
Quem ficou órfão de The Expanse tem finalmente um motivo sério para voltar a ter esperança na ficção científica de qualidade. A Prime Video está a preparar The Captive’s War, uma nova série assinada pela mesma equipa criativa que deu vida a uma das produções sci-fi mais aclamadas da última década, e que promete continuar a apostar em histórias densas, políticas e pensadas para um público que gosta de prestar atenção aos detalhes.
A mesma equipa, um universo completamente novo
The Captive’s War baseia-se numa trilogia de livros escrita por Daniel Abraham e Ty Franck, a dupla que assina em conjunto sob o pseudónimo James S. A. Corey, precisamente os mesmos autores por trás dos romances que deram origem a The Expanse. À adaptação junta-se também Naren Shankar, showrunner da série original, e Breck Eisner, que assumiu a realização em várias temporadas de The Expanse.
Ao contrário do que seria de esperar, esta não é uma sequela nem um spin-off. Trata-se de um universo completamente separado, sem qualquer ligação directa ao sistema solar de The Expanse. A história arranca com o romance The Mercy of Gods, publicado em 2024 e rapidamente incluído na lista de mais vendidos do New York Times, e segue um grupo de humanos residentes no planeta Anjiin depois de este ser conquistado por um império alienígena conhecido como Carryx. Os sobreviventes só continuam vivos enquanto forem considerados úteis aos seus novos dominadores, o que rapidamente estabelece o tom político e moralmente desconfortável da saga.
Segundo avança a CBR, a própria dupla de autores já explicou que a inspiração para esta história vem do Livro de Daniel, no Antigo Testamento, e do relato apocalíptico sobre o profeta enquanto cativo na Babilónia. Ty Franck chegou mesmo a descrever a ideia como uma reinterpretação desse episódio bíblico transposta para um cenário de ficção científica.
Foi para desenvolver este e outros projectos que Shankar, Eisner, Franck e Abraham fundaram em conjunto uma nova produtora chamada Expanding Universe. Na altura do anúncio, Eisner explicou assim o propósito da empresa:
“A Expanding Universe está focada em desenvolver narrativas de ficção científica com uma construção de mundo abrangente e histórias elevadas, orientadas para expressões multiplataforma em entretenimento filmado, jogos e publicação“.
Menos episódios para adaptar pode ser uma vantagem
Um dos maiores obstáculos enfrentados por The Expanse foi precisamente a quantidade de material disponível. A série original tinha nove romances e nove novellas para adaptar, e acabou cancelada antes de conseguir chegar ao fim dessa extensa bibliografia, deixando ainda três livros por transpor para o ecrã. The Captive’s War parte de uma posição bem diferente, a saga está planeada como uma trilogia, acompanhada de algumas novellas e contos curtos, o que representa uma quantidade de conteúdo substancialmente menor.
Essa diferença pode, na prática, jogar a favor da nova série. Uma quantidade de material mais controlada aumenta as hipóteses de a adaptação conseguir chegar a um final satisfatório, sem correr o risco de ficar interrompida a meio da história, como aconteceu com o universo de The Expanse.
Vale ainda a pena notar que a bibliografia continua a crescer em paralelo ao desenvolvimento da série. O segundo romance da saga, The Faith of Beasts, chegou às livrarias a 14 de abril deste ano, e os próprios autores já confirmaram, durante uma sessão de perguntas e respostas no Reddit, que uma segunda novella deverá ser publicada ainda este ano.
Uma aposta em ficção científica mais exigente
Grande parte do panorama actual de ficção científica continua dominado por espetáculo visual e grandes franquias como Star Wars ou o MCU. Ao apostar numa história com uma construção de mundo tão densa e uma narrativa fortemente serializada, a Prime Video parece querer seguir um caminho diferente, mais próximo daquilo que já tinha feito funcionar com The Expanse.
Foi precisamente essa complexidade, aliada a personagens bem construídas, que manteve o público fiel a The Expanse ao longo de seis temporadas, apesar de vários cancelamentos pelo caminho. Se The Captive’s War conseguir repetir esse equilíbrio entre ambição narrativa e qualidade de produção, poderá ajudar a demonstrar a outras plataformas que ainda existe espaço para ficção científica mais reflexiva e menos dependente de espetáculo constante.









