Kentaro Miura construiu, ao longo de mais de três décadas, uma das histórias mais brutais e ao mesmo tempo mais humanas do mangá, e isso deixou uma marca difícil de apagar em quem a leu. Depois de acompanhar Guts pelo inferno pessoal que é a sua existência, é normal sentir que nada mais vai conseguir provocar o mesmo impacto que Berserk.
10Blade of the Immortal
Manji é um mercenário que já matou uma centena de samurais, entre eles o marido da própria irmã, e que paga por isso da forma mais cruel possível: tornando-se imortal. Uma monja centenária amaldiçoa-o com vermes sagrados que curam qualquer ferida e reconstroem membros decepados, condenando-o a viver para sempre a menos que consiga eliminar mil homens verdadeiramente maus.
O que torna esta obra tão próxima do espírito de Berserk não é apenas a violência gráfica, mas o peso emocional que Manji carrega em cada capítulo. A imortalidade, longe de ser um dom, funciona como uma prisão, e é essa tensão entre castigo e redenção que aproxima a obra da tragédia de Guts.
Quando a jovem Rin entra na sua vida à procura de vingança pessoal, o mangá ganha ainda outra camada, mostrando como o passado de alguém pode colidir e alterar o destino de outra pessoa. É um daqueles casos em que a ação nunca existe sozinha, vem sempre acompanhada de consequência.
9Ubel Blatt
Ambientado num cenário medieval sombrio, este mangá segue Koinzell, um espadachim de habilidades quase sobrenaturais que esconde uma identidade e um passado marcados pela traição. Vinte anos antes, fazia parte de um grupo de 14 guerreiros de elite enviados numa missão suicida contra a nação rival de Wischtech, até ser traído pelos próprios companheiros de armas.
O aspeto mais interessante de Ubel Blatt é a forma como inverte por completo a narrativa oficial dos acontecimentos. Quem é hoje celebrado como herói foi, na realidade, quem traiu e usurpou o mérito alheio, enquanto os verdadeiros vencedores foram apagados da história. Essa ambiguidade moral, tão presente também em Berserk, é o motor de toda a história.
À medida que Koinzell avança na sua vingança, o mangá vai mostrando que recuperar aquilo que foi roubado tem sempre um custo, e que a linha entre justiça e obsessão é cada vez mais ténue.
8Fire Punch
Antes de criar Chainsaw Man, Tatsuki Fujimoto assinou esta história ainda mais crua e desesperada. Num mundo gelado onde a fome e o desespero moldam todas as decisões, Agni e a irmã Luna possuem o poder da regeneração, uma capacidade que a própria aldeia explora ao alimentar-se dos membros que lhes voltam a crescer.
Quando outro indivíduo com poderes especiais ateia em Agni um fogo que nunca se extingue, tudo muda. Luna morre queimada e o protagonista fica condenado a arder eternamente, transformando-se numa figura trágica que arrasta consigo tudo o que toca. É uma premissa absurda na forma, mas devastadora no conteúdo.
Fire Punch não pretende oferecer conforto ao leitor. Tal como Berserk, mergulha de cabeça no sofrimento humano sem procurar desculpas fáceis, o que torna esta leitura particularmente indicada para quem não se assusta com desfechos difíceis de digerir.
7Chainsaw Man
Já mais conhecido do grande público, este mangá mistura horror, comédia absurda e uma boa dose de crueldade sem nunca perder o ritmo. Denji é um adolescente endividado que sobrevive a fazer trabalhos sujos ao lado do seu diabo de estimação, Pochita, até ser traído e morto por quem confiava.
A fusão entre os dois dá origem ao Chainsaw Man, recrutado de seguida por uma divisão especial de caça a diabos liderada pela enigmática Makima. A partir daqui, a série equilibra momentos de comédia genuína com uma violência quase sempre inesperada, um contraste que ajuda a suavizar o peso emocional sem nunca o anular.
O que realmente aproxima Chainsaw Man de Berserk é a forma como o protagonista deseja, acima de tudo, coisas simples: comer bem, dormir numa cama confortável, sentir-se próximo de alguém. É essa humanidade básica, sempre ameaçada, que dá sentido a toda a violência à sua volta.
6Made in Abyss
Nem todo o dark fantasy precisa de um visual sombrio para ser perturbador, e Made in Abyss prova isso melhor do que quase qualquer outra obra do género. Riko é uma jovem órfã que vive junto de um imenso abismo repleto de relíquias antigas, criaturas desconhecidas e perigos que aumentam quanto mais fundo se desce.
Acompanhada pelo companheiro robô Reg, decide descer à procura da mãe, que desapareceu nas profundezas anos antes. À medida que avançam, o contraste entre a estética encantadora do mundo e os horrores físicos e psicológicos que o abismo esconde vai-se tornando cada vez mais evidente, quase perturbador.
É precisamente essa dissonância entre beleza e crueldade que faz de Made in Abyss uma leitura tão marcante para quem gosta de Berserk. A violência aqui não é anunciada por um visual pesado, surge de forma inesperada, o que a torna ainda mais difícil de esquecer.
5Gantz
Kei Kurono e Masaru Kato morrem atropelados ao tentar salvar um desconhecido embriagado. Em vez do fim esperado, acordam numa sala vazia junto de outras pessoas recentemente falecidas, sob as ordens de uma esfera negra misteriosa conhecida apenas como Gantz.
A partir daí, o grupo é obrigado a participar em missões cada vez mais violentas, contra alvos que vão de aliens a guardiões sobrenaturais, com a promessa de que acumular pontos suficientes permite comprar a liberdade ou até ressuscitar alguém. É um conceito próximo de um jogo de sobrevivência, mas sem qualquer filtro na forma como retrata a morte.
Gantz não poupa ninguém, personagens que o leitor começa a apreciar podem desaparecer sem aviso, e é exatamente essa imprevisibilidade brutal, tão característica de Berserk, que torna cada missão genuinamente tensa.
4Dorohedoro
Num bairro industrial conhecido apenas como Hole, Kaimen acorda com a cabeça de um lagarto e um homem inteiro preso na própria garganta, sem qualquer memória de quem era antes. Junto da amiga Nikaido, dedica-se a caçar feiticeiros para lhes fazer sempre a mesma pergunta, na esperança de encontrar respostas sobre a sua condição.
O universo criado por Q Hayashida mistura horror corporal, humor absurdo e uma mitologia complexa que se vai revelando aos poucos, sem nunca facilitar a vida ao leitor. Há loops temporais, transformações grotescas e uma estética suja que reforça a sensação de que ninguém neste mundo está verdadeiramente a salvo.
O que aproxima Dorohedoro de Berserk não é tanto o tom, mais irónico e estranho, mas a forma como constrói um mundo tão específico e coerente que se torna quase palpável, mesmo quando tudo à sua volta parece absurdo.
3Claymore
Numa terra assolada por criaturas metamorfas conhecidas como Yoma, capazes de se disfarçar de humanos para caçar à vontade, apenas as Claymore, guerreiras meio-humanas meio-Yoma, conseguem oferecer alguma proteção. São simultaneamente respeitadas e temidas pela própria comunidade que defendem.
Clare, uma combatente de nível relativamente baixo, segue os passos de Teresa, a guerreira que a resgatou ainda criança e que mais tarde é morta por uma Yoma de poder muito superior. A partir daí, o objetivo de vingança transforma-se também numa jornada sobre identidade, uma vez que quanto mais poder as Claymore usam, mais perto ficam de perder a própria humanidade.
Essa tensão entre força e perda de si mesmo é o que aproxima mais claramente Claymore de Berserk. Não se trata apenas de vencer batalhas, mas de perceber quanto se está disposto a sacrificar para continuar a lutar.
2Vinland Saga
Ambientado na Europa do século XI, no auge da expansão viking, este mangá acompanha Thorfinn desde a infância, quando testemunha o assassinato do próprio pai às mãos de Askeladd, um mercenário sem escrúpulos. Em vez de fugir, acaba por se juntar ao grupo do assassino, prometendo a si mesmo vingar-se assim que tiver oportunidade.
A obra retrata com grande detalhe histórico uma Europa marcada por saques, escravatura e guerras constantes, sem nunca romantizar esse período. À medida que Thorfinn cresce, a série vai desconstruindo lentamente a própria ideia de honra guerreira que motivou o protagonista desde o início.
Vinland Saga não é uma fantasia negra no sentido mais literal do termo, mas partilha com Berserk a mesma vontade de mostrar a guerra sem filtros, e de questionar até que ponto vingança e violência conseguem realmente preencher um vazio.
1Vagabond
Takezo Shinmen, mais tarde conhecido como Musashi, cresce a saber apenas lutar e matar, o que o torna alvo de rejeição na própria aldeia. Depois de participar na batalha de Sekigahara do lado derrotado e de ser perseguido como criminoso, é salvo por um monge que o desafia a procurar um sentido para a sua existência para além da violência.
A partir desse momento, Musashi transforma-se num vagabundo à procura da própria identidade, enfrentando adversários cada vez mais fortes ao mesmo tempo que confronta os próprios limites internos. É uma jornada tão física quanto espiritual, construída com um traço extremamente detalhado e expressivo.
Não é por acaso que esta obra encerra esta lista. O seu autor, Takehiko Inoue, assumiu publicamente a admiração pelo trabalho de Kentaro Miura, e essa influência é visível tanto na profundidade psicológica de Musashi como na forma crua como a violência é retratada, tornando Vagabond talvez a leitura mais próxima do espírito de Berserk nesta seleção.









