
Três anos depois de ter conquistado jogadores de PC e consolas, Dave the Diver chegou finalmente ao Android. O jogo da Mintrocket passou a estar disponível na Google Play, trazendo consigo o mesmo cocktail improvável que o tornou num dos videojogos independentes mais bem-sucedidos dos últimos anos: mergulho, pesca, combate contra criaturas marinhas, gestão de um restaurante de sushi e uma boa dose de humor. A questão que interessa a quem lê isto no telemóvel é simples, a experiência resiste ao salto para o ecrã tátil, ou fica a dever-se apenas à nostalgia de quem já o jogou noutro lado?

O que é Dave the Diver?
Para quem nunca jogou, Dave the Diver segue um mergulhador gordinho e despreocupado que é convencido pelo amigo Cobra, um ex-traficante de armas reconvertido a empresário, a abrir um restaurante de sushi junto ao misterioso Blue Hole. Durante o dia, Dave mergulha nas águas em constante mutação desta fossa marinha, apanha peixe, recolhe recursos e enfrenta criaturas cada vez mais perigosas. À noite, veste o avental e ajuda o chefe Bancho a servir os pratos preparados com o que foi pescado horas antes.
É este ciclo, mergulhar de dia e servir sushi à noite, que sustenta praticamente tudo o resto, o dinheiro ganho no restaurante financia armas e equipamento novo para mergulhar mais fundo, e cada mergulho traz ingredientes mais raros para enriquecer o menu. A fórmula funciona porque nenhuma das duas metades se limita a preencher tempo até à outra. A parte de exploração tem um ligeiro toque roguelite, já que perder o equipamento antes de regressar à superfície tem custos reais, enquanto a gestão do restaurante cresce em complexidade à medida que se contratam funcionários, se desbloqueiam receitas e se sobe de categoria. A narrativa, recheada de piadas e referências, vai encaixando arqueologia, uma civilização perdida e um elenco de personagens caricatos sem nunca se tornar pesada.

Jogabilidade: uma fórmula que continua a funcionar
A jogabilidade de Dave the Diver mantém-se praticamente intacta na versão Android. O Blue Hole continua a reconfigurar-se a cada visita, obrigando a repensar rotas, gerir o nível de oxigénio e decidir se vale a pena arriscar mais alguns metros de profundidade por um peixe raro. O combate é simples mas eficaz, com um arpão inicial que dá lugar a armas mais elaboradas à medida que se avança na história, e os confrontos contra criaturas de maiores dimensões continuam a ser dos momentos mais memoráveis do jogo.
Do lado do restaurante, a gestão mantém a mesma sensação de correria controlada, definir o menu consoante os ingredientes disponíveis, colocar funcionários nas estações certas e servir os clientes a tempo de garantir boas avaliações. A progressão de personagem, através de upgrades de equipamento, novas receitas e melhorias no restaurante, dá sempre um motivo para voltar a mergulhar. Há ainda uma quantidade generosa de minijogos e missões secundárias, desde competições de culinária a pequenos enigmas relacionados com a história.

Pode parecer um ciclo de jogo repetitivo, mas o jogo introduz novidades com regularidade suficiente, novas zonas, novos pratos, novas mecânicas, para manter o interesse durante uma boa parte da campanha.
A campanha base de Dave the Diver ronda as vinte e cinco horas para quem segue apenas a história principal, podendo passar as cinquenta para quem quiser completar tudo, incluindo todas as receitas, peixes e melhorias.

A adaptação para Android
Esta é a parte da análise que mais interessa a quem já conhece o jogo noutras plataformas, a jogabilidade de Dave the Diver foi realmente bem adaptada ao toque?
A resposta é, de um modo geral, positiva, mas com nuances importantes. A Mintrocket optou por disposições de controlos tácteis ajustáveis, permitindo reposicionar os botões virtuais consoante o tamanho da mão ou a preferência de cada jogador.

A secção de mergulho, mais orientada para movimento e mira, adapta-se bem ao ecrã tátil, o joystick virtual responde com precisão suficiente para a maior parte das situações, e os botões de ataque ficam bem posicionados para uso com o polegar. Já a gestão do restaurante é onde a experiência mostra mais dificuldades. Os menus sobrepõem-se por vezes à ação, e servir os pratos introduz algum atrito. Não é um problema que impeça a diversão, mas é sentido sobretudo nos momentos de maior azáfama no restaurante.
Em ecrãs pequenos, a interface mantém-se legível, ainda que os elementos de texto mais pequenos beneficiem de um ecrã de pelo menos seis polegadas.

Gráficos e apresentação no telemóvel
Dave the Diver mistura pixel art nas personagens e nos elementos de interface com cenários e efeitos em 3D, uma combinação que já funcionava bem em ecrãs grandes e que se mantém coerente no telemóvel. A escala dos sprites foi pensada para não perder nitidez em resoluções mais baixas, e as animações subaquáticas, o balancear de algas, os cardumes, a luz a filtrar-se pela água, continuam a transmitir uma sensação de profundidade que poucos jogos mobile conseguem igualar.
O estilo retro do pixel art acaba por ser uma vantagem clara nesta adaptação, por não depender de texturas de altíssima definição, o jogo evita muitos dos problemas de nitidez que afetam outros ports de PC para telemóvel. Mesmo assim, há alguma perda de detalhe nos elementos de interface mais pequenos, como certos ícones do menu do restaurante, que exigem alguma atenção redobrada em ecrãs de dimensões mais reduzidas.
A versão Android de Dave the Diver foi construída para correr a 60 imagens por segundo em dispositivos capazes de o suportar, o que é notável tratando-se de um jogo com tantos elementos em ecrã durante os mergulhos mais movimentados. Claro está que também podem escolher a opção para o jogo correr com uma taxa de FPS baixa.

Testamos o jogo num S26 Ultra e não registamos qualquer tipo de problema na execução do jogo. O consumo de bateria acompanha a exigência gráfica, sendo superior ao de um jogo mobile típico, mas dentro do que seria de esperar para um título deste calibre técnico.
A componente sonora mantém o mesmo cuidado das restantes versões, uma banda sonora relaxante durante os mergulhos, que sobe de intensidade nos confrontos com criaturas maiores, e efeitos sonoros bem trabalhados no ambiente subaquático, das bolhas de ar ao som abafado da água. No restaurante, os efeitos de cozinha e o ambiente de fundo ajudam a transmitir a sensação de correria própria de uma noite de serviço. No telemóvel, a experiência sonora depende naturalmente da qualidade do altifalante ou dos auscultadores utilizados, mas a mistura de áudio em si mantém-se fiel ao que já se conhecia.

Vale a pena jogar Dave the Diver no Android?
A resposta curta é sim, com algumas ressalvas que dependem do perfil de quem pergunta. Para quem nunca jogou Dave the Diver, esta é uma forma acessível e barata de conhecer um dos títulos independentes mais celebrados dos últimos anos, com uma adaptação de controlos que, no essencial, cumpre bem o que se propõe. Para quem já conhece o jogo no PC ou nas consolas, a versão Android funciona sobretudo como uma forma prática de continuar a explorar o Blue Hole fora de casa, embora a gestão do restaurante perde alguma fluidez sem um comando físico.
Para quem procura um bom jogo premium para telemóvel, sem anúncios e sem microtransações, Dave the Diver destaca-se claramente. Já quem joga sobretudo em sessões muito curtas, ou dá grande prioridade à fluidez absoluta da interface do restaurante, poderá sentir mais o peso das limitações próprias de qualquer adaptação ao toque. Ainda assim, o equilíbrio geral pende claramente para o lado positivo, esta é uma das adaptações mobile mais cuidadas que temos visto recentemente, e um exemplo de como um jogo pensado originalmente para comando pode chegar ao Android sem perder aquilo que o tornou especial.











