
Goro Taniguchi não é dado a meias palavras quando fala da indústria que o formou. O diretor de One Piece Film: Red e Code Geass voltou a disparar, desta vez numa palestra de 90 minutos na Universidade de Keio a 26 de maio, num evento patrocinado pela empresa de produção de anime ARCH. O jornal Asahi Shimbun esteve presente e publicou um relato detalhado do que foi dito.
O tema central foi um diagnóstico preocupante, a falta de supervisão criativa dos diretores está a transformar o anime em algo que Taniguchi compara a comida de plástico. “O resultado de toda a gente fazer as coisas de forma desconexa é fast food”. disse. “Se é assim que pretendiam fazê-lo, tudo bem. Mas não é; é comida rápida produzida como resultado do processo. Isso é perigoso”.
O exemplo concreto que deu foi o dos diretores de fotografia, profissionais que operam sob a supervisão do diretor, que têm vindo a publicar nas redes sociais comparações de cenas antes e depois do seu trabalho de tratamento de imagem. Taniguchi disse que isto “não poderia ser mais embaraçoso”, não porque o trabalho seja mau, mas porque esses antes-e-depois revelam frequentemente que o diretor nunca deu instruções precisas. O que está a ser mostrado como trabalho criativo é, muitas vezes, uma correção de defeitos nos materiais que chegaram em mau estado. “A forma correta de o fazer é o diretor planear tudo desde o início e instruir o diretor de fotografia a fazê-lo dessa forma”, sublinhou.
O problema, na sua leitura, é estrutural. Quando cada departamento trabalha de forma autónoma e sem uma visão unificada, o produto final pode ter elementos individualmente competentes, um tratamento de cor apelativo, uma composição musical adequada, uma cena bem animada, mas sem coerência de conjunto. Estímulo sem identidade.
Esta crítica encaixa num padrão que Taniguchi tem vindo a desenvolver publicamente há anos. Em março de 2026, aquando da estreia do seu novo filme L’étoile de Paris en fleur no Japão, disse ao Tokyo Shimbun que “se ficar apenas com adaptações, a animação japonesa estará acabada”. Para Taniguchi, os criadores que se limitam a adaptar mangá ou light novels acabam por funcionar como “subcontratados” do material de origem, perdendo a capacidade de compor a partir do zero.
Na palestra de Keio, o diretor ligou este problema ao colapso de um sistema de aprendizagem informal que durante décadas foi o motor da formação de novos talentos. A culpa, diz ele, recai em grande parte sobre a proliferação das séries de um cour, temporadas de apenas 11 a 13 episódios que dominam a produção desde meados dos anos 2000. “Por volta de 2005, houve um aumento de séries de um cour. Antes disso, eram dois cours. Como resultado, o sistema de aprendizagem entre os membros da equipa entrou em colapso. Com um cour, um membro da equipa só pode estar envolvido num máximo de três episódios”.
“Três episódios não chegam para aprender nada. O sistema de formação desmorona-se. Este problema ainda não foi resolvido adequadamente”.
O jornalista do Asahi Shimbun presente na sessão, Atsushi Ohara, interpretou a metáfora do “fast food” como algo “estimulante mas sem individualidade nem coerência”, uma leitura que alinha com a de Taniguchi sobre peças de produção que funcionam isoladas mas não formam um todo com sentido.
As exceções que o diretor aponta são os grandes estúdios que trabalham em séries longas de animação infantil, como a Toei Animation, a TMS Entertainment e a Shin-Ei Animation, precisamente porque esses contextos permitem que os diretores de episódios (enshutsu) recebam mais feedback e orientação continuada do diretor-chefe (kantoku).
Diretor de Code Geass alerta: se só restarem adaptações, o anime está perdido
Taniguchi tem 59 anos e uma carreira que inclui Planetes, s-CRY-ed, Code Geass e One Piece Film: Red, o filme de animação japonesa mais rentável de 2022. O seu mais recente projeto, L’étoile de Paris en fleur, é deliberadamente uma obra original, sem mangá nem light novel de base, e estreou nos cinemas japoneses a 13 de março de 2026. A sua postura pública tem sido consistente, a indústria precisa de preservar espaço para obras que não sejam adaptações, caso contrário perde a capacidade de se renovar.
A palestra de Keio foi apenas para estudantes e foi patrocinada pela ARCH, empresa cuja CEO, Nao Hirasawa, já tinha publicado dados sobre o aumento dos custos de produção por episódio de anime.








