Durante quase uma década, os videojogos de Spider-Man foram uma das nossas casas na PlayStation. Foi pelas ruas de Nova Iorque que acompanhámos as aventuras de Peter Parker, as suas peripécias, os combates mais difíceis e, pelo caminho, alguns dos ensinamentos que o jogo nos quis transmitir. Depois de tanto tempo ao lado do Aranhiço, chegou a altura de lhe dar um pouco de descanso. Desta vez, a Insomniac Games decidiu abrir as portas de uma nova casa, o universo dos X-Men.
É aqui que entra Logan, mais conhecido por Wolverine. Peter Parker deixa de ser o protagonista e dá lugar a alguém completamente diferente, mais agressivo, marcado pelo seu passado e com uma forma muito particular de resolver os problemas. Se Spider-Man nos conquistou com o seu humor e a capacidade de balançar com as suas teias entre os arranha-céus de Nova Iorque, Wolverine chega com as garras de adamantium preparadas para abrir caminho à força e ao seu jeito característico.

O homem por detrás da besta
No centro da história está a Team X, constituída por Sabretooth, Mystique e o nosso protagonista, Wolverine. A equipa é liderada pelo mutante e cientista Nathaniel Essex, uma personagem que os fãs dos X-Men vão reconhecer como o futuro Sinister. Sem entrar em spoilers, depois da primeira missão de salvamento, o objetivo passa por encontrar e proteger os mutantes que estão a ser perseguidos por Bolivar Trask e pelos seus mercenários, os Reavers. A visão de Essex para o futuro dos mutantes acaba por estar muito próxima daquilo que conhecemos dos ideais do Professor Xavier, procurando garantir que estes possam viver em segurança e em igualdade com os restantes seres humanos.
Temos uma história que vale mesmo a pena experienciar. A Insomniac Games conseguiu construir um enredo que não vive apenas da ação, dando espaço suficiente para certas personagens respirarem e para percebermos aquilo que as move. A ação está sempre ligada à narrativa e nunca sentimos que estamos simplesmente a combater inimigos apenas porque sim. Há uma razão para estarmos naquele local e, principalmente, para cada personagem estar envolvido na missão.
Também gostei da forma como o estúdio pegou em personagens que já conhecemos e lhes deu um lado mais humano. São personagens familiares para quem acompanha os X-Men, mas nesta “reimaginacao” percebe-se melhor as suas personalidades, as suas relações e até parte das suas fragilidades.
Dou de exemplo Sabretooth, que continua a ser o personagem impulsivo e irresponsável que conhecemos, sempre com os nervos à flor da pele e pronto a resolver qualquer problema com violência. Jean Grey é praticamente o oposto, apresentando-se como uma pessoa ponderada, amável e capaz de manter a calma mesmo nas situações mais complicadas. É igualmente interessante acompanhar a relação entre Jean e Logan e perceber como esta vai crescendo e mostrando o lado mais vulnerável do protagonista.

Mas, naturalmente, é Logan quem acaba por estar no centro de tudo. Ao longo da aventura vamos conhecer melhor o seu passado, as suas memórias e os traumas que fizeram dele a personagem que conhecemos.
A Insomniac Games não se limita a mostrar o Wolverine pela sua habitual personalidade agressiva. Houve a vontade de mostrar o homem por detrás do mutante e perceber por que razão Logan é alguém tão marcado pela solidão e pelas experiências que viveu. O seu passado vai-se manifestando e faz-nos perceber as suas atitudes, tornando-o numa personagem interessante de acompanhar.
Por detrás das garras de adamantium e de toda a violência esconde-se alguém bem mais frágil do que aparenta. É esse contraste que funciona tão bem, porque tanto estamos a controlar uma máquina de destruição como, pouco depois, assistimos a cenas mais íntimas em que conseguimos perceber aquilo que Logan carrega consigo há tantos anos.
Apesar de termos um enredo mais maduro e violento, consegue haver espaço para umas boas gargalhadas. As interações entre as personagens, principalmente quando estamos no Instituto Essex, são um bom exemplo disso. São momentos mais descontraídos que ajudam a criar uma relação maior entre os membros da equipa.
Brutal. Rápido. Afiado!
Quando o combate toma conta do palco, Logan transforma-se numa autêntica arma. Com a sua força bruta e as garras de adamantium afiadas, rasga tudo o que lhe aparece pela frente. Os inimigos parecem folhas de papel a serem despedaçadas, enquanto o sangue e os membros cortados acabam espalhados pelo cenário. É um combate violento que dá gosto controlar, exatamente aquilo que esperávamos de um jogo protagonizado por Wolverine.

A sua natureza de predador está presente na forma como nos movimentamos pelo campo de batalha. Podemos saltar rapidamente para cima dos inimigos e atacá-los sem parar, subir a árvores para os apanhar desprevenidos ou até nos defender dos seus ataques para depois aproveitar as brechas. Há sempre qualquer coisa a acontecer e estamos constantemente a trocar de alvo, a escapar dos ataques ou a procurar a melhor oportunidade para atacar.
No menu encontramos mais de 100 opções de acessibilidade, que vão desde definições para daltónicos até filtros para quem prefere evitar o sangue e os desmembramentos.
Realmente conseguiram construir um combate com profundidade. Não basta carregar nos botões e esperar que as garras façam todo o trabalho. À medida que aparecem inimigos mais fortes e em grande quantidade, começamos a perceber que é importante escolher os alvos, aproveitar o cenário e perceber quando devemos atacar ou recuar.
Durante a adrenalina do combate vamos também carregando três barras ligadas à sua fúria. Quando chegamos à segunda, a força de Logan aumenta, enquanto a terceira o transforma numa verdadeira máquina de destruição, permitindo-nos continuar a atacar até já não haver ninguém de pé. É uma mecânica que transmite bem a essência selvagem da personagem, mas, mais importante do que isso, está muito bem interligada com o combate, ativando-se naturalmente sem ser necessário estarmos sempre a observar a barra.
As características físicas que tornam o mutante conhecido estão igualmente presentes. Logan consegue regenerar a vida durante o combate e tem ainda a possibilidade de voltar à vida depois de quase morrer. São pormenores que fazem toda a diferença quando estamos numa situação de aperto e que transmitem aquela sensação de estarmos mesmo a controlar Wolverine. Afinal, não faria muito sentido se apenas umas quantas pancadas fossem suficientes para mandar o Wolverine abaixo.
É difícil não querer continuar a lutar
Ainda temos uma árvore de habilidades com um bom número de truques, onde podemos desbloquear técnicas especiais através dos pontos que recebemos ao subir de nível. Temos ataques como o Tornado Spin, que atinge todos os inimigos à nossa volta, o Spiral Strike, que permite avançar rapidamente sobre os adversários e provocar danos massivos com as garras bem como muitas outras que nos permitem aprofundar o combate. Estas técnicas podem ainda ser melhoradas, desde aumentar o dano de ataque, a velocidade, o número de vezes que são utilizados, entre outras.

A juntar a isto temos o sistema de Adaptações, que melhora significativamente as capacidades de Logan, como por exemplo recuperar a vida com o parry ou evitar o dano das balas enquanto nos protegemos com as lâminas. Não nos faltam possibilidades e dá para adaptar Logan ao estilo que preferirmos, o que acaba por ser útil à medida que os combates começam a ficar ainda mais intensos.
Engane-se quem pensa que os inimigos são fáceis de derrotar. Conforme a dificuldade que escolhermos, alguns podem parecer autênticas esponjas de dano, mas há variedade suficiente para manter os combates estimulantes. Uns defendem os nossos ataques, outros têm características que nos fazem pensar antes de atacar, enquanto alguns surgem equipados com armas de fogo ou espadas de energia. O facto de conseguirem trabalhar em conjunto também nos obriga a estar constantemente em movimento e a escolher bem quem eliminar primeiro.
Tal como aconteceu com Spider-Man, a Insomniac Games volta a acertar na fórmula do combate. É fluido, divertido e fácil de compreensão, mas, ao mesmo tempo, tem várias camadas que vamos descobrindo ao longo da campanha. Controlar Logan, saltar para cima de um inimigo, rasgá-lo com as garras e imediatamente passar para outro é tão intenso e incrível que é difícil não querer continuar a lutar. O combate é, sem dúvida, o trunfo de Marvel’s Wolverine.
Exploração mais Linear, mas gratificante
Ao contrário daquilo que fomos habituados com Spider-Man, em Marvel’s Wolverine não temos um mapa aberto para explorar. O estúdio optou por dividir a aventura por diferentes áreas espalhadas pelo mundo, levando-nos a florestas, portos, fábricas, às ruas do Japão e a outros locais no decorrer das várias missões.
Esta é provavelmente uma das maiores diferenças em relação a Spider-Man. Não temos aquela sensação de podermos simplesmente pegar no personagem e percorrer a cidade durante horas. As áreas são mais concentradas, mas, sinceramente, não senti que isso fosse um problema. Nota-se que Marvel’s Wolverine é um jogo mais focado e esta escolha acaba por beneficiar a experiência na narrativa e na ação.
São áreas mais lineares, mas isso não quer dizer que não haja nada para descobrir. Os sentidos aguçados de Wolverine leva-nos ao encontro de objetos escondidos pelo cenário, desde geradores de energia a outros recursos ligados à narrativa que oferecem experiência. Também podemos encontrar depósitos de materiais fulcrais para criar novos fatos emblemáticos da personagem que, para além de mudarem esteticamente, aumentam a nossa barra de vida, por isso vale mesmo a pena explorar.

É verdade que a exploração é certamente o elemento mais modesto do jogo. Não temos a mesma quantidade de atividades para fazer que encontrávamos em Spider-Man, e quem estiver à procura de uma experiência em mundo aberto poderá sentir essa diferença. No entanto, este jogo não precisa de um mapa gigantesco cheio de atividades para ainda assim o tornar numa experiência inesquecível.
E é precisamente quando a exploração se mistura com a ação que o jogo nos proporciona os seus melhores eventos. Há situações em que estamos a conduzir uma mota a alta velocidade, outras em que saltamos para cima de carros em movimento enquanto lutamos contra inimigos e ainda momentos em que avançamos ao lado dos nossos aliados enquanto escalamos e saltamos por zonas que estão literalmente a explodir à nossa volta.
É um caos delicioso. A Insomniac Games sabe perfeitamente como criar estas situações e colocá-las no meio da exploração para evitar que esta se torne monótona. Num momento estamos a explorar com calma e, no outro, passamos para uma sequência completamente desenfreada. É aí que o jogo consegue transmitir melhor aquela sensação de estarmos num título cinematográfico ao estilo inconfundível dos exclusivos da PlayStation.
Estilo inconfundível dos exclusivos da PlayStation
Durante as missões ainda nos deparamo com outras atividades através de uma misteriosa porta que nos leva até à cabana onde Logan permaneceu no passado. Estes desafios funcionam como pequenos testes, com objetivos que podem passar por derrotar um determinado número de inimigos até chegar a um local dentro de um tempo estipulado.
Acabam por ser uma boa distração e têm uma recompensa bastante útil. É através deles que recebemos pontos de AP, usados para desbloquear novas adaptações e aumentar o número de capacidades ativas em simultâneo. Assim, há sempre uma boa razão para explorar cada área em vez de seguir apenas em frente.

Um espetáculo visual
A componente gráfica está soberba. As secções de ação e as cinemáticas estão num patamar acima do que vimos em Spider-Man, que, por si só, já apresentava um trabalho incrível pela Insomniac Games. Tudo foi concebido ao pormenor para tornar cada situação excecional, com uma vertente artística bastante cuidada a funcionar em sintonia com a iluminação e as texturas.
É sobretudo nas fases de maior adrenalina que Marvel’s Wolverine mostra aquilo que a Insomniac Games consegue fazer com a PlayStation 5. Os cenários, os efeitos e o método como tudo foi concebido para funcionar no ecrã, reforçam o lado cinematográfico desta nova aventura.
Ainda assim, nem tudo me conquistou da mesma medida. O design das personagens é um dos aspetos em que tenho algumas reservas. Logan é, para mim, aquele que apresenta o visual mais interessante e bem conseguido, enquanto Mystique e Sabretooth parecem um pouco estranhos. No caso de Mystique, o seu rosto nunca me faz associar imediatamente à personagem que conhecemos dos X-Men e o movimento dos cabelos de ambos também não me convenceram, acabando por destoar um pouco da atenção que o restante elenco teve.
Felizmente, quando falamos de desempenho, não tenho grandes queixas a apontar. O jogo apresenta uma prestação muito positiva em ambos os modos, mantendo sempre a fluidez durante a experiência. Tive alguns bugs pontuais, como atravessar uma caixa de madeira ou ver o braço de Logan entrar momentaneamente dentro do próprio peito, mas são situações tão raras e inofensivas que não prejudicam em nada a experiência.
Marvel’s Wolverine é feroz, rápido e espetacular
A banda sonora encaixa muito bem com o género de jogo apresentado, sendo pensada sobretudo para acompanhar a intensidade da ação. Surgem igualmente temas mais calmos e emotivos, que fazem lembrar o tom western de The Last of Us.
Infelizmente não foi possível avaliar devidamente a prestação do elenco de voz em Português de Marvel’s Wolverine devido a um estranho Bug que deverá ser corrigido com um patch. Ainda assim, posso dizer que, na versão inglesa, temos um elenco que combina perfeitamente com a personalidade de cada personagem. Troy Baker, pela experiência que já tem neste meio, acaba por se destacar a interpretar Nathaniel Essex, sobretudo pelo tom calmo e sombrio que dá à personagem. Mas Liam McIntyre, como Wolverine, não fica nada atrás e consegue transmitir muito bem a personalidade mais agressiva e marcada de Logan.
Os elogios continuam na utilização do comando DualSense. A produtora volta a tirar bom partido das funcionalidades do comando, principalmente através da vibração háptica. Sentimos nas mãos cada passo que damos e os golpes que desferimos, fazendo com que o combate ganhe ainda mais impacto.
Os Quick Time Events estão de volta e é precisamente nestas fases que os gatilhos adaptativos dão o seu melhor. A resistência que sentimos nos gatilhos ajuda a transmitir fisicamente aquilo que Logan está a fazer e acaba por ser mais um daqueles pormenores que nos faz sentir a imersão do jogo.

Um dos melhores exclusivos da PlayStation 5
Fiquei impressionado com Marvel’s Wolverine. A transição de um herói como Spider-Man para Logan foi um enorme passo, e a Insomniac Games volta a demonstrar o porquê de serem referência quando se fala em videojogos de super-heróis.
A narrativa segue um tom mais maduro que conquista desde cedo, o combate é feroz e espetacular enquanto as cinemáticas mostram o potencial gráfico da PlayStation 5. Tudo funciona em sintonia para criar uma jornada memorável, capaz de captar a natureza de uma das personagens mais emblemáticas do universo Marvel.
Como fã de longa data dos X-Men, Marvel’s Wolverine é um jogo obrigatório, sem pensar duas vezes. E mesmo quem não tem qualquer conhecimento sobre os mutantes vai perceber rapidamente que este é um dos melhores exclusivos desta geração e uma das experiências mais ESPETACULARES disponíveis na PlayStation 5.












