
A polícia metropolitana de Tóquio lançou no início de junho uma campanha de combate intensificado ao chikan, termo japonês para o assédio sexual e apalpamento em locais públicos, sobretudo nos transportes. A iniciativa arrancou a 1 de junho na estação de Shinjuku, um dos nós ferroviários mais movimentados do mundo, com distribuição de panfletos a passageiros por parte de agentes e estudantes locais.
Segundo dados da própria polícia, foram registados 667 casos de assédio em Tóquio no ano passado, com cerca de 70 por cento a ocorrer dentro das carruagens de comboio. O número, já de si expressivo, é considerado um valor subestimado, as vítimas tendem a não denunciar os casos por receio ou vergonha.
Uma app que faz o que a voz não consegue
A grande aposta desta campanha é a promoção da app Digi Police, desenvolvida pela própria polícia metropolitana de Tóquio e disponível gratuitamente para smartphones. A ferramenta foi concebida precisamente para os momentos em que falar em voz alta é difícil ou impossível, seja pelo medo, pelo ambiente, ou pela pressão social que muitas vezes recai sobre as vítimas.
Através da aplicação, quem está a ser assediado pode ativar uma mensagem que ocupa o ecrã completo com o texto “Há um agressor. Por favor, ajudem”. Numa segunda interação, a mensagem fica a vermelho e é acompanhada de uma voz que repete “Parem”. A app inclui ainda a possibilidade de enviar um alerta para um endereço de e-mail predefinido, útil também para pais com filhos menores.
A Digi Police foi lançada originalmente em 2016 e já ultrapassou as 470 mil transferências, um número considerado incomum para uma aplicação de serviço público.
Período especial de fiscalização até 15 de junho
A campanha, designada oficialmente como “Período Intensificado de Contramedidas ao Chikan”, decorre até 15 de junho. Durante este tempo, agentes fardados e à civil reforçam as patrulhas nas estações e no interior dos comboios.
Yuriko Ueki, responsável pela Divisão Geral de Segurança Comunitária da polícia metropolitana, foi direta na mensagem ao público: “O assédio é um crime grave que atropela a dignidade de cada pessoa. Se se tornarem vítimas de um agressor, queremos que peçam ajuda às pessoas ao seu redor sem hesitar”.
O chikan é reconhecido como um problema estrutural no Japão há décadas. A introdução de carruagens exclusivas para mulheres nas horas de ponta, há mais de vinte anos, reduziu a incidência em alguns casos, mas não o eliminou. A polícia metropolitana disponibiliza também um site dedicado à prevenção e denúncia, e a Digi Police continua a ser a ferramenta principal recomendada às vítimas.
A campanha deste ano em Shinjuku repete um formato já testado em anos anteriores, e que em 2025 envolveu até funcionários de maid cafés a distribuir panfletos em Akihabara. A participação de estudantes e da comunidade local tem sido uma constante, numa tentativa de normalizar a denúncia e reduzir o estigma que ainda rodeia as vítimas.









