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Diretor de Code Geass diz que o anime está a perder a alma e critica a sociedade japonesa

Goro Taniguchi (Code Geass) alerta para a crise criativa do anime e culpa a "sociedade branca" japonesa

Code Geass Aspar the Star Chaser anime visual (2)

Goro Taniguchi, diretor de Code Geass: Lelouch of the Rebellion, Planetes e One Piece Film: Red, foi a uma aula na Universidade de Keio falar sobre o estado do anime, e o que disse não foi propriamente reconfortante para quem trabalha na indústria. O resumo da intervenção, reportado pelo jornal Bunshun Online, gerou discussão tanto no Japão como fora dele.

Uma indústria moldada por uma sociedade mais “limpa”

O ponto de partida de Taniguchi foi um conceito do sociólogo Toshio Okada: a chamada “sociedade branca”, não uma referência racial, mas uma metáfora para uma sociedade cada vez mais transparente e higienizada, moldada pela proliferação dos smartphones e das redes sociais. A ideia central é que, à medida que o Japão se torna mais pacífico e interligado, comportamentos vistos como agressivos, perturbadores ou fora da norma passam a ser cada vez mais desencorajados, com a harmonia social e a superfície cuidada a tomarem precedência.

Taniguchi identificou-se com este conceito e aplicou-o ao mundo do anime: “Encaro esta ‘sociedade branca’ como um fenómeno em que todos os japoneses estão, de certa forma, a tornar-se mais parecidos com os habitantes de Quioto. ‘Não façamos nada fora do comum, sejamos sensíveis ao ambiente, evitemos o confronto aberto e respeitemos as pessoas que partilham o mesmo espaço'”.

Esta mudança, segundo o diretor, não ficou à porta dos estúdios. Refletiu-se tanto nos temas e personagens do anime como na forma como as produções são organizadas internamente.

Code Geass Knightmare Survivor visual (1)

O que a “sanitização” faz à criatividade

Taniguchi dividiu a história do anime em oito fases. Na sua leitura, a fase atual, a sétima, é marcada por duas pressões em simultâneo: por um lado, a chegada de níveis sem precedentes de malícia para dentro dos ambientes de produção, associada ao crescimento de comunidades online anónimas como o 2channel; por outro, esta tendência de suavização da expressão criativa imposta pela “sociedade branca”.

Uma das consequências mais concretas passa pelo sistema de produção. A proliferação de séries de um cour (12 a 13 episódios) ajudou a amadurecer o modelo de comité de produção que estrutura a indústria, mas, ao mesmo tempo, fragilizou o modelo tradicional de aprendizagem em que animadores iniciantes aprendiam com os mais experientes. Taniguchi defende que este processo de formação de novos talentos foi praticamente paralisado.

A isto acresce o papel crescente dos autores originais, os criadores das obras de mangá ou light novel que estão na base das adaptações, e dos detentores de direitos sobre as produções. A sua influência crescente dificultou, na perspetiva de Taniguchi, o papel do diretor de anime enquanto figura com uma visão criativa própria.

O resultado é que os produtores tendem a preferir colaboradores fáceis de gerir, capazes de reproduzir o material original a um nível aceitável sem introduzir ideias marcadas. Os criadores mais ambiciosos ficam progressivamente sem trabalho, e acabam por sair da indústria.

Code Geass Lelouch of the Re;surrection vol 5 cover (2)

O isekai como sintoma

Não é por acaso que este panorama coincide com a explosão do narou-kei, o género de histórias isekai popularizado pela plataforma de web novels Shōsetsuka ni Narō. Taniguchi observou que muitos dos protagonistas dessas narrativas espelham precisamente os valores da “sociedade branca”: discretos, não-conflituais, que não perturbam o ambiente.

A leitura encaixa com o que se passa nos bastidores da indústria. A Kadokawa, uma das maiores editoras e produtoras de anime do Japão, admitiu recentemente que dependeu em demasia deste tipo de conteúdo. Os dados financeiros do exercício fiscal de 2026 mostram que a rentabilidade da empresa na área editorial e de propriedade intelectual caiu 51,6% face ao ano anterior, e o próprio plano estratégico para o período 2026–2031 aponta a “dependência excessiva de padrões de sucesso estabelecidos” como uma das causas.

Taniguchi não é o primeiro a levantar este problema. Em março, a propósito da estreia do seu filme original Paris ni Saku Étoile, disse ao Tokyo Shimbun que “se ficarmos apenas com adaptações, a animação japonesa vai acabar”. Na altura, comparou os diretores de adaptações a arranjadores musicais que perderam a capacidade de compor de raiz.

O que vem a seguir e a comparação com as gravuras japonesas

Na aula em Keio, Taniguchi descreveu a oitava fase como a próxima década do anime. O cenário exterior é positivo, a animação japonesa difundiu-se pelo mundo e os públicos e criadores estrangeiros valorizam cada vez mais os clássicos do género. Mas o diretor avisa que esse sucesso global pode ter um custo.

A comparação que usou foi a das ukiyo-e, as gravuras japonesas que, a partir de meados do século XIX, saíram em massa para a Europa, onde influenciaram profundamente os movimentos artísticos da época, incluindo o impressionismo. Um fenómeno cultural irradiou para o exterior e criou algo novo, mas em parte por isso mesmo deixou de ser propriedade exclusiva do seu país de origem.

Se o mercado doméstico continuar a apostar em conteúdo de consumo rápido dirigido ao fã mais casual, Taniguchi teme que o Japão perca vantagem competitiva face à velocidade de produção da China e da Coreia do Sul.

“Enquanto as pessoas forem pessoas, vão sempre precisar de histórias. As histórias alargam a nossa compreensão das pessoas e do mundo, permitem-nos viver emoções e escolhas por procuração, encontrar sentido nos acontecimentos, desfrutar de entusiasmo e suspense, aliviar a solidão, ligar-nos aos outros e transmitir experiências e sabedoria do passado. O anime é capaz de cobrir tudo isso”.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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