Entre cidades cobertas de néon e corporações sem escrúpulos, estes jogos mostram porque é que o futuro distópico continua a fascinar os jogadores
5Detroit: Become Human
Quando a Quantic Dream lançou este jogo em 2018, poucos esperavam que uma história sobre androides conseguisse gerar tanto debate sem recorrer a armas de fogo como ferramenta narrativa principal. A história acompanha três androides que, por caminhos distintos, começam a desenvolver algo semelhante a uma consciência própria, e é esse despertar que acaba por incendiar uma cidade inteira.
O que torna este título tão particular é a forma como dilui a linha entre jogo e drama televisivo. Cada conversa, cada gesto e cada decisão aparentemente insignificante pode alterar por completo o rumo da história, o que obriga o jogador a pensar com cuidado antes de agir, sabendo que não há forma de voltar atrás.
Ainda hoje, quase uma década depois do lançamento, este continua a ser um dos exemplos mais citados de como a ficção científica pode ser usada para discutir empatia, preconceito e direitos civis sem nunca soar a sermão. É um jogo que se sente mais como uma experiência coletiva do que como um simples entretenimento solitário.
4Ghostrunner
A premissa de Ghostrunner é simples de descrever, mas brutal de jogar, depois de um colapso ecológico global, o que resta da humanidade vive amontoado dentro da Torre Dharma, uma estrutura gigantesca onde a posição social de cada um depende literalmente da altura a que vive. Quem está em baixo sobrevive na imundície industrial; quem está no topo desfruta de luz e privilégio.
Lançado em 2020 pelo estúdio polaco One More Level, o jogo transforma essa desigualdade vertical na sua própria mecânica central. Subir a torre não é apenas um objetivo narrativo, é também o desafio físico que o jogador enfrenta a cada nível, com combates relâmpago em que um único erro significa morte instantânea.
É raro encontrar um jogo que consiga ser tão implacável na dificuldade e, ao mesmo tempo, tão consistente na mensagem que transmite. Aqui, a velocidade do combate não é só um exercício de reflexos, é também uma metáfora sobre a urgência de quem não tem tempo nem margem para falhar.
3Cyberpunk 2077
Pouquíssimos lançamentos geraram tanta conversa, expectativa e, mais tarde, redenção, como este projeto da CD Projekt Red. Ambientado em Night City, o jogo coloca o jogador no papel de um mercenário de rua cujo corpo passa a ser partilhado por uma inteligência digital com a personalidade de um músico já falecido, interpretado por Keanu Reeves.
Mais do que a trama principal, é a cidade em si que rouba a atenção. Night City alterna entre torres corporativas deslumbrantes e bairros à beira do colapso, e essa contradição visual está sempre presente, lembrando constantemente ao jogador que o brilho e a miséria coexistem a poucos metros de distância.
A verdadeira força do jogo está na quantidade de histórias paralelas que se cruzam com a narrativa central. Gangues cibernéticos, políticos corruptos, comunidades nómadas, cada faceta da cidade oferece uma perspetiva diferente sobre o custo humano do progresso tecnológico, sem nunca perder de vista as relações pessoais que dão sentido a tudo o resto.
2Deus Ex: Mankind Divided
Este título da Eidos-Montréal parte de uma premissa incomodamente atual, depois de uma tragédia global atribuída a cidadãos modificados geneticamente, estes passam a ser vigiados, segregados e tratados como ameaça pelas autoridades. O jogador assume o papel de um agente de segurança fortemente aumentado, algo que o coloca numa posição desconfortável entre os dois lados do conflito.
A grande qualidade deste jogo está na liberdade de abordagem. Cada missão pode ser resolvida através de infiltração silenciosa, confronto direto ou manipulação social, e o desenho dos cenários reflete isso mesmo, com prédios, esgotos e sistemas de segurança pensados como caminhos alternativos e não apenas obstáculos.
São, no entanto, as missões secundárias que acabam por deixar a marca mais duradoura. Muitas vezes mais bem escritas do que a própria campanha principal, estas histórias paralelas mostram com bastante crueza como a discriminação institucional acaba por moldar a vida quotidiana de pessoas comuns, reforçando a ideia de que a tecnologia, isolada, nunca resolve as desigualdades que ajuda a criar.
1The Ascent
Criado pelo pequeno estúdio sueco Neon Giant, este jogo isométrico oferece talvez a visão mais claustrofóbica desta lista. A ação decorre num planeta inteiramente controlado por uma megaestrutura corporativa, onde o protagonista é um trabalhador endividado cuja vida e modificações biológicas pertencem, na prática, à empresa que o emprega.
O ponto de viragem da história surge quando essa mesma corporação entra em colapso financeiro, deixando toda a cidade vertical à mercê de facções rivais que disputam o controlo do território. É nesse vazio de poder que o jogo ganha o seu ritmo mais intenso, com tiroteios táticos que destroem praticamente tudo o que está à volta.
O que torna este título especialmente coeso é a forma como nunca esconde a exploração laboral subjacente a toda a sua estética. Aqui, contar uma história através do próprio sistema de jogo revela-se tão eficaz, ou até mais, do que fazê-lo através de diálogos e cinemáticas, e isso é algo que poucos jogos do género conseguem replicar com a mesma naturalidade.









