Jujutsu Kaisen nunca prometeu histórias felizes, e Yuji Itadori é o rosto dessa crueldade narrativa. O jovem perde o avô logo no início, fica com uma sentença de morte adiada e é arrastado para o mundo das maldições, onde enterra amigos e ainda vê o seu próprio corpo ser usado por Sukuna para cometer atrocidades. Ainda assim, quem conhece bem o universo do anime e do mangá sabe que existem personagens cujo sofrimento vai bem mais longe.
10Re:Zero
Quando Subaru Natsuki é transportado para outro mundo, tudo parece apontar para mais uma fantasia isekai em que o protagonista ganha poderes e conquista admiradores. Re:Zero desfaz essa expectativa muito depressa. A habilidade que Subaru recebe, o Return by Death, permite-lhe regressar a um momento anterior sempre que morre, mas está longe de ser uma vantagem confortável.
O problema é que cada regresso começa com uma morte, e essas mortes raramente são rápidas. Subaru é devorado vivo, esventrado, torturado durante horas, e acorda sabendo exatamente o que sentiu. A série não suaviza o impacto desta repetição e insiste em mostrar o desgaste físico e emocional de uma personagem que não tem outra opção senão tentar outra vez.
A isto junta-se uma solidão difícil de imaginar. Ninguém além de Subaru recorda as linhas temporais abandonadas, o que significa que laços criados e promessas feitas desaparecem para toda a gente, menos para ele. Carregar sozinho a memória de tudo o que aconteceu, e de tudo o que correu mal, é talvez o aspeto mais pesado de uma das histórias isekai mais duras que a televisão japonesa produziu.
9Texhnolyze
Poucas séries são tão desesperançadas como Texhnolyze. Produzida pelo estúdio Madhouse e exibida em 2003, passa-se em Lux, uma cidade subterrânea em decadência, onde as pessoas parecem sobreviver mais do que viver. É neste cenário que se move Ichise, um lutador de poucas palavras que começa a história já preso a um ambiente de violência e corrupção.
O percurso de Ichise é uma sucessão de perdas. Fica sem uma perna depois de um confronto violento e, mais tarde, perde também um braço, sendo submetido ao processo de texhnolização, que o obriga a substituir partes do corpo por próteses ligadas à tecnologia que dá nome à série. O corpo deixa de lhe pertencer, e o mesmo acontece, aos poucos, a tudo o que o rodeia.
Ao longo dos 22 episódios, Ichise assiste à cidade a consumir-se a si própria e vê morrer as poucas pessoas com quem estabelece alguma ligação. O desfecho não traz redenção. O protagonista morre de forma lenta e dolorosa, quando já ninguém resta em Lux, o que ajuda a explicar a reputação da série como uma das mais sombrias de sempre.
8To Your Eternity
À primeira vista, a imortalidade parece um dom. Em To Your Eternity, adaptação do mangá de Yoshitoki Oima, é uma condenação. Fushi começa como uma simples esfera sem consciência, que vai assumindo a forma de tudo o que encontra, e só aos poucos desenvolve identidade, emoções e a capacidade de compreender o que lhe acontece.
À medida que se torna mais humano, Fushi cria laços profundos com várias pessoas e percebe que o tempo não joga a seu favor. Todos os que ama acabam por morrer, e muitas dessas mortes não têm nada de natural. Guerras, doenças e acontecimentos trágicos tiram-lhe uma e outra vez as pessoas que mais importam, enquanto ele continua, incapaz de partir com elas.
O sofrimento não se limita ao luto. O próprio Fushi é morto de forma brutal em várias ocasiões, e o trauma acumulado soma-se ao peso de uma existência sem fim à vista. Quanto mais cresce enquanto pessoa, mais difícil se torna suportar o que significa viver para sempre.
7Land of the Lustrous
Quem só viu a adaptação em anime de Land of the Lustrous, produzida em 2017 pelo estúdio Orange, conhece apenas uma pequena parte da história. Essa versão cobre pouco mais dos primeiros volumes do mangá de Haruko Ichikawa e apresenta Phosphophyllite, ou Phos, como uma gema ingénua, despreocupada e ansiosa por ser útil. Os sinais de que o rumo será trágico estão lá, mas a verdadeira dimensão do sofrimento só se revela no material original.
Sendo a mais frágil das gemas, Phos perde partes do corpo com frequência, e cada substituição altera também quem Phos é. A identidade parte-se e reconstrói-se em paralelo com o corpo, e a personagem alegre do início vai dando lugar a alguém mais sombrio, desesperado e distante dos restantes.
O ponto mais duro chega no desfecho do mangá, que terminou em 2024, depois de mais de uma década de publicação. Phos assume um sacrifício enorme em nome da salvação das outras gemas e fica sozinha na Terra durante 10 000 anos, num isolamento total. É um destino que o anime só deixa adivinhar e que ajuda a explicar porque é que muitos leitores consideram esta uma das histórias mais devastadoras do género.
6Neon Genesis Evangelion
O género mecha está cheio de heróis que passam por provações, mas poucos se tornaram tão associados ao desespero como Shinji Ikari. O protagonista de Neon Genesis Evangelion nunca quis ser herói. Depois da morte da mãe, foi abandonado pelo pai, Gendo, que só volta a procurá-lo quando precisa de um piloto para combater os Anjos.
O que torna o caso de Shinji tão marcante é a forma como a série retrata o seu estado emocional. Uma criança traumatizada e isolada é obrigada a lutar em circunstâncias física e psicologicamente devastadoras, e a sua fragilidade nunca é tratada como um defeito a corrigir, mas como uma reação compreensível a uma situação impossível.
É por isso que o sofrimento de Shinji continua a ser tão debatido. Apesar do contexto de apocalipse e de batalhas gigantescas, a personagem desmorona-se de maneiras profundamente humanas e fáceis de reconhecer, e o mesmo se pode dizer dos restantes elementos do elenco, todos eles complexos, marcados por feridas pessoais e levados ao limite pela ameaça do fim do mundo.
5Trigun
Vash the Stampede engana quem o conhece mal. Num planeta desértico e violento como No Man’s Land, com uma recompensa enorme pela cabeça, é o homem sorridente e atrapalhado que insiste em resolver tudo com paz e amor, sem nunca fazer mal a ninguém. Parece alguém imune ao desgosto.
A fachada, no entanto, esconde uma das figuras mais trágicas do anime. Vash é um Plant com mais de 150 anos de vida e, ao longo desse tempo, viu desaparecer pessoas queridas, carregou culpas pesadas e foi traído pelo próprio irmão, Knives. O otimismo que mostra não surge da ausência de dor, mas da decisão de não deixar que a dor o transforme.
Esse contraste é o que dá força à personagem. Vash é desprezado por parte da humanidade que insiste em proteger, vive atormentado pela culpa e pelo luto, e ainda assim mantém uma esperança teimosa que o torna ainda mais admirável. Poucos heróis sofrem tanto a sorrir.
4Chainsaw Man
Denji nunca teve uma oportunidade. Órfão e preso à enorme dívida deixada pelo pai, começa Chainsaw Man como um caçador de demónios doente e pobre, incapaz de pagar uma refeição decente. O primeiro episódio é suficiente para o mostrar a morrer às mãos do Zombie Devil, depois de tudo o que já tinha vivido.
Renasce como Chainsaw Man graças à ligação com Pochita, e a vida passa a ter um pouco mais de conforto, mas pouco mais do que isso. Ao serviço da Segurança Pública, Denji é tratado como uma arma, e as pequenas conquistas que vai fazendo acabam sempre por lhe ser arrancadas, incluindo a família improvisada que forma com Aki e Power.
O mais difícil de tudo, porém, ainda está por vir. O anime, produzido pelo estúdio MAPPA, já mostrou momentos duros, e o filme Chainsaw Man – The Movie: Reze Arc, aprofundou-os, mas os capítulos mais devastadores do mangá de Tatsuki Fujimoto continuam à espera de adaptação.
3Devilman Crybaby
Devilman é uma obra conhecida pela brutalidade, seja na versão original, criada por Go Nagai, seja na reinterpretação de 2018 produzida pelo estúdio Science Saru. Em ambos os casos, a história acaba com a destruição total da humanidade, e Akira Fudo é quem mais perde pelo caminho.
O papel de Devilman já é, por si só, um fardo enorme. Akira é um humano que ganha o poder de um demónio sem perder o coração, mas quando a paranoia toma conta das pessoas e estas se destroem umas às outras, nem os seus poderes servem de nada. Vê a família morrer, assiste ao colapso do mundo e percebe que o seu melhor amigo, Ryo, o traiu.
A revelação final é a mais cruel. Ryo orquestrou o apocalipse que lhe tirou tudo, e Akira não consegue salvar o mundo nem se salvar a si próprio, acabando por morrer às mãos do antigo amigo. Raros protagonistas chegam ao fim de uma obra tão derrotados.
2Steins;Gate
Rintaro Okabe apresenta-se como um cientista louco, mas a verdade é que tropeça numa descoberta que muda tudo: uma forma de enviar mensagens de texto para o passado. O que começa como uma experiência quase divertida transforma-se numa luta contra o tempo para evitar que as pessoas de quem gosta, e o próprio mundo, tenham um destino terrível.
O preço dessa luta é elevado. Em busca da linha temporal Steins Gate, Okabe vive repetidamente os piores desfechos possíveis, e cada tentativa falhada deixa marcas. O desgaste mental acumula-se e a personagem excêntrica do início dá lugar a alguém cada vez mais cansado e pressionado.
O que torna a situação ainda mais pesada é o facto de ser o único a lembrar-se de tudo. Okabe vê os amigos morrerem vezes sem conta e carrega essa memória sozinho, enquanto tenta cumprir a missão de salvar o mundo. A sequela, Steins;Gate 0, mostra como esse trauma o deixou reduzido a uma sombra de si próprio.
1Berserk
Entre os fãs, Guts é frequentemente apontado como a personagem mais atormentada de todo o anime e mangá. A sua vida começa de forma trágica, já que nasce de um cadáver e passa a infância entre abusos, exploração e violência constante. A dureza com que mais tarde encara o mundo é, em grande parte, uma consequência direta dessa infância.
Há, mesmo assim, um breve período que se aproxima de felicidade, ao lado do Band of the Hawk. A amizade e o sentido de pertença que Guts encontra no grupo duram pouco, e a sequência de acontecimentos que se segue conduz ao Eclipse, a maior tragédia de uma vida já de si marcada pelo sofrimento.
Depois da catástrofe, Guts fica marcado com a Brand of Sacrifice e passa a viver uma existência ainda mais cruel, perseguido por forças sobrenaturais e movido apenas pelo desejo de vingança. Desde a adaptação de 1997 até ao mangá de Kentaro Miura, a sua história permanece uma referência quando se discute o que há de mais sombrio na ficção japonesa.









