InícioAnimeOdeias anime? Estes 10 filmes provam que estavas enganado

Odeias anime? Estes 10 filmes provam que estavas enganado

Durante décadas, o anime foi arrumado na gaveta dos “desenhos animados para crianças”, uma etiqueta injusta que fez com que muita gente decidisse não lhe dar hipótese antes sequer de experimentar.

10
In This Corner of the World

In This Corner of the World ganha mais 30 minutos

Como é que se vive no meio de uma guerra, longe das batalhas e dos grandes momentos históricos que costumam encher os livros escolares? É essa a pergunta que In This Corner of the World tenta responder, ao acompanhar o quotidiano de uma família comum durante um dos períodos mais duros da história do Japão. A protagonista, Suzu, é uma jovem artista talentosa e de bom coração que vê a sua vida ser completamente reformulada pela guerra.

O filme recusa qualquer tipo de discurso grandioso ou heroísmo de fachada. Em vez disso, opta por um retrato quase documental de uma família a tentar sobreviver dia após dia, com as pequenas rotinas domésticas a ganharem um peso emocional que raramente se vê noutras produções sobre o tema. É precisamente essa escolha de manter tudo tão próximo do real que torna o filme tão avassalador.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Suzu continua a desenhar, a cozinhar e a cuidar da casa, um gesto simples que se transforma no verdadeiro coração da história. Não há grandes reviravoltas nem soluções fáceis, apenas a teimosia silenciosa de continuar a viver, que acaba por dizer mais sobre a condição humana do que qualquer discurso explicativo alguma vez conseguiria.

9
Fortune Favors Lady Nikuko

Fortune Favors Lady Nikuko

Nikuko é uma mãe solteira barulhenta, desajeitada e cheia de energia, tudo aquilo que a filha, Kikuko, uma pré-adolescente reservada, gostaria que ela não fosse. É a partir deste desequilíbrio entre as duas que se constrói toda a trama, ambientada numa pequena vila piscatória onde praticamente todos os habitantes parecem conhecer os segredos uns dos outros.

Dirigido por Ayumu Watanabe e produzido pelo Studio 4°C, o filme aposta numa animação que transforma essa povoação costeira num lugar caloroso e vivo, quase como se fosse mais uma personagem da história. A relação entre mãe e filha parece simples à primeira vista, mas revela camadas cada vez mais complexas à medida que o filme avança, culminando num desfecho bem mais pesado do que se poderia esperar de uma comédia dramática deste género.

O que fica depois de ver Fortune Favors Lady Nikuko não é tanto a história em si, mas a forma como retrata a vergonha adolescente de ter um pai ou uma mãe “diferente”, e a lenta aceitação de que essa diferença pode ser, afinal, aquilo que mais se ama nessa pessoa. É um estudo de relações familiares que fica na memória bem depois de terminarem os créditos.

8
Ponyo

Ponyo

Ponyo pega na história de A Pequena Sereia e retira-lhe todo o peso trágico do conto original, transformando-a numa fábula luminosa sobre amizade e transformação. Os filmes do Studio Ghibli costumam funcionar bem mesmo com quem não tem qualquer interesse em anime, e Ponyo é provavelmente o ponto de entrada mais acessível ao estilo de Hayao Miyazaki.

Aqui não há espaço para nenhum dos clichés que costumam afastar quem desconfia do género. A protagonista faz de tudo para ficar junto do rapaz de quem gosta, mas o filme nunca ridiculariza essa determinação nem a transforma em algo exagerado ou caricato. É uma história contada com uma sinceridade que atravessa gerações sem perder força.

O primeiro detalhe que salta à vista é a qualidade visual, tudo foi desenhado à mão, captando o movimento da água e da natureza de uma forma que a animação digital dificilmente consegue replicar. Ponyo acaba por funcionar quase como uma cápsula do tempo, uma lembrança de uma infância vivida com um sentido de espanto genuíno perante o mundo, algo que muitos adultos reconhecem instantaneamente ao assistir.

7
Tokyo Godfathers

Tokyo Godfathers

Ver Tokyo Godfathers é uma experiência que se aproxima bastante mais de um filme live-action do que da imagem que normalmente se associa ao anime, graças ao realismo com que retrata os bairros mais esquecidos de Tóquio. Ao contrário do resto da filmografia mais alucinante e onírica de Satoshi Kon, este filme mantém os pés bem assentes na terra.

A história segue três pessoas sem-abrigo, um homem cínico e alcoólico, uma jovem fugitiva e uma mulher trans profundamente maternal, que encontram um bebé abandonado no lixo na véspera de Natal e decidem, por razões distintas, tentar devolvê-lo à família biológica. É uma premissa simples que se transforma numa jornada cheia de coincidências, revelações e segundas oportunidades.

As três personagens principais são complexas, cheias de falhas e decisões questionáveis, mas também extraordinariamente generosas quando mais importa. O filme não esconde a dureza da vida na rua nem a rejeição social que as personagens enfrentam todos os dias, mas equilibra essa escuridão com doses de humor e esperança genuína, resultando numa das histórias mais reconfortantes de Satoshi Kon.

6
The Garden of Words

The Garden of Words

Com pouco mais de 46 minutos, The Garden of Words prova que não é preciso ação, grandes riscos ou drama excessivo para deixar uma marca duradoura em quem o vê. É um dos trabalhos mais contidos de Makoto Shinkai, e talvez por isso um dos mais eficazes.

A curta-metragem valoriza a realidade acima de tudo, tanto na história de um estudante e de uma professora que se cruzam repetidamente num jardim durante dias de chuva, como na própria animação, que reproduz Tóquio com um nível de detalhe quase fotográfico. O resultado é um dos estilos visuais mais elegantes e realistas já produzidos em animação japonesa.

A curta duração acaba por ser uma vantagem e não uma limitação, tornando este filme perfeito para quem hesita em comprometer-se com horas de episódios antes de decidir se gosta ou não do género. Em muito pouco tempo, Shinkai constrói uma história madura sobre solidão e conexão humana, reforçada pela animação, pelo som e pela forma delicada como retrata um pequeno refúgio verde no meio de uma cidade em constante movimento.

5
Weathering With You

Póster em Portugal de O Tempo Contigo

Os animes de romance têm fama de abusar de triângulos amorosos e relações tóxicas, mas Weathering With You foge conscientemente a essa fórmula. A história combina fantasia com uma dose saudável de romance adolescente, sem nunca perder de vista a realidade dos dois protagonistas, Hina e Hodaka.

Os visuais recriam Tóquio com um nível de realismo que em nada fica atrás de um filme live-action, algo que se tornou uma espécie de marca de água de Makoto Shinkai desde o sucesso de Your Name. Apesar do elemento sobrenatural, o filme nunca trata os poderes de Hina, capaz de controlar o tempo, como se fossem super-poderes de banda desenhada.

Em vez disso, funciona quase como um aviso sobre o que acontece quando os humanos mexem em forças da natureza que já não conseguem controlar. O momento mais marcante é, sem dúvida, a perseguição final, quando Hodaka opta por sacrificar o destino de toda a cidade em nome da jovem que ama, recusando o desfecho fácil que outros filmes do género escolheriam sem hesitar.

4
Ride Your Wave

Ride Your Wave ganha prémio de melhor animação no Festival Internacional de Cinema de Xangai

O retrato do luto em Ride Your Wave ganha uma força particular por se tratar de um filme anime, com a liberdade criativa de trazer o impossível para dentro da história de uma forma que o cinema live-action dificilmente conseguiria replicar. A narrativa arranca com uma estética solarenga e um romance a nascer entre Hinako e Minato.

Esse início quase de conto de fadas desfaz-se quando Minato morre afogado ao tentar salvar outra pessoa, deixando Hinako sozinha com o peso de uma relação que mal teve tempo de florescer. A partir desse momento, o filme deixa de ser sobre o romance e passa a ser sobre a forma como se aprende a viver depois de uma perda.

O processo de luto de Hinako é retratado com uma sensibilidade capaz de comover qualquer pessoa que já tenha perdido alguém importante, sem nunca cair no sentimentalismo fácil. À medida que aprende a deixar o passado para trás sem o esquecer, os temas universais do filme transformam-se numa espécie de lição de vida que ultrapassa facilmente as fronteiras do género de animação.

3
Summer Wars

Summer Wars pode muito bem ser a introdução perfeita ao mundo anime, graças à forma como equilibra tecnologia, laços familiares e uma dose de ação bem doseada, sem nunca deixar nenhum destes elementos sufocar os outros. A história segue uma reunião familiar caótica que se cruza com uma ameaça digital capaz de colocar o mundo inteiro em risco.

O filme é hoje mais relevante do que quando estreou, graças à forma como antecipa debates atuais sobre inteligência artificial e ciberataques, sem nunca esquecer que a tecnologia só é tão boa quanto as pessoas que a utilizam. É uma mensagem simples, mas que Mamoru Hosoda consegue transmitir sem soar moralista.

A história procura, e encontra, o equilíbrio entre o ritmo tranquilo da vida rural japonesa e a velocidade do mundo digital, misturando comédia, drama familiar e ação sem que nada pareça exagerado ou fora de lugar. É essa combinação equilibrada que ajudou a consolidar Hosoda como um dos nomes mais respeitados da animação japonesa contemporânea.

2
Wolf Children

Wolf Children

Quem ainda acha que o anime é um género só para crianças pode ficar surpreendido com a maturidade emocional de Wolf Children. O filme celebra a maternidade através de Hana, mãe solteira de dois filhos híbridos de humano e lobo, Ame e Yuki, numa premissa fantástica usada para explorar temas profundamente terrenos.

Depois da morte inesperada do pai das crianças, Hana vê-se obrigada a mudar-se para o campo, longe de vizinhos curiosos, enfrentando sozinha desafios práticos que qualquer pai ou mãe reconhece: doenças, birras, escola e a dificuldade de criar filhos sem uma rede de apoio por perto. A diferença é que, neste caso, há ainda a complicação extra da natureza dupla das crianças.

À medida que Yuki e Ame crescem, cada um deles tem de decidir a que mundo pertence, o humano ou o selvagem, tomando caminhos opostos que testam a paciência e o amor incondicional de Hana. No centro de tudo está uma mãe que já perdeu o marido e vai lentamente tornando-se uma estranha nos mundos em constante mudança dos filhos, restando-lhe apenas aprender a aceitar as escolhas deles. Wolf Children acaba por ser um filme agridoce que celebra a resiliência das mães e a importância da comunidade, tanto quanto o inevitável afastamento entre pais e filhos.

1
The Colors Within

The Colors Within anime visual 2

The Colors Within conta a história de Totsuko, uma jovem que consegue ver as emoções das pessoas através de cores, e usa esse conceito visualmente rico para construir uma narrativa de amadurecimento genuinamente original. Dirigido por Naoko Yamada e animado pelo estúdio Science Saru, o filme estreou em 2024 e rapidamente se tornou um dos títulos mais elogiados da temporada.

Enquanto Totsuko navega pela vida escolar, pelas amizades e pelos segredos das duas colegas que a rodeiam, o filme capta a personalidade de cada personagem através de tons vibrantes que tornam a experiência visual particularmente marcante e reconhecível. É uma forma pouco convencional de contar uma história de crescimento pessoal, mas que resulta de forma quase natural.

Em vez de apostar em cenas de ação dramáticas ou em fan service dispensável, Yamada opta por mostrar uma jornada de autodescoberta discreta e sincera. A música acaba por ser outro dos pontos fortes do filme, já que Totsuko forma uma banda de rock com um grupo heterogéneo de colegas, um processo que ajuda as três personagens a atravessar, juntas, os anos mais complicados da adolescência.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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