Ninguém esperava grande coisa da temporada de verão de 2026. Havia, claro, as continuações de peso a gerar expectativa, mas foi precisamente fora desse lote mais óbvio que surgiram as maiores surpresas.
5Though I Am an Inept Villainess
O género das vilãs de corte já anda tão desgastado que seria fácil passar ao lado de mais uma história sobre intrigas palacianas e uma nobre injustiçada. Though I Am an Inept Villainess consegue exatamente o oposto, prender a atenção logo desde os primeiros episódios. A série, animada pelo estúdio Doga Kobo a partir da light novel de Satsuki Nakamura, coloca frente a frente Kou Reirin e Shu Keigetsu, duas mulheres em posições opostas dentro da corte imperial.
Reirin é admirada por todos e tratada como a escolha óbvia para conquistar o favor imperial. Keigetsu, pelo contrário, é desprezada e consumida pelo ressentimento, ao ponto de recorrer à magia proibida para trocar de corpo com a rival. Até aqui, nada que já não se tenha visto noutras histórias parecidas.
A diferença está no que acontece a seguir. Em vez de passar a série inteira a tentar recuperar desesperadamente a vida que perdeu, Reirin escolhe adaptar-se à nova realidade, o que a transforma quase de imediato numa das protagonistas mais interessantes da temporada. Ciúme, crueldade e jogo político vão-se acumulando episódio após episódio, e é a recusa constante de Reirin em reagir da forma que Keigetsu esperava que vai desmontando, peça a peça, todo o plano inicial.
No fim, aquilo que parecia mais um título genérico de light novel acaba por se revelar uma das comédias de personagens mais bem escritas do verão, sem nunca perder de vista os riscos reais que as duas protagonistas enfrentam.
4Jaadugar: A Witch in Mongolia
Se há série do verão que se distingue à primeira vista, é Jaadugar: A Witch in Mongolia. Produzida pelo estúdio Science Saru, a ação decorre dentro do Império Mongol, um cenário raramente explorado em anime, e coloca a protagonista Fatima no meio de figuras históricas e conflitos moldados pela expansão descomunal desse império.
O que torna a personagem interessante não é o seu poder, mas precisamente a falta dele, Fatima é inteligente o suficiente para sobreviver naquele ambiente hostil, mas está longe de conseguir controlar tudo o que acontece à sua volta. É essa fragilidade que obriga a personagem a navegar constantemente entre pessoas com interesses, histórias e lealdades próprias, num universo em que uma palavra mal colocada vale tanto quanto uma arma.
Visualmente, Jaadugar aproxima-se mais de um livro de histórias ilustrado do que de um anime convencional, algo que se torna óbvio a partir de um único fotograma. Mas é sobretudo a recusa em simplificar as suas personagens em heróis e vilões óbvios que faz a série destacar-se, vingança, sobrevivência e ambição política sobrepõem-se sem pausa ao longo da narrativa, o que tem ajudado este anime a impor-se mesmo perante concorrência de franquias muito maiores.
3Black Torch
Black Torch não tenta esconder que a sua premissa já foi usada antes. Jiro Azuma é um adolescente descendente de uma linhagem de ninjas, com a capacidade pouco comum de comunicar com animais. Tudo muda quando conhece Rago, um poderoso mononoke disfarçado de gato preto, e acaba gravemente ferido a protegê-lo. É nesse momento que os dois se fundem, dando origem a um híbrido entre humano e espírito, uma fórmula que qualquer fã de shonen já viu de alguma forma noutro lado.
A diferença, mais uma vez, está na execução. Jiro tem personalidade suficiente para não se limitar a ser mais um protagonista de ação, é impulsivo, mas a maneira como se relaciona com os animais deixa transparecer, quase de imediato, a sensibilidade escondida por trás desse comportamento mais bruto. Produzida pelo 100studio a partir do mangá de Tsuyoshi Takaki, a série constrói em Rago o segundo pilar essencial da fórmula, evitando que a fusão sobrenatural funcione apenas como um atalho conveniente para dar mais poder ao protagonista.
Essa relação entre as duas personagens é o que sustenta a ação, que se tem mantido notavelmente consistente episódio após episódio, equilibrando combates sobrenaturais de ritmo elevado com material emocional suficiente para que os confrontos não dependam apenas do espetáculo visual.
2Smoking Behind the Supermarket With You
Nem todos os romances precisam de conflito constante para funcionar, e Smoking Behind the Supermarket with You prova isso mesmo. A história segue Sasaki, um funcionário de meia-idade esgotado pela rotina de trabalho, cujas idas diárias ao supermercado são animadas pela simpatia de Yamada, a funcionária da caixa. Sem se aperceber, começa também a partilhar pausas para fumar atrás da loja com Tayama, uma mulher bem mais irreverente, sem saber que Tayama e Yamada são, afinal, a mesma pessoa.
A série tem o bom senso de não transformar esse mal-entendido num mistério complicado. A graça está antes em observar Tayama perceber, aos poucos, o quão distraído Sasaki consegue ser, e é dessa dinâmica simples que nasce boa parte do encanto da história. A química entre as duas personagens é propositadamente contida, Sasaki não é um protagonista adolescente incapaz de lidar com jovens, mas alguém a quem o trabalho já drenou tanta energia que essas breves conversas se tornam significativas precisamente por ninguém esperar dele nada de grandioso nesses momentos.
Yamada, do seu lado, também tem motivos próprios para gostar do arranjo, enquanto Tayama, pode provocar e interagir com Sasaki sem a formalidade que normalmente rege a relação entre funcionária e cliente dentro do supermercado. O resultado final é um romance construído quase inteiramente a partir de pequenos momentos, sem golpes de efeito dramático, e talvez seja precisamente essa contenção que está a conquistar tantos espectadores esta temporada.
1Bleach: Thousand-Year Blood War – The Calamity
Poucas séries anime chegaram ao verão de 2026 com tanto peso sobre os ombros como Bleach. Thousand-Year Blood War – The Calamity representa a parte final de uma história que os fãs acompanham há mais de duas décadas, com o confronto entre Ichigo e Yhwach a caminhar finalmente para o desfecho. Há ainda outro fator em jogo, esta é a última oportunidade da adaptação para melhorar material que, no mangá original, acabou por dividir opiniões entre os leitores.
Até agora, a Pierrot Films parece estar a levar essa responsabilidade bastante a sério. Esta reta final foi construída à volta da escala, com cada confronto a carregar o peso de se saber que não há para onde a franquia possa ir depois disto. O duelo entre Ichigo e Yhwach já produziu um dos momentos mais marcantes de toda a temporada, com a forma Horn of Salvation do protagonista a reunir, finalmente, os diferentes poderes que sempre o definiram ao longo da série.
Vale ainda recordar que o mangá original percorreu esta reta final a um ritmo bastante acelerado, algo que muitos leitores criticaram na altura. Isso deixou ao anime uma oportunidade rara de tornar a conclusão mais completa e satisfatória do que a versão em papel, e tudo indica, pelo menos até ao momento, que The Calamity está mesmo a aproveitá-la.









