um trabalho fantástico, nota-se que foram selecionados a dedo para trazer ainda mais personalidade às personagens e envolvimento a cada cena.

A Capcom soube realmente como nos deixar surpreendidos com este jogo. Musashi revela-se um protagonista interessante e carismático, a jogabilidade tem um toque especial e os combates contra os inimigos assumem-se como dos melhores momentos de toda a aventura.

Sabe honestamente bem voltar a ter nas mãos uma aventura de ação mais focada, que nos conduz pelos cenários com um propósito claro e mantém a narrativa a avançar sem a asfixiar em conteúdos secundários sem fim. Onimusha: Way of the Sword é uma experiência que não vou querer esquecer e um regresso que mostra como a CAPCOM está dedicada a reerguer os seus clássicos com a melhor qualidade que eles merecem.

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