No meio de tantos soulslike, é sempre interessante encontrar um jogo que desperte a nossa curiosidade com ideias diferentes. Foi isso que aconteceu com Valor Mortis, o novo jogo da One More Level, o estúdio responsável por Ghostrunner, que procura destacar-se ao juntar as mecânicas características do género a uma perspetiva na primeira pessoa, algo pouco habitual neste tipo de experiência.

Europa do século XIX marcada pela guerra
A história de Valor Mortis tem um ponto de partida curioso, em particular pela maneira como mistura as guerras napoleónicas com elementos sobrenaturais. Numa Europa alternativa instala-se uma praga que consumiu tudo à sua volta, transformando os soldados em mortos-vivos e monstros deformados. A aventura começa quando William Dowsett (James Alexander), um soldado francês do exército de Napoleão, acorda num campo de batalha rodeado de cadáveres e praticamente sem memórias. A partir daí, o nosso protagonista parte à procura de respostas para os mistérios que envolvem a sua própria ressurreição e a origem da praga, enquanto é constantemente assombrado pelas palavras do soberano Napoleão Bonaparte.
Jennifer English, a famosa Maelle de Clair Obscur: Expedition 33, dá voz a uma das personagens deste jogo.
À semelhança de inúmeros soulslike, o enredo alimenta-se do que o mundo tem para contar através dos cenários e dos pormenores que vamos descobrindo na exploração. Ainda assim, vai um pouco mais longe e deixa-nos conhecer melhor este mundo através de missões secundárias e das personagens que encontramos pelo caminho.
Achei particularmente curiosa a forma como a narrativa aborda determinados temas, mesmo estando envolta num ambiente sobrenatural. Um bom exemplo é a história das crianças órfãs conhecidas como Mice, que procuram alguém em quem voltar a confiar depois de perderem as suas casas devido às ações do imperador. É um enredo que não se fica apenas pela ação, existem histórias de sobrevivência, sofrimento e perda que ajudam a construir este mundo e a sentirmo-nos mais imersos nele.

Uma perspectiva diferente que não deixa de ser Soulslike
Uma das coisas que chama de imediato à atenção é o facto de se jogar na primeira pessoa, com as espadas a ficarem com o protagonismo no combate, sobretudo através dos parries, uma mecânica vital para sobreviver aos confrontos. O mais surpreendente é que, apesar de o sistema não reinventar a roda, o estúdio conseguiu que funcionasse muito bem e que fosse recompensador. Esta perspetiva torna os combates mais intensos e pessoais, fazendo-nos gerir a stamina e a ler depressa os movimentos dos inimigos, para antecipar os ataques e escolher o momento certo. É uma dinâmica que, como sempre, pede paciência e nos obriga a esperar pela oportunidade certa para contra-atacar.
O sistema tem as habituais indicações visuais que nos ajudam a perceber quando fazer um parry ou uma esquiva. Ainda assim, com os inimigos mais imprevisíveis, estamos sempre a analisar e a adaptar a nossa abordagem, porque o que resulta contra uns pode ser pouco eficaz contra outros. A perspetiva na primeira pessoa também beneficia outro elemento, os pontos fracos dos inimigos. Mais à frente temos acesso a um florete, que permite estocadas mais rápidas e torna essencial apontaramos com precisão. O mesmo acontece com as armas de fogo e os poderes sobrenaturais, que trazem uma dinâmica próxima de Dishonored ou Bioshock e que, em conjunto com as armas de corpo a corpo, dão ao combate uma variedade e ritmo muito interessantes.

Níveis quase sempre lineares, mas com surpresas
Quanto ao level design, a sua estrutura é relativamente tradicional para um soulslike. A aventura está dividida em capítulos e, na maior parte do tempo, seguimos por percursos lineares. Isso não é necessariamente mau, até porque aqui o que brilha é a forma como os belos ambientes foram construídos e como os inimigos e as armadilhas foram posicionados para nos apanhar de surpresa. Basta relaxarmos por um instante para perdermos grande parte da vida, mas também há situações em que devemos usar o cenário a nosso favor. Por exemplo, dá para disparar contra barris de pólvora e provocar uma grande explosão, ou atropelar inimigos com uma carroça.
É importante investir na melhoria dos frascos de cura, para aumentarem a quantidade de vida que recuperam como o número de utilizações disponíveis.
A construção dos cenários foi das coisas que me agradou bastante, pela forma como o jogo incentiva a exploração e a torna parte da experiência. Embora a progressão seja quase sempre andar por “corredores”, há caminhos alternativos, passagens escondidas e zonas secundárias com recursos importantes para melhorar as habilidades e o arsenal.
O parkour de Ghostrunner está bem presente neste título, com a One More Level a apostar com animo na verticalidade. As habilidades que vamos adquirindo servem para alcançar locais mais altos e atravessar zonas que antes estavam fora do nosso alcance. Ainda podemos aproveitar esta vertente para surpreender os inimigos com ataques a partir de posições elevadas, ou eliminá-los pelas costas para reduzir o seu número antes de avançarmos.
A variedade de inimigos é outro factor que torna o combate mais sólido e dinâmico. Os soldados franceses mais comuns não são propriamente ameaças, mas depressa aparecem inimigos bem mais perigosos, com padrões de ataque difíceis de memorizar à primeira. Há soldados com espadas, outros com armas de fogo, criaturas que não param de lançar bombas à distância e até soldados deformados, com espadas enormes e ataques rápidos que acertam de longe, por aí fora.

Entre o equilíbrio e a frustração
Num jogo deste género, a dificuldade é algo que muitos de nós levam a sério, e Valor Mortis foi, para mim, uma mistura de equilíbrio e frustração. Há inimigos com movimentos fáceis de ler, que derrotamos sem grande esforço, mas outros tornam-se bastante insistentes e difíceis de eliminar. Não considero o desafio desadequado, mas houve momentos demasiado frustrantes, principalmente por causa dos picos de dificuldade que surgem quando menos esperamos.
Um exemplo são as zonas mais apertadas, onde podemos ver-nos rodeados por vários inimigos, sem grande margem para reagir. Além disso, há situações em que os próprios cenários nos deixam presos em arbustos ou até em paredes invisíveis. Os combates contra bosses, que foram por norma bons momentos, também podem ser uma verdadeira dor de cabeça, com a noção de que morrer é a única certeza, mas é assim que aprendemos os padrões de ataque e nos habituamos aos movimentos. E, como jogamos na primeira pessoa, nem sempre é simples acompanhar as animações dos inimigos, por isso a paciência é a nossa melhor aliada se quiserem aproveitar o melhor desta experiência.

Belo e decadente
Parte dos elogios vai para a aparência do jogo, que tem tanto de belo como de macabro. Os cenários são variados e apelativos, mas foi a forma como o jogo constrói o ambiente sombrio que mais me deixou de olhos colados ao ecrã. A Europa que percorremos transmite uma sensação constante de hostilidade e decadência, com cenários lúgubres que reforçam a ideia de um mundo consumido pela guerra e pela praga, o que torna a exploração mais envolvente. Nem todas as texturas têm a mesma qualidade, e há elementos mais detalhados do que outros, mas, no geral, gostei imenso do que vi na versão da PlayStation 5.
Quanto ao desempenho, tive pequenos soluços e quebras de FPS durante a exploração de certos cenários. Foram situações pontuais e não comprometeram a minha experiência.
No som, temos músicas mais atmosféricas e há ainda espaço para o silêncio, que resulta bem no ambiente sombrio do jogo. No voice acting, os atores dão um charme especial às personagens e transmitem as emoções com credibilidade, o que torna os diálogos mais interessantes de acompanhar.
Conclusão
Com Valor Mortis, o género soulslike ganha mais um bom jogo. A One More Level criou uma experiência interessante que, aproveitando o que aprendeu com Ghostrunner, traz alguma originalidade a uma fórmula que nem sempre é fácil de reinventar. O combate é como deve ser, metódico, desafiante e, no fim, recompensador. A ambientação hostil e sombria é outra das suas qualidades, acompanhada por uma arte que dá personalidade ao jogo e torna a exploração particularmente agradável. Apesar dos picos de dificuldade e dos problemas de desempenho e bugs na PlayStation 5, Valor Mortis merece ser descoberto, principalmente por jogadores mais experientes, que vão encontrar um desafio à altura das suas capacidades.










