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10 animes dos anos 90 que todos os fãs deviam ver pelo menos uma vez

Há quem defenda que o anime só se tornou verdadeiramente ambicioso a partir dos anos 2000, mas basta olhar com atenção para a década anterior para perceber que essa ideia não faz justiça ao que já se fazia antes disso.

10
Cowboy Bebop

Ambientada num futuro em que a humanidade se espalhou pelo sistema solar depois de a Terra se ter tornado praticamente inabitável, a série acompanha Spike Spiegel, Jet Black, Faye Valentine e Ed, um grupo de caçadores de recompensas a bordo da nave Bebop. Foi produzida pelo estúdio Sunrise sob a direção de Shinichiro Watanabe e estreou no Japão em 1998, tornando-se rapidamente uma referência incontornável do género, muito por combinar elementos de noir, jazz e western de uma forma que raramente se via em animação japonesa até então.

Grande parte do fascínio da série está naquilo que não é dito diretamente. Watanabe prefere comunicar através de silêncios, gestos pequenos e de uma banda sonora composta por Yoko Kanno, deixando que o peso emocional se acumule devagar ao longo dos 26 episódios até explodir na reta final. Não há grandes discursos nem explicações forçadas, o espectador vai percebendo, aos poucos, que cada membro da tripulação está a fugir de alguma coisa.

É essa construção paciente, aliada a uma estética irrepreensível e a um som que continua a ser citado como referência, que transforma um anime aparentemente centrado em ação e estilo numa reflexão sobre família encontrada, arrependimento e a dificuldade de seguir em frente. Não é por acaso que continua a aparecer, praticamente todos os anos, em qualquer lista séria de melhores animes de sempre.

9
Berserk

Berserk vol 1 cover

A adaptação da obra de Kentaro Miura acompanha Guts, um mercenário marcado por um passado brutal, e a sua relação cada vez mais complexa com Griffith, um líder ambicioso. O que torna esta tragédia tão avassaladora é o facto de nunca ser apresentada como algo súbito ou imprevisível, tudo é construído ao longo de tempo suficiente para que as relações entre as personagens pareçam genuínas antes de começarem a desmoronar.

Miura não escreve Guts como alguém simplesmente arrastado pelo destino, e é essa autonomia que torna o seu percurso tão pesado de acompanhar. As suas escolhas têm consequências reais, a sua resistência tem peso narrativo, e até a necessidade de se afirmar fora da sombra de Griffith acaba por se tornar mais uma peça no encadeamento de acontecimentos, em vez de uma forma de escapar a eles.

No final, não há vilões nem heróis completamente limpos. A tragédia de Berserk não nasce de um único ato isolado, mas de tudo aquilo que foi sendo construído, camada a camada, até chegar a esse ponto de rutura, o que ajuda a explicar porque é que a obra continua a ser referida como um dos pontos altos de fantasia negra em qualquer meio, não só em animação.

8
Trigun

Trigun Stargaze anime poster

Trigun começa como uma comédia exagerada e cheia de ação, apresentando Vash the Stampede como um pistoleiro atrapalhado que se mete constantemente em sarilhos sem grande explicação aparente. Por trás dessa fachada divertida, no entanto, esconde-se um homem a carregar uma culpa imensa e um cansaço emocional profundo, que a série, produzida pelo estúdio Madhouse, vai revelando aos poucos à medida que os episódios avançam.

O que distingue Trigun de outras histórias construídas à volta da não-violência é o facto de nunca tratar o pacifismo de Vash como um ideal fácil de manter. A personagem é obrigada a testemunhar crueldade, perda e sofrimento de forma constante, sem que isso a leve a desistir da sua crença na misericórdia, mesmo quando isso lhe custa caro.

É esse contraste entre humor solto e peso emocional genuíno que cria a atmosfera muito própria da série, e que continua a marcar quem a vê muito depois de terminar. No desfecho, Trigun deixa de parecer apenas uma aventura de ficção científica cheia de estilo e transforma-se numa história profundamente humana sobre perdão, moralidade e o custo emocional de continuar a acreditar em algo melhor.

7
Revolutionary Girl Utena

Novo manga de Revolutionary Girl Utena em Julho

Produzida pelo estúdio J.C. Staff, a série usa a estrutura familiar de um shojo tradicional, ambientado num colégio, para construir algo bem mais desconfortável do que aparenta à primeira vista. O cenário parece inicialmente inofensivo, mas rapidamente começa a assemelhar-se a um ciclo fechado, onde todas as personagens repetem papéis que não compreendem nem controlam totalmente, sem que a série precise de o explicar de forma direta.

É essa sensação de repetição, quase de deja vu constante, que dá à série um peso emocional muito particular. Nada se resolve exatamente da forma como o espectador esperaria, e o tom alterna entre romântico, dramático e surreal de uma maneira que parece sempre intencional, quase como se a narrativa estivesse constantemente a lembrar ao público que ali nada é tão simples ou inofensivo quanto as convenções do género fariam supor.

Mais do que uma simples crítica ao shojo enquanto género, Revolutionary Girl Utena convida o espectador a sentar-se com o desconforto e a ambiguidade, sem lhe oferecer respostas fáceis. É essa recusa em simplificar que faz da série uma referência tão citada por criadores posteriores, dentro e fora do Japão.

6
Yu Yu Hakusho

Produzida pelo Studio Pierrot, a série acompanha Yusuke Urameshi, um adolescente sem grande rumo que se torna detetive espiritual depois de morrer a salvar uma criança de um atropelamento. O que distingue Yu Yu Hakusho de outros animes de ação da altura é que as lutas nunca são apenas sobre força bruta, cada desafio empurra Yusuke a amadurecer e a confrontar partes de si mesmo que preferia continuar a ignorar.

Esse crescimento é tratado como algo doloroso, lento e pouco linear, em vez de resultar simplesmente de uma sequência de poderes cada vez mais fortes desbloqueados a tempo do próximo combate. Kuwabara esconde inseguranças reais por trás da postura confiante, Hiei disfarça a solidão atrás de uma arrogância gelada, e ambos ganham profundidade muito além do que seria de esperar de personagens secundárias de um shonen de ação.

Mesmo o arco do Torneio das Trevas, talvez o mais lembrado pelas lutas espetaculares, funciona sobretudo porque o peso emocional colocado em cada confronto pesa mais do que a própria vitória. É essa combinação entre ação e vulnerabilidade que faz da série uma referência ainda hoje, sempre que se discute a evolução do shonen de luta.

5
Slam Dunk

Por trás da comédia e da energia caótica que marcam os primeiros episódios, Slam Dunk conta uma história surpreendentemente sincera sobre crescimento pessoal e autoestima. Hanamichi Sakuragi começa como um delinquente sem grande direção na vida, mas o basquetebol torna-se gradualmente na primeira coisa que lhe dá orgulho e propósito, apesar de todas as suas inseguranças.

As suas falhas constantes e a teimosia com que insiste em continuar a jogar, mesmo depois de repetidos fracassos, tornam essa evolução particularmente honesta e fácil de acompanhar. Não há atalhos, cada progresso de Sakuragi surge de treino, frustração e da vontade de não desistir, o que dá à série uma credibilidade rara dentro do género desportivo.

O que mantém Slam Dunk relevante tantos anos depois é a forma como cada vitória e cada rivalidade parecem assentes em esforço genuíno e trabalho de equipa, em vez de recorrerem a espetáculo pouco realista. Mais do que um anime desportivo, a série acaba por captar a energia desajeitada da juventude e o processo lento de qualquer pessoa a ganhar confiança em si própria.

4
Betterman

Betterman

Produzida pelo Studio 7, divisão interna da Sunrise, e estreada em abril de 1999, Betterman abandona o heroísmo tradicional em favor de paranoia e horror biológico, entregando uma das histórias mais perturbadoras do mecha da década. Ao contrário de outros animes de robôs da altura, a série encara a humanidade como um estágio inacabado e instável, apoiando-se em body horror e num simbolismo fortemente influenciado pela psicologia de Carl Jung.

A ameaça central, um fenómeno misterioso chamado Algernon, transforma pessoas comuns em criaturas violentas sem qualquer aviso, o que dá à série um tom de constante incerteza. Em vez de batalhas triunfantes com robôs gigantes, o espectador fica sobretudo com uma sensação de mal-estar que persiste muito depois de terminar cada episódio.

Ainda assim, é precisamente essa vontade de explorar ideias difíceis, que a televisão mais convencional preferia evitar, que torna Betterman um contraponto interessante face aos robôs gigantes mais tradicionais da altura, e uma obra que continua a ser redescoberta por quem gosta de mecha fora do óbvio.

3
Neon Genesis Evangelion

Neon Genesis Evangelion anime visual

Produzida pelo estúdio Gainax, a série usa um apocalipse protagonizado por robôs gigantes para explorar temas como solidão, autoestima e o medo de criar ligações emocionais verdadeiras. Shinji Ikari está longe de ser um herói destemido, é um rapaz que duvida constantemente de si mesmo e tem dificuldade em acreditar que alguém possa gostar dele sem esperar algo em troca, o que dá à série uma vulnerabilidade pouco comum no género.

À medida que a história avança, os Evas deixam de parecer simples máquinas de combate e passam a refletir cada vez mais o estado emocional dos próprios pilotos. Em vez de se limitar a entregar ação, cada batalha acaba por expor mais uma camada de medo, isolamento ou desespero nas personagens envolvidas, transformando os combates em algo bem mais psicológico do que espetacular.

No desfecho, a série abandona praticamente a narrativa mais convencional para forçar as personagens a confrontar depressão, identidade e a necessidade dolorosa de conexão humana, sem qualquer filtro. É essa honestidade desconfortável que continua a gerar tanta discussão em torno de Evangelion, décadas depois da estreia.

2
Sorcerous Stabber Orphen

Enquanto muitos animes de fantasia dos anos 90 se centravam em heróis grandiosos e profecias antigas, Sorcerous Stabber Orphen, produzida pela J.C. Staff, optou por uma abordagem bem mais terrena. A magia é tratada como algo político, perigoso e emocionalmente complicado, e o próprio mundo parece moldado por erros antigos que nunca foram verdadeiramente resolvidos nem esquecidos.

Em vez de recorrer a uma mitologia extensa para justificar cada acontecimento, a série prefere construir tensão através de relações desgastadas e de um passado que continua a pesar sobre as personagens. Orphen destaca-se precisamente por rejeitar o idealismo típico dos protagonistas de fantasia, com um cinismo que nasce da experiência e não de simples atitude.

Essa postura torna a relação com personagens como Azalie e Majic Lin distante mas emocionalmente credível, e até o humor da série assenta mais em frustração seca e choques de personalidade do que em comédia exagerada. O resultado é uma textura desgastada, quase melancólica, que continua a parecer diferente do resto do género mesmo décadas depois de ter estreado.

1
Dragon Ball Z

Baseada na obra de Akira Toriyama e produzida pela Toei Animation, a série eleva o género de ação ao ligar a escalada constante de poder a temas de perseverança e crescimento pessoal. Goku transmite uma determinação contagiante que empurra todos à sua volta a evoluir, enquanto a jornada orgulhosa de Vegeta acrescenta uma camada extra de complexidade emocional a um elenco já de si memorável.

Os longos arcos de treino e os confrontos exaustivos, tantas vezes citados em tom de piada pela sua duração, não servem apenas para criar tensão narrativa. Espelham também os medos, as ambições e o crescimento interno das personagens, o que faz com que cada vitória pareça verdadeiramente merecida em vez de simplesmente anunciada.

O maior motivo para Dragon Ball Z se ter tornado num fenómeno cultural, no entanto, é o equilíbrio constante entre intensidade e momentos mais leves. A série passa com naturalidade de humor absurdo para perdas reais, sacrifícios genuínos e triunfos emocionalmente honestos, e é esse equilíbrio que continua a garantir novas gerações de fãs a cada ano que passa.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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