Lançado originalmente para PC a 2 de dezembro de 2025, Kingdom of Night prepara-se para levar o terror cósmico às consolas, chegando à PlayStation 5, Xbox Series e Nintendo Switch no dia 5 de Novembro de 2026. Desenvolvido pela Friends of Safety e publicado pela DANGEN Entertainment, este indie junta a ação dos RPG clássicos, como Diablo, à arte pixel dos anos 80 e a uma atmosfera claramente influenciada por Stranger Things. Resta saber se esta mistura consegue transformar um pesadelo numa experiência memorável.

Um enredo promissor, mas pouco surpreendente

Estamos em 1987, na pequena cidade de Miami, no Arizona. Um culto satânico desperta acidentalmente Baphomet, uma entidade demoníaca que mergulha tudo ao seu redor num caos sobrenatural. É neste cenário que assumimos o papel de John, um estudante do secundário que parte à procura da sua vizinha raptada. O que começa como uma tentativa de a encontrar acaba por se transformar numa luta para salvar os nossos amigos e impedir que os quatro príncipes das trevas consumam por completo a cidade.

À medida que exploramos as ruas cobertas de nevoeiro e conhecemos os seus habitantes, a narrativa vai desvendando aos poucos mais deste mundo aterrorizado por demónios e pelos problemas normais da adolescência. As missões secundárias trazem substância à cidade e vão-nos dando a conhecer melhor as personagens que tentam sobreviver a esta noite sem fim. É um enredo que me agradou, talvez pela forma como o jogo combina o terror cósmico com as referências à cultura pop dos anos 80.

Ainda assim, a história nem sempre faz bom uso do desenvolvimento dos protagonistas, pelo menos como é de se esperar. Talvez isso se deva à presença de vários enredos em simultâneo que, apesar de estarem ligados ao que está a acontecer, nem sempre surpreendem. As referências de Stranger Things são evidentes, notam-se nos ambientes, nas personagens e na construção do mistério e, ainda que funcione, gostava que tivessem sido um pouco mais originais.

Explora uma cidade mergulhada na escuridão

Mal começamos a explorar, percebemos que Miami esconde mais do que aparenta, e uma boa parte da experiência de Kingdom of Night passa precisamente por descobrir o que se encontra para além da missão principal. Com uma perspetiva isométrica, a cidade é enorme e interligada, com um subsolo que convida a explorar. Embora as missões estejam assinaladas no mapa, é fácil ficar perdido, mas acabei por não me importar, porque cada desvio costuma render um segredo, uma missão secundária ou um novo equipamento.

A evolução do nosso protagonista merece atenção. Conforme avançamos, melhoramos as suas capacidades e encontramos novas armas e acessórios que facilitam os combates contra os inimigos. No início, temos cinco classes à escolha, Barbarian, Knight, Rogue, Necromancer e Sorcerer, cada uma com características e estilos de combate próprios. Cada classe tem a sua própria árvore de habilidades, inicialmente um pouco linear, mas que vai abrindo novas opções à medida que progredimos, permitindo-nos moldar o combate às nossas preferências.

Na minha primeira partida, escolhi o Knight, a classe de combate corpo a corpo que recomendo para iniciantes. Os comandos são mais simples de perceber, as armas são suficientemente poderosas para despachar os inimigos com mais facilidade e a resistência ao dano acaba por ser útil. As classes de magia tornam o desafio bem mais interessante, mas são mais difíceis de gerir e controlar, já que temos de lidar com ataques ao perto e à distância.

Para além disso, não dependemos apenas da força para derrotar as criaturas. À primeira vista, podemos pensar que basta atacar os inimigos até os derrotarmos, mas convém prestar atenção aos seus movimentos e saber quando devemos esquivar-nos. Gerir a resistência e escolher o momento certo para atacar torna-se especialmente importante quando vários adversários nos cercam.

O problema é que, tirando os bosses, parte dos confrontos torna-se previsível, e o uso excessivo dos mesmos inimigos torna em alguns momentos a exploração e o combate mais cansativos do que deveriam.

Ainda assim, a exploração está bem ligada à evolução da personagem. Conhecer novos locais, completar missões, encontrar novas armas e acessórios e melhorar as capacidades dá-nos motivos suficientes para continuar a navegar pela cidade. Há também a satisfação de regressar a um confronto que antes era impossível de vencer e perceber que, desta vez, estamos preparados para o superar.

A minha maior dúvida era perceber como um jogo pensado para ser jogado com teclado e rato se adaptaria às consolas, neste caso à PlayStation 5. Com a classe Knight, senti que os controlos foram intuitivos e responsivos. Nas classes de magia, temos várias combinações de botões no comando para alternar entre os poderes disponíveis. Pode parecer complicado, mas acabamos por nos habituar.

Uma viagem artística ao passado

Visualmente, Kingdom of Night é uma autêntica viagem no tempo. Tanto o pixel art como os menus e elementos gráficos levam-nos de volta a uma época em que os jogos conquistaram pelo charme artístico e pela personalidade dos seus mundos de fantasia, e aqui, isso comprova-se logo nos primeiros minutos. Pelo caminho, percorremos ruas abandonadas, escolas e criptas invadidas por criaturas, num cenário onde a iluminação e as cores fazem um óptimo trabalho a criar uma atmosfera densa e hostil.

Os visuais ganham ainda mais força com a banda sonora, que encaixa na perfeição na ambiência e na direção artística, combinando sons eletrónicos com melodias orquestradas que dão outra profundidade a este mundo. A música de Vince DiCola é, sem dúvida, um dos pontos a realçar neste jogo, com temas variados que alternam entre momentos mais discretos durante a exploração e outros mais intensos durante os combates. Elementos como a chuva e a trovoada também ajudam a constituir um ambiente de terror, assim como outros efeitos sonoros que lembram clássicos do cinema como Halloween ou Sexta-Feira 13, resultando numa bela homenagem ao terror, que combina diferentes géneros e influências.

A direção artística e a música são sem dúvida os dois pilares principais que dão personalidade a este título. Os gráficos podem não ser revolucionários, mas o jogo cria um ambiente envolvente e revivalista que casa na perfeição com a sua temática sobrenatural.

O desempenho também está bem conseguido, apenas notei uma ligeira lentidão nos combates com muitos inimigos ao mesmo tempo, mas durou apenas uns segundos e é provável que seja corrigida com uma futura atualização.

Conclusão

Kingdom of Night conquista pela atmosfera e pela forma como recupera a magia dos videojogos dos anos 80, homenageando ao mesmo tempo os RPG de ação clássicos. Gostei da exploração e, em parte, do sistema de combate, principalmente pela variedade de classes à escolha. Porém, a história podia ter arriscado mais, e a falta de variedade no bestiário torna a nossa passagem por este mundo mais previsível. Tem as suas falhas, mas, se és fã deste género e tens saudades de explorar mundos sombrios invadidos por criaturas do inferno ao estilo de Diablo, vale a pena dar-lhe uma oportunidade.

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