InícioJogosCartas Pokémon valem tanto que já estão a provocar assaltos a lojas

Cartas Pokémon valem tanto que já estão a provocar assaltos a lojas

O valor das cartas disparou mais de 145% num só ano e transformou um passatempo infantil num alvo para crime organizado.

Pokémon TCG com Mega Greninja e Mega Floette (1)

Em janeiro deste ano, três homens mascarados entraram armados na loja Poke Court, em Manhattan, Nova Iorque, durante um evento com 40 clientes presentes. Partitam as vitrines com um martelo e saíram com mais de 100 mil dólares em mercadoria em menos de três minutos. A fundadora da loja, Courtney Chin, disse que ficou aliviada por ninguém ter ficado ferido: “Se alguém se magoasse por tentar roubar cartas Pokémon, seria o pior desfecho possível”.

O caso de Nova Iorque não foi isolado. Segundo a CNN, só em 2026 foram registados roubos em lojas de colecionismo em Las Vegas, Vancouver, Nottingham e várias cidades dos Estados Unidos, com um total superior a 500 mil dólares em cartas furtadas.

O que está a acontecer e porquê agora

A resposta curta é, dinheiro. O valor das cartas Pokémon subiu mais de 145% no último ano, com compradores a gastar 450 milhões de dólares só em janeiro de 2026. Em fevereiro, o influenciador e wrestler Logan Paul vendeu uma única carta por um valor recorde de 16,5 milhões de dólares. O CEO da casa de leilões Goldin disse à CNN que as cartas da franquia superaram as cartas desportivas e ultrapassaram o índice bolsista S&P em 3.000% nos últimos 20 anos.

Para quem planeia um assalto, as cartas têm tudo o que procuram, são pequenas, leves, têm liquidez imediata no mercado secundário e, ao contrário de outros objetos de valor, não têm números de série que permitam rastrear a sua origem. Nick Jarman, CEO da Certified Trading Card Association, explicou à CNN: “Os ladrões podem levar um punhado de cartas que representam milhares ou dezenas de milhares de dólares, e literalmente caber no bolso. A revenda é extremamente rápida. É alta liquidez”.

Os casos mais reveladores

Alguns dos assaltos documentados mostram até onde chegou este fenómeno:

  • Em março de 2026, dois ladrões arrombaram uma janela da loja Next Level the Gamers Den, em Graham, no estado de Washington, antes do amanhecer, e fugiram com cerca de 10 mil dólares em cartas em menos de dois minutos. O proprietário, Andrew Engelbeck, que abriu a loja em 2018 sem qualquer incidente durante três anos, disse à CNN: “Os roubos estão a atingir as pequenas empresas. Estão a atingir pessoas reais. Não é um crime sem vítimas, de modo algum”.
  • Em fevereiro, uma equipa de ladrões em Anaheim, Califórnia, abriu um buraco na parede de um negócio adjacente para entrar numa loja de cartas e sair com 180 mil dólares em mercadoria.
  • Em março, uma loja em Abbotsford, na Colúmbia Britânica, no Canadá, perdeu 25 mil dólares em cartas Pokémon, com outros 10 mil em danos materiais. O sargento Paul Walker da polícia local confirmou à CNN que os analistas criminais estão a monitorizar os mercados secundários para tentar localizar as cartas roubadas.

As vítimas não se limitam a lojas. Em fevereiro, o criador de conteúdo PokeDean publicou um vídeo no YouTube a mostrar a sua casa revirada. Após alguns dias fora, encontrou as prateleiras vazias. Os computadores portáteis e as consolas de videojogos ficaram intactos. O único alvo tinham sido as suas cartas Pokémon mais valiosas.

Difícil de travar, fácil de vender

Um dos maiores problemas para as autoridades é precisamente a ausência de numeração de série nas cartas. Sem esse mecanismo de rastreio, provar a origem de uma carta roubada é quase impossível. Jarman confirmou à CNN que é por essa razão que a revenda ilegal é tão fluída.

O caso de Keith Wallis, detido na Florida, ilustra bem como o esquema funciona a uma escala mais discreta mas sistemática, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, cometeu 75 furtos em lojas Target, escondendo as cartas dentro de embalagens de tempero para tacos e pagando apenas o preço destas. Revendia depois as cartas no eBay. Enfrenta agora acusações que podem resultar em até 90 anos de prisão.

A escalada de roubos está também a ter consequências inesperadas para os proprietários de lojas. Engelbeck conta que só encontrou uma seguradora disposta a cobrir o stock da sua loja, e instalou câmaras, sirenes e luzes estroboscópicas azuis e vermelhas para simular a presença policial. A NYPD recomendou à Poke Court que contratasse um segurança armado, algo impensável para uma loja de cartas há poucos anos.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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