Desde os primeiros trailers, Stupid Never Dies despertou a minha atenção. Havia qualquer coisa naquela mistura de ação frenética, criaturas sobrenaturais e humor exagerado que me deixou de olho no projeto. Quando descobri que a GPTRACK50 reunia vários veteranos da Capcom, incluindo Hiroyuki Kobayashi, a minha curiosidade aumentou ainda mais e comecei a acompanhar os desenvolvimentos de perto. Agora, que tive oportunidade de o experimentar, há uma forma simples de descrever o que encontrei, imaginem se Suda51 e Hades tivessem um filho… O resultado seria, muito provavelmente, algo muito próximo de Stupid Never Dies.

Uma comédia absurda que não deve ser levada a sério

A premissa anda em torno de Davy, um morto-vivo tímido que se apaixona por uma bela mulher (congelada). Mas, antes de prosseguir, convém notar que o nosso rapaz faz parte da hierarquia mais baixa das criaturas. Por isso, durante uma guerra entre humanos e monstros, refugiou-se cobardemente num centro comercial, onde encontrou o que lhe mudou a vida (pós-morte) por completo.

Num mundo onde a humanidade foi quase extinta pelo KOM (Rei dos Monstros), o nosso herói devora o “ovo” de uma fénix, o que lhe confere capacidades fora do comum. Mais tarde, através do Dr. Frank, descobre que, para salvar a amada, terá de o enfrentar e consumir para absorver a inteligência humana e, em simultâneo, ajudar a reerguer a sociedade.

À medida que avançamos pelas masmorras, vamos descobrindo mais pormenores sobre o quotidiano da jovem antes de ficar congelada.

Esta é a base de Stupid Never Dies, um RPG de ação Roguelite produzido pela GPTRACK50 que consegue misturar o fantástico com o ridículo e humor descomprometido de forma muito interessante. As situações hilariantes estão presentes em quase tudo, lembrando as obras de Suda51, com o absurdo e o exagero a manifestarem-se de várias formas. Por exemplo, quando precisamos de nos deslocar pelo centro comercial a uma velocidade superior à de um zombie, recorremos a um robô-aspirador, já quando saímos das masmorras, somos transportados na mota de uma zombie motard. O humor estende-se igualmente às personagens, temos uma gárgula que se esquece de tudo e que gere uma base de dados, um lobisomem da tribo dos Chihuahuas que modifica o nosso corpo com tecnologia avançada, uma cozinheira que fornece receitas úteis e um cientista meio-humano, meio-cyborg, que dá sempre uma ajuda durante a missão.

É um enredo que apreciei tendo sempre em mente que não deve ser levado a sério, servindo antes para descontrair e abraçar o humor nonsense de cada cena.

Um zombie com muitos trunfos na manga

Onde passamos a maior parte do tempo em Stupid Never Dies é dentro das suas masmorras. A estrutura segue os moldes tradicionais dos roguelikes, levando-nos a atravessar diferentes camadas repletas de monstros e bosses enquanto cumprimos os objetivos. A ideia passa por avançar o máximo possível, mas sempre com os olhos postos no relógio, se o tempo esgotar, o protagonista enfraquece e acaba por morrer, perdendo tudo o que conquistou. Independentemente disso, ou caso a jornada termine, regressamos ao hub (o centro comercial), onde investimos os recursos recolhidos em melhorias para a partida seguinte.

A progressão torna este ciclo cativante. Sempre que voltamos às masmorras, acumulamos experiência mais depressa, o que significa que passamos cada vez menos tempo na pele de um zombie debilitado. Gradualmente, ganhamos força, desbloqueamos novas possibilidades e avançamos por andares que, ao princípio, pareciam mais complicados. É um sistema que recompensa a persistência e torna cada partida mais acessível e gratificante do que a anterior.

Durante a exploração, o combate assume-se como um dos pilares da experiência, contando com várias mecânicas que se complementam e trazem uma enorme liberdade. Davy está longe de ser um guerreiro no mundo dos humanos, mas, dentro das masmorras, liberta-se das amarras da sua espécie. Cada subida de nível aumenta as suas capacidades, refletindo-se na força, na defesa e na velocidade de movimento. Nas lutas, podemos recorrer a ataques normais combinados com habilidades desbloqueadas como um vómito ácido. No entanto, a sua principal arma continua a ser a premissa de um bom zombie: morder e comer. Graças ao ovo da fénix que devorou, consegue absorver os poderes de outras criaturas.

O melhor de tudo é que, ao consumirmos uma espécie de elite, podemos transformar-nos nelas, trazendo uma dinâmica fantástica para o combate. Praticamente conseguimos gerir duas formas em simultâneo e alternar livremente entre elas, incluindo a forma zombie de Davy. Cada criatura oferece estilos de combate, ataques e habilidades únicas, abrindo espaço para testar combinações e encontrar soluções para os desafios.

A possibilidade de misturar estes poderes torna os confrontos muito mais ricos, sobretudo quando percebemos a sinergia entre certas habilidades. Pessoalmente, adorei a forma de Lobisomem, que nos torna mais velozes e fortes fisicamente, facilitando o combate contra grupos de inimigos. Já a Harpia permite voar mais alto e atacar à distância, embora seja mais frágil e lenta.

Temos também a Fada das Neves, capaz de congelar os inimigos e absorver os respectivos poderes elementais. No total, são 10 transformações, cada uma com diferenças suficientes para manter a jogabilidade fresca. Será perfeitamente normal adaptarem-se melhor a umas do que a outras, mas todas foram desenhadas para servir contextos específicos, tanto em combate como na exploração.

O jogo introduz ainda o Stupid Parry, o Stupid Impact e uma vertente avançada da mordida. De forma simples, o Stupid Parry funciona como uma esquiva que não evita totalmente o dano, contudo, se executado no timing perfeito, reduz consideravelmente o impacto e deixa o dano parcialmente recuperável através de dentadas nos inimigos. Contra certas criaturas que utilizam os seus Heat Attacks (indicados por uma aura amarela), um Stupid Parry certeiro desencadeia um Stupid Impact, deixando o adversário vulnerável a um contra-ataque que retira maior parte da barra de vida.

Ocasionalmente, a câmara e a ausência de um sistema de lock-on tornam certas esquivas mais complicadas, especialmente contra inimigos voadores. Deu-me por vezes uma certa frustração cair em buracos nos cenários e perder uma quantidade absurda de vida somente por isso. É verdade que, ao fim de umas horas, nos habituamos aos padrões e evitamos essas complicações, mas seria excelente que a produtora afinasse estes detalhes em futuras atualizações.

Outro ponto forte é a variedade de criaturas nas masmorras, o que evita que cada mergulho por estes mundos com temáticas diferentes se torne demasiado repetitivo. Temos esqueletos, harpias, lobisomens, lagartos e muito mais, cada um com comportamentos muito próprios. No entanto, a melhor parte sente-se nos bosses, que para além de serem criativos, proporcionam os melhores confrontos em Stupid Never Dies.

Apesar do ciclo ser sempre o mesmo, as masmorras recorrem a alguma aleatoriedade, especialmente através das melhorias de habilidades que vamos recebendo à medida que Davy sobe de nível. Estes chamados recibos, podem alterar um pouco a maneira como cada partida se desenvolve, obrigando-nos a pensar em novas estratégias. A isto junta-se a opção de arriscar e descer a andares mais fundos, a dificuldade dispara, mas as recompensas compensam o risco. E claro, há mais surpresas, mas prefiro evitar spoilers.

O estilo também faz parte da loucura

Visualmente, temos um título artisticamente criativo. A estética e a interface transmitem um carisma brutal, inspirando-se nos visuais dos anos 2000 e com toda a certeza nas obras de Suda51. O design das personagens e das criaturas sobrenaturais, com cores vibrantes e aspetos extravagantes, destacam-se muito pela positiva. No que toca ao desempenho, a versão para a PlayStation 5 corre de forma exemplar.

A banda sonora conta com composições de Rei Kondoh, Yuta Yamaguchi, Haruno Ito e Varon Chase Bantug, entre outros, reunindo ao todo 80 faixas e mais de três horas de música.

A banda sonora acompanha na perfeição o humor e a identidade visual do jogo, parecendo saída diretamente de filmes como American Pie, com músicas punk-pop e punk rock que elevam a energia rebelde do jogo. Desta vez, decidi arriscar nas vozes em inglês e, surpresa das surpresas, aderi por completo! As interpretações conseguem transmitir a personalidade e o sentido de humor de cada personagem, tornando os diálogos ainda mais divertidos.

Conclusão

Para um primeiro jogo, Stupid Never Dies mostra que a GPTRACK50 está claramente no caminho certo. É verdade que não revoluciona a jogabilidade e que ainda tem algumas arestas por acertar, mas é preciso reconhecer a coragem de apostar numa identidade visual genuinamente original e arrojada. A narrativa, com o seu tom exagerado e bem-humorado, acaba por conquistar, encontrando um bom complemento no sistema de combate, onde as transformações e os confrontos contra os bosses se destacam. No fim de contas, é uma experiência que tenho gostado de acompanhar e que me deixa curioso para descobrir o que o estúdio será capaz de fazer no futuro.

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente