
Aos 84 anos, Yoshiyuki Tomino não modera o discurso. O criador de Mobile Suit Gundam concedeu uma entrevista à revista japonesa Animage na qual revelou uma frustração que vem acumulando há décadas, a mensagem pacifista da sua obra nunca chegou verdadeiramente a muitos dos seus fãs.
A questão foi destacada pelo investigador literário japonês Kajipon Marco Zangetsu no X, que chamou a atenção para as declarações do diretor. Tomino cresceu com a memória de bombas incendiárias a caírem perto da sua cidade natal durante a Segunda Guerra Mundial, uma experiência que moldou profundamente a sua visão criativa. Quando concebeu a série original, a chamada Guerra de Um Ano foi conscientemente inspirada na Guerra Civil Americana, com todos os horrores que isso implica. A ideia nunca foi fazer de Mobile Suit Gundam um espetáculo de batalhas de robôs. Foi sempre, desde o início, um alerta.
Só que esse alerta parece não ter chegado a toda a gente.
“Mesmo entre os fãs de Gundam, há muitos que fazem declarações muito distantes do pensamento pacifista. Parecem estar presos na mentalidade de simples otakus militares e, no fim, talvez nada de substancial esteja a ser transmitido”, afirmou Tomino.
Não é a primeira vez que o diretor exprime esta desilusão. Já em 2025 tinha dito algo semelhante: “O que se ouve da boca dos fãs de Gundam é: ‘as batalhas de Mobile Suits são mesmo fixes’. Hoje em dia, criadores mais novos estão a fazer Gundam, mas não há qualquer sinal de experiência de guerra no que produzem, são apenas histórias em imagens. Essa é a minha responsabilidade por não os ter ensinado”.
A autocrítica é genuína e diz muito sobre o carácter de Tomino. Ao contrário de outros criadores que culpam exclusivamente o público ou a indústria, ele assume parte da responsabilidade pela forma como a franquia evoluiu. Ainda assim, não poupa terceiros. Numa entrevista à Kyodo News no ano passado, apontou também os media como cúmplices na falta de consciência coletiva sobre a verdadeira natureza da guerra, por não saberem transmitir “as vozes dos soldados reais e dos políticos que ordenam ataques suicidas”.

Mas as declarações mais contundentes desta edição da Animage têm um alvo diferente, a política japonesa contemporânea. Tomino não disfarça a preocupação com o rumo do país.
“Nem sequer é preciso olhar para o exemplo da Alemanha Nazi para perceber que as ditaduras são geralmente estabelecidas através de eleições. É exatamente isso que está a acontecer no Japão hoje em dia, e acho que a multidão ignorante é verdadeiramente assustadora”, declarou o diretor.
O criador vai ainda mais longe no mesmo artigo, questionando igualmente a confiança cega nas elites intelectuais, referindo as purgas da Revolução Francesa, a Revolução Russa e o regime dos Khmer Vermelhos como exemplos de como o domínio dos intelectuais pode conduzir a tragédias.
“Na política, não há nenhuma pessoa conveniente a quem se possa simplesmente ‘deixar tudo’. Cada um de nós não tem outra escolha senão pensar seriamente”, acrescentou.
Tomino tem 84 anos e vai fazer 85 no outono. Quem acompanha as suas declarações ao longo do tempo nota uma mudança de registo, onde antes havia metáforas e indiretas, agora há clareza. A franquia que criou há quase cinco décadas continua a vender kits de plástico aos milhões e a inspirar séries novas, mas o seu criador continua a perguntar se alguém, afinal, percebeu o recado.








