
A Organização de Ética e Melhoria de Programas de Radiodifusão do Japão, mais conhecida pela sigla BPO, discutiu recentemente queixas de espetadores sobre um anime de comédia transmitido em horário noturno, no qual a personagem principal aparece constantemente a fumar e surgem cenas que alguns interpretaram como representações de consumo de droga ilegal.
A obra em causa é Yani Neko, conhecida internacionalmente como Chainsmoker Cat, uma série anime centrada numa jovem mulher-gata viciada em tabaco que vive rodeada de um grupo de amigos com problemas semelhantes. O anime passa-se num mundo onde humanos convivem com uma espécie antropomórfica felina, e a personagem principal é retratada praticamente sempre com um cigarro na mão, incapaz de se manter longe do vício mesmo quando tenta parar.
O assunto foi levado à reunião do Comité da Juventude da BPO no dia 28 de julho, depois de a organização ter recebido queixas de vários telespectadores. De acordo com o resumo oficial da reunião, alguns espetadores consideraram que a série repetia excessivamente cenas de tabagismo e incluía momentos que pareciam retratar o consumo de drogas ilegais.
As atas da reunião mostram que os membros da BPO estavam longe de ter uma posição unânime sobre o assunto. Um dos membros do comité defendeu que o horário tardio de transmissão tornava o programa menos acessível a crianças, o que demonstrava que os produtores tinham tido em conta um agendamento adequado. Sobre as cenas mais controversas, o mesmo membro afirmou:
“O programa não afirma explicitamente que estão a ser usadas drogas ilegais, pelo que considero que se enquadra no âmbito aceitável em termos de liberdade de expressão“.
Outro membro colocou a questão de forma diferente, questionando se a reação teria sido a mesma caso se tratasse de uma produção com atores reais em vez de animação:
“E se isto fosse um drama live-action?”
Este membro argumentou ainda que as obras de animação tendem a ter uma influência mais limitada sobre os espetadores mais jovens do que produções live-action, acrescentando:
“Considero que se enquadra no âmbito da liberdade criativa e de expressão“.
Nem todos os presentes partilharam desta leitura mais permissiva. Um outro membro do comité manifestou preocupação com o facto de existirem cenas que se assemelham ao consumo de drogas ilegais, sublinhando que estas deveriam ser evitadas, especialmente devido aos problemas sociais associados aos narcóticos no Japão:
“Quando isto já é um problema social, penso que é melhor não transmitir coisas que possam induzir em erro“.
Referindo-se especificamente a uma cena que envolve uma autoinjeção, este membro acrescentou:
“O que mais poderiam os espetadores razoavelmente pensar que é, além do consumo de metanfetamina?“.
Nenhuma ação anunciada contra o anime
Apesar do debate interno, a BPO não anunciou qualquer medida concreta contra a produção. A discussão centrou-se, sobretudo, em onde deve ser traçada a linha entre a liberdade de expressão artística e o potencial impacto que este tipo de imagens, associadas ao tabaco e a substâncias que se assemelham a drogas, pode ter sobre públicos mais jovens.
Este não é, de todo, o primeiro anime a gerar queixas junto da BPO. Ao longo de quase duas décadas, vários outros títulos já passaram pelo mesmo tipo de escrutínio, entre eles:
- Gundam: Witch From Mercury
- Akiba Maid War
- Hige o Soru. Soshite Joshikousei o Hirou
- Magical Girl Site
- Ishuzoku Reviewers
- Kaifuku Jutsushi no Yarinaoshi
- Goblin Slayer
O caso de Yani Neko junta-se, assim, a uma longa lista de séries que colocam a organização reguladora japonesa perante o mesmo dilema: até que ponto a ficção animada deve ser tratada com as mesmas cautelas que se aplicam à ação real, e onde termina a liberdade criativa quando o tema retratado toca em questões sociais sensíveis.









