Poucas séries recentes tiveram o impacto de Demon Slayer. A animação do estúdio Ufotable elevou o padrão visual do anime, e o primeiro filme voltou a arrastar multidões às salas de cinema em todo o mundo. Ainda assim, quando a conversa passa da animação para a construção do universo, existes séries anime que fazem muito mais com muito menos.
5Witch Hat Atelier
A magia de Witch Hat Atelier assenta num princípio simples e belo: qualquer pessoa pode lançar feitiços, desde que saiba desenhar os símbolos certos com uma tinta especial. O que torna o sistema tão interessante é aquilo que a sociedade fez com essa possibilidade. Para manter a ordem, as bruxas guardam o segredo para si e apagam a memória de qualquer pessoa comum que testemunhe um círculo mágico a ser traçado.
Isto transforma a magia num tema de poder, desigualdade e controlo da informação. A própria protagonista, Coco, nasce numa aldeia sem acesso a este conhecimento, e é essa exclusão que dá peso emocional à sua entrada no mundo das bruxas. Cada feitiço aprendido é também uma lição sobre responsabilidade, porque existem magias proibidas que interferem com a ordem natural das coisas, incluindo a vida e a morte.
Adaptada do mangá de Kamome Shirahama pelo estúdio BUG FILMS, a série estreou em abril de 2026 na Crunchyroll, com direção de Ayumu Watanabe. O resultado é um sistema em que desenhar bem é tão importante como ter coragem, e em que as regras servem para criar dilemas, e não apenas para justificar lutas.
4Jujutsu Kaisen
Em Jujutsu Kaisen, a energia amaldiçoada nasce das emoções negativas das pessoas, como o medo, a raiva, o ódio ou a inveja. Esta origem tem uma consequência importante: o mundo da série está constantemente a produzir as ameaças que depois precisa de combater. Os poderes não surgem do nada, são o reflexo do lado mais sombrio da humanidade.
A complexidade técnica também ajuda. Cada feiticeiro tem uma técnica própria, existem conceitos como a Expansão de Domínio e os juramentos vinculativos, em que se abdica de algo para ganhar mais força, e quase todas as habilidades têm custos ou limites. Os combates ganham por isso uma dimensão estratégica, em que perceber as regras do adversário é tão decisivo como a força bruta.
A série anime regressou em janeiro de 2026 com a terceira temporada, dedicada ao arco Culling Game. Nesta fase, o sistema de poderes ocupa um lugar ainda mais central, porque é a própria base do jogo mortal em que as personagens são obrigadas a participar.
3My Hero Academia
My Hero Academia faz uma aposta diferente, em vez de duas categorias de poderes, tem apenas uma, os Quirks, mas explora-a com uma imaginação invulgar. Nesta realidade, cerca de oitenta por cento da população nasce com uma habilidade, e esta pode ser praticamente qualquer coisa, desde controlar o fogo até anular os poderes de outra pessoa.
Essa liberdade criativa é a grande vantagem do sistema. Habilidades como o Erasure de Aizawa, o Double de Twice ou o Hellflame de Endeavor obrigam as personagens a pensar de forma diferente em cada confronto. Enquanto em Demon Slayer a maior parte das lutas se resolve com espadas, aqui um combate pode ser uma corrida contra o tempo, um jogo de estratégia ou um duelo de resistência.
Os Quirks também moldam a sociedade, a profissão de herói e até as relações entre as personagens. A obra de Kohei Horikoshi, cuja temporada final estreou em outubro de 2025 pelo estúdio Bones, mostra que um sistema de poderes pode ser, ao mesmo tempo, uma ferramenta de ação e uma forma de falar sobre talento, esforço e desigualdade.
2Fullmetal Alchemist: Brotherhood
A alquimia de Fullmetal Alchemist: Brotherhood funciona como uma ciência com regras próprias, algo raro num anime de fantasia. Tudo se baseia na lei da troca equivalente, segundo a qual não é possível obter algo sem dar algo de valor equivalente em troca. Não há soluções milagrosas nem poderes que surgem no momento certo para salvar a situação.
Esta rigidez é uma vantagem. Como as regras são claras, o espectador percebe porque é que uma estratégia resulta e outra falha, e as batalhas passam a ser vencidas através da inteligência e da criatividade. Heróis e vilões estão sujeitos aos mesmos limites, o que torna o equilíbrio de forças muito mais credível.
A série vai ainda mais longe ao ligar a alquimia ao tema central da história. A tentativa dos irmãos Elric de ressuscitar a mãe e as suas consequências mostram que cada transmutação tem um preço, e o sistema de poderes acaba por ser a origem do drama, e não apenas uma ferramenta narrativa. Esta adaptação do mangá de Hiromu Arakawa, produzida pelo estúdio Bones, continua a ser uma das referências do género.
1One Piece
Tal como Demon Slayer, One Piece tem um sistema duplo, formado pelas Akuma no Mi, conhecidas como Frutas do Diabo, e pelo Haki. A diferença está no cuidado com que Eiichiro Oda estabeleceu limites a ambos, o que permite equilibrar combates entre personagens de níveis muito distintos.
As Frutas do Diabo concedem habilidades extraordinárias, mas têm custos pesados. Quem as come perde a capacidade de nadar e fica vulnerável à água do mar, e cada pessoa só pode ter uma. Isto evita que as personagens se tornem omnipotentes e obriga os autores a pensar em como superar fraquezas, em vez de simplesmente aumentar a força dos protagonistas.
O Haki completa o sistema com uma lógica diferente, ligada à força de vontade. Todos os seres vivos o possuem, mas poucos o desenvolvem, e o treino exigente e o desgaste físico e mental que provoca fazem dele um recurso valioso. A série, produzida pela Toei Animation, mostra assim que um sistema de poderes se constrói com limites claros e que estes são tão importantes como as próprias habilidades.









