
A decisão da Sony de acabar com a produção de discos físicos para novos jogos de PlayStation continua a gerar reações dentro da indústria, semanas depois de o anúncio ter sido feito. A mais recente vem de Sohei Niikawa, criador da saga Disgaea e antigo presidente da Nippon Ichi Software, empresa japonesa com uma ligação de longa data à PlayStation. Em declarações à Noisy Pixel durante a Anime Expo 2026, Niikawa não poupou críticas ao rumo escolhido pela Sony, ainda que compreenda a lógica de negócio por trás da decisão.
Em julho, a Sony confirmou que, a partir de janeiro de 2028, deixará de imprimir discos físicos para todos os novos jogos lançados na PlayStation. Depois dessa data, as novidades só estarão disponíveis em formato digital, seja através da PlayStation Store ou de códigos de download vendidos em lojas físicas. Segundo o comunicado publicado no PlayStation Blog, a mudança surge como resposta à evolução das preferências dos consumidores, com o consumo digital a ultrapassar largamente as vendas em disco. A decisão não afeta os jogos já lançados, ou que venham a ser lançados, antes dessa data.
Os números ajudam a explicar a decisão. Os downloads digitais já representavam 85% das vendas de jogos para PS4 e PS5 no último ano fiscal, contra apenas 15% em suporte físico. A tendência tem-se refletido também no retalho, com cadeias como a GameStop a fechar mais de 1.300 lojas nos últimos dois anos fiscais.
A crítica de Niikawa: “Vão até ao fim”
Na entrevista à Noisy Pixel, Niikawa começou por defender o valor simbólico dos jogos em formato físico, sublinhando o significado que estes objetos podem ter para quem os coleciona e para a relação entre criadores e fãs, sobretudo em eventos onde os jogadores levam as suas cópias para serem autografadas. Ainda assim, reconheceu que, do ponto de vista puramente comercial, a decisão da Sony faz sentido, embora tenha questionado se os responsáveis da empresa alguma vez viveram esse tipo de interação direta com o público.
Foi depois desse raciocínio que Niikawa lançou a frase que se tornou o ponto alto da entrevista, se a Sony está disposta a abdicar por completo das embalagens físicas, então bem podia ir mais longe e prescindir também do próprio hardware da consola. Segundo a tradução das suas palavras, “bastaria uma televisão. Para que precisaria da consola?”. A ideia do criador de Disgaea é simples, se o objetivo é eliminar tudo o que é físico, mais vale seguir esse caminho até ao fim, em vez de manter uma consola dedicada apenas para correr jogos que já não existem em formato tangível.
Um cenário que já existe, mas ainda com limitações
A proposta de Niikawa não é, na prática, tão distante da realidade quanto possa parecer. Serviços como o Xbox Game Pass, a Amazon Luna ou a plataforma Blacknut já permitem instalar aplicações diretamente em televisores compatíveis e jogar por streaming, sem qualquer consola dedicada, bastando uma ligação à internet e um comando compatível. O problema, sublinha o próprio criador da saga, é que a tecnologia de computação em nuvem que sustenta este tipo de serviços ainda está longe de ser perfeita, e continua dependente de uma infraestrutura de internet que, em muitos locais, não tem qualidade suficiente para garantir uma boa experiência de jogo.
Vale notar que Niikawa fala com uma perspetiva pouco comum no setor, além de ser o rosto criativo por trás de Disgaea, liderou a Nippon Ichi Software durante 13 anos, entre 2009 e 2022, altura em que fundou a sua própria produtora, a SuperNiche. A entrevista à Noisy Pixel surgiu, aliás, no âmbito da promoção do seu mais recente projeto, o RPG tático Demons’ Night Fever, mas acabou por gerar um dos comentários mais partilhados nas redes sociais ligadas ao mundo dos videojogos nos últimos dias.









