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5 animes considerados obras-primas nos anos 90 e que hoje ninguém se lembra

Há uma ironia cruel no mundo do anime, algumas das séries mais bem escritas e mais aclamadas da sua época acabam esquecidas, não por falta de qualidade, mas por má sorte, má distribuição ou simplesmente por terem chegado antes de o mundo estar pronto para as receber.

5
Nadia: The Secret of Blue Water

Antes de Hideaki Anno mudar o anime para sempre com Neon Genesis Evangelion, dirigiu esta série para a NHK, que foi exibida entre 1990 e 1991. Foi também a primeira produção televisiva do estúdio Gainax, o mesmo estúdio que mais tarde definiria uma geração inteira de fãs. Inspirada nas Vinte Mil Léguas Submarinas de Jules Verne, a série acompanha Nadia, uma jovem que trabalha num circo e que carrega uma joia misteriosa chamada Blue Water, alvo das forças da Neo-Atlântida. Ao lado do jovem inventor Jean e do enigmático Capitão Nemo, a fuga torna-se numa aventura que vai muito além do que o formato aparenta.

À superfície, parece um cartoon de sábado de manhã. Mas Nadia esconde uma escrita surpreendentemente densa, que questiona a relação entre a humanidade e a tecnologia, uma tensão entre o progresso a qualquer custo e o respeito pelo mundo natural. É também uma história de crescimento pessoal genuína, com uma protagonista que carrega o peso de um destino que não pediu e que vai, ao longo dos episódios, encontrando a sua própria força.

Com o colapso do estúdio Gainax e o desaparecimento da série das plataformas de streaming, Nadia ficou num limbo. Quem cresceu nos anos 90 ainda se lembra dela com carinho; quem entrou no anime depois disso provavelmente nunca ouviu falar. É uma das perdas mais silenciosas da história do meio.

4
You’re Under Arrest

As comédias de ambiente profissional são um subgénero raro no anime, e You’re Under Arrest é provavelmente o melhor exemplo que existe. Baseada num mangá seinen do final dos anos 80, a série centra-se em Natsumi Fujimoto e Miyuki Kobayakawa, duas agentes com personalidades completamente opostas que acabam por trabalhar juntas no Distrito Policial de Bokuto. A premissa parece simples, mas a execução é o que a distingue, os episódios são variados, o elenco secundário é memorável, e a série tem uma leveza que a torna genuinamente agradável de ver.

O que surpreende em You’re Under Arrest é a consistência. A maioria das comédias episódicas esgota as suas ideias rapidamente, mas esta consegue manter o ritmo durante toda a sua duração, explorando situações que vão desde o absurdo ao inesperadamente emotivo. Natsumi e Miyuki são uma dupla que funciona de forma orgânica, sem que a série precise de forçar conflitos artificiais para manter o interesse.

A franquia chegou a ter dois OVAs, duas séries anime, um filme e uma adaptação live-action. Noutro contexto, com outra distribuição, poderia ter atingido o estatuto de clássico fora do Japão. Acontece que tudo isso aconteceu numa época em que o acesso ao anime era limitado, e sem esse empurrão inicial, a série nunca conseguiu ganhar a massa crítica necessária.

3
Maison Ikkoku

Rumiko Takahashi é o nome por trás de Ranma ½, Inuyasha e Urusei Yatsura, franquias com bases de fãs enormes e adaptações que continuam a ser produzidas. Maison Ikkoku é provavelmente o trabalho mais contido e mais maduro de toda a sua carreira, e por isso mesmo acabou por atrair um público mais restrito. A série acompanha Yusaku Godai, um jovem que reprovou nos exames de entrada para a universidade e que, ao mudar-se para uma residência partilhada chamada Maison Ikkoku, se apaixona pela sua gestora, Kyoko Otonashi, uma viúva jovem ainda a tentar ultrapassar a morte do marido.

O que distingue Maison Ikkoku de praticamente tudo o que veio depois é a paciência com que constrói a relação central. Ao longo de quase 100 episódios, os dois protagonistas aproximam-se, afastam-se, cometem erros, carregam mágoas do passado e vão amadurecendo de formas que raramente se veem no anime romântico. Godai começa como um personagem imaturo e reactivo, e torna-se, de forma gradual e convincente, num adulto capaz de sustentar uma relação real. Não há um momento dramático que mude tudo, há um processo lento que se parece com a vida.

A série nunca teve a exposição que merecia. Quem procura romance no anime tende a ser canalizado para títulos de acção com elementos românticos, e Maison Ikkoku não tem nada disso para oferecer. É só uma história de amor muito bem contada, e isso, paradoxalmente, tornou-a invisível para muita gente.

2
Kimagure Orange Road

Em 1984, a Weekly Shonen Jump publicava um mangá que ia contra tudo o que se esperava da revista. Sem combates, sem poderes usados para derrotar inimigos, sem torneios. Kimagure Orange Road, de Izumi Matsumoto, era uma história de adolescentes, de indecisão e de sentimentos que não se conseguem explicar, e fez sucesso enorme na publicação que era a casa de Dragon Ball. A adaptação anime pelo Studio Pierrot seguiu-se entre 1987 e 1988, com 48 episódios que ainda hoje se aguentam bem.

A série gira em torno de Kyosuke Kasuga, um adolescente que acaba de mudar de cidade e que se encontra num triângulo amoroso impossível, de um lado, a misteriosa e fria Madoka Ayukawa, por quem se apaixona imediatamente; do outro, a extrovertida e carinhosa Hikaru Miyama, que se apaixona por ele. A complicação adicional é que Kyosuke tem poderes psíquicos que tenta esconder a toda a gente, o que transforma cada episódio numa mistura de comédia, tensão emocional e momentos de ternura genuína.

O que torna Kimagure Orange Road especial é a qualidade da escrita dos personagens. Os três protagonistas têm profundidade suficiente para que o dilema central nunca pareça artificial, é difícil não perceber cada um deles, e é isso que faz com que a resolução da série tenha pesado tanto para quem a viu na época. A Discotek Media lançou uma edição remasterizada em Blu-ray em 2019, mas continua a ser um nome quase desconhecido para os fãs que entraram no anime já neste século.

1
Blue Seed

Blue Seed

Produzido pela Production I.G. e Ashi Productions, Blue Seed estreou em outubro de 1994 na TV Tokyo e foi exibido até março de 1995. Com 26 episódios e um OVA lançado entre 1996 e 1998, a série baseia-se no mangá de Yuzo Takada, o mesmo autor de 3×3 Eyes, e inspira-se na mitologia japonesa, nomeadamente no ciclo de Izumo e na lenda do deus Susanoo. A protagonista é Momiji Fujimiya, uma estudante do secundário que descobre ser descendente de uma princesa com o poder de conter os Aragami, criaturas antigas que ameaçam a humanidade.

A animação era, para a época, notável. A Production I.G. já tinha construído uma reputação de rigor técnico, e Blue Seed beneficia disso em cada sequência de acção. Mas o que surpreende quem vê a série hoje é a forma como equilibra o espectáculo visual com personagens que realmente importam. A relação entre Momiji e Kusanagi, o agente governamental encarregado de a proteger, desenvolve-se de forma lenta e convincente, e o romance que emerge não parece forçado.

Há também uma dimensão ambiental que percorre toda a série de forma subtil, os Aragami não são simplesmente monstros, são manifestações de uma força natural em conflito com a expansão humana. É um tema que ressoa hoje de forma diferente do que ressoava em 1994, o que torna Blue Seed uma série curiosamente mais relevante do que era quando estreou. Na sua época, chegou a ser comparada a Neon Genesis Evangelion pela profundidade temática. Evangelion nunca parou de crescer; Blue Seed desapareceu quase sem fazer barulho.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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Bruno Reis
Bruno Reis
Membro
5 , Junho , 2026 19:15

Estão a rapaziada da SIC certamente que se lembra da Olívia e Laura e do resto da… (suspira) EQUIPA DE CHOQUE!!!!!

O Maison Ikkoku é mesmo a obra da Rumiko que menos é se fala, uma pena porque o romance, como disseste, é muito maduro.

A malta da Locomotion também se recorda de Blue Seed de certeza, e acredito que Silent Mobius e Saber Marionette J também, essas duas sem dúvida até podiam fazer parte desta lista.

Last edited 37 minutos atrás by Bruno Reis
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