Quando falamos de uma sequela, é normal esperar uma evolução em relação ao jogo original. Melhorias gráficas, uma jogabilidade mais afinada e novas ideias que demonstram aquilo que o estúdio aprendeu com o lançamento anterior. Nem sempre isso acontece, mas Mortal Shell II é um verdadeiro exemplo de como uma série pode crescer e melhorar.
A Cold Symmetry pegou na base do primeiro jogo, percebeu o que funcionava e, sobretudo, aquilo que precisava de ser ajustado, conseguindo elevar todos os seus elementos a um novo patamar. Devo confessar que não esperava tamanha proeza, mas esta sequela é surpreendentemente mais ambiciosa e completa, mostrando claramente a evolução do estúdio.

Nesta sequela somos colocados na pele do Arauto, uma entidade que lembra Prometheus do universo Alien de Ridley Scott, nascida de um dos ovos de uma poderosa divindade à qual devemos lealdade. A nossa missão passa por recuperar os ovos perdidos, com a promessa de que, ao fazê-lo, poderemos purificar o mundo mergulhado no caos.
Vitaly Bulgarov foi um dos principais responsáveis pela direção artística do universo de Mortal Shell II.
Como já é imagem de marca da maioria dos soulslike, a narrativa não nos explica tudo de forma direta. Grande parte da história está inserida nos diálogos, na análise visual dos locais e em documentos perdidos pelo mundo, funcionando como um puzzle que devemos interligar e decifrar. É uma abordagem que por norma funciona bem na construção do universo, ainda que Mortal Shell II pareça demasiado interessado em manter o mistério.
No entanto, as histórias associadas aos diferentes shells foram o que mais me deixou curioso para descobrir. Estas carcaças não servem apenas para diversificar a nossa forma de lutar, cada uma pertenceu a um guerreiro com o seu próprio passado e, ao descobrirmos as suas memórias, começamos a compreender melhor o mundo onde estamos inseridos. São contos que dão uma dimensão mais humana aos seres que acabamos por encarnar ao longo do jogo.

É precisamente através das “shells” que a narrativa se cruza com aquele que é, para mim, uma das maiores qualidades de Mortal Shell II, o combate. No seu estado original, o Arauto consegue enfrentar inimigos, mas é mais vulnerável do que os diferentes corpos que pode possuir. Cada “shell” possui características e habilidades próprias, permitindo-nos adaptar a personagem ao nosso estilo de jogo. Temos desde um guerreiro veloz, ao estilo de um assassino, até um cavaleiro com maior ataque e defesa, ideal para armas pesadas. Além disso, destacam-se as mecânicas únicas de cada um, como a capacidade de puxar um inimigo na nossa direção com uma corda elétrica ou de ficar nas sombras após uma esquiva perfeita.
Contamos também com uma boa gama de armas. Estão presentes as habituais espadas, adagas e machados, mas o jogo não tem receio de nos colocar nas mãos opções mais criativas, como uma shotgun ou até uma guitarra que aparenta ser um acessório normal, mas está longe disso. Esta diversidade faz com que experimentar novas combinações seja uma parte fundamental do combate, tornando os confrontos mais brutais e variados.
Conselho: Não gastem os vossos Glimpses para descobrir onde se encontram as Shells dos guerreiros. Deixem-se levar pela exploração e pela descoberta, pois acabarão por encontrar naturalmente aquilo de que precisam.
O parry também é um elemento importante para o combate, permitindo não só evitar dano e atordoar os inimigos, como caso façamos um bloqueio perfeito abrimos espaço para um ataque especial que provoca danos significativos ou até fatais. O mais interessante é a possibilidade de personalizar o estilo de defesa através dos selos que encontramos. Por exemplo, com o Selo de Vatra, petrificamos o corpo ao bloquear para evitar o dano do próximo ataque, enquanto o Selo Infinito exige maior precisão na esquiva, mas deixa o adversário atordoado com mais facilidade.
Há uma liberdade enorme no que toca à customização do combate, o que torna tudo muito mais divertido. Acredito que cada jogador encontrará a sua própria build, podemos apostar por exemplo em armas leves privilegiando ataques rápidos, usar armas de duas mãos focadas em dano crítico, ou aproveitar as Tarstones para imbuir o equipamento com fogo ou mesmo sangue. Há muito espaço para experimentar e é extremamente recompensador quando vemos uma combinação a funcionar bem.

O vasto mundo de Mortal Shell II merece igual destaque. Fallgrim é extremamente interessante de percorrer, apresentando cenários enormes e paisagens de tirar o fôlego que nos dão uma verdadeira vontade de explorar tudo sem deixar nada para trás. Entre aldeias, florestas, pântanos, masmorras, tudo foi construído de forma orgânica num mundo bastante vivo, onde podemos encontrar criaturas na sua rotina, tesouros e outros desafios. Gostei particularmente de como a exploração recompensa a nossa curiosidade quando nos afastamos do caminho principal.
Não falta variedade de inimigos e cada um consegue distinguir-se bem dos restantes, sem nunca parecer repetitivo. O mesmo se aplica aos bosses que, além de apresentarem um visual bizarro e assustador, são um excelente desafio à medida do que estamos acostumados com os soulslike.

A paixão da Cold Symmetry por este tipo de universo é perfeitamente demonstrada nos visuais. O mundo de Mortal Shell II parece saído de uma obra de fantasia medieval com uma atmosfera sombria e opressiva, lembrando ocasionalmente o imaginário de Tolkien. Há uma enorme diversidade de paisagens e a forma como as diferentes áreas se interligam transmite a sensação de um mundo coeso. Nota-se que também há um cuidado especial com as texturas e com a iluminação, fundamentais para dar vida ao ambiente.
Onde o jogo nem sempre dá o seu melhor é no desempenho. Na PlayStation 5, embora não tenha percebido quebras de FPS, deparei-me com alguns bloqueios ocasionais, nomeadamente ao correr ou em combates com muitos inimigos em simultâneo.
O som complementa admiravelmente a atmosfera. A banda sonora aposta principalmente em temas subtis, acompanhados por sons da natureza como o vento, o grasnar dos corvos ou o cantar dos grilos, tornando esta jornada mais imersiva.
Mortal Shell II é a prova inequívoca de como produzir uma sequela melhor e viciante. A liberdade para experimentar diferentes estilos de combate, aliada a um mundo vasto e orgânico para explorar, mostra que a Cold Symmetry está num ótimo momento criativo. O desempenho nem sempre apresenta o seu melhor, mas nada que não possa ser corrigido com futuras atualizações.










