
Para Shawn Layden, o problema de a Sony deixar de produzir discos vai muito além da conveniência ou da nostalgia. O antigo responsável da PlayStation defende que a decisão muda a pergunta que os jogadores fazem a si próprios, deixa de ser “que jogo vou comprar” e passa a ser “o que é que, na prática, estou a comprar”.
Layden, que era presidente da divisão de estúdios mundiais da PlayStation quando saiu da Sony em 2019, falou sobre o assunto no podcast The Expansion Pass.
A Sony confirmou a 2 de julho que vai deixar de produzir edições em disco de novos jogos PlayStation a partir de janeiro de 2028. Os jogos já à venda não são afetados e os títulos lançados até essa data continuam a existir em formato físico.
Num texto publicado no blogue oficial da PlayStation, a Sony justificou a mudança com a evolução dos hábitos de consumo. A empresa escreveu: “Em resposta à mudança nas tendências de preferência dos consumidores, os novos jogos serão lançados na PlayStation Store e em retalhistas apenas em formatos digitais“.
Quando lhe pediram uma opinião sobre este futuro totalmente digital, Layden começou por admitir que desconhece os números que podem ter levado a Sony a tomar a decisão.
“Não tendo estado na sala, não sei quais eram as pressões em torno disto, nem o que dizia a folha de cálculo – porque tenho a certeza de que esta é uma decisão muito baseada em folhas de cálculo, onde se contêm custos e se extrai lucro. Não sei nada disso“, afirmou.
Mesmo assim, não concorda com o rumo escolhido. O ex-executivo reconhece que a maioria dos jogadores prefere hoje o formato digital, mas faz questão de desmontar a ideia de que fazer download é mais prático do que ir à loja.
“Acho que os gamers… sim, gostamos do download digital. As pessoas disseram ‘ah, descarregar um jogo é mais fácil do que ir à loja’. Não, não. Descarregar um jogo é mais fácil do que atravessar a minha sala para pôr um disco na consola. Nem sequer tenho de fazer isso. Basta-me carregar num botão do comando e não tenho de me mexer. E a conveniência disso é inquestionável“.
Os 20% que fazem diferença
O argumento central de Layden está na minoria que continua a comprar jogos em caixa. Mesmo que o digital domine, defende que esse grupo tem um peso desproporcionado:
“Mas acho que, particularmente no universo dos videojogos, talvez 80% das pessoas descarreguem e 20% não, ou seja qual for essa divisão. Mas esses são uns 20% super importantes.
Trata-se, em grande medida, dos mais fiéis entre os fiéis. São, muitas vezes, as pessoas que compram duas cópias de cada jogo, certo? Uma nunca sai do plástico, certo? E joga-se a outra. É como os colecionadores de banda desenhada. Compra-se sempre dois exemplares“.
Para o antigo executivo, o desejo de colecionar está na génese de quem joga, e o disco é parte dessa ligação.
“Acho que a possibilidade de ter o disco físico… sabem, temos de nos lembrar que um dos principais motores do gamer é este desejo de colecionar, certo? ‘Acabei o Crash Bandicoot, tinha 27 de 30 diamantes, meu Deus, tenho de voltar a jogar o jogo todo porque aqueles três diamantes, perdi-os em algum lado‘.
Somos um tipo de pessoas curiosas e colecionadoras, e gostamos de mostrar as nossas coisas. Por isso, por estas razões, não concordo com essa decisão“.
A questão da propriedade
Layden acrescentou que o fim dos discos coloca no centro do debate a questão de quem é, afinal, dono de um jogo. E, na sua opinião, quando isso acontece, os jogadores tendem a imaginar sempre o pior cenário, o que acaba por se refletir na imagem da empresa:
“Acho que este é provavelmente o aspeto mais insidioso, que muda a conversa para ‘será que somos donos de um jogo ou temos acesso a um ativo digital’, certo?
Se não podes vender uma coisa, isso significa que não és dono de coisa nenhuma. E se não és dono, então o que estás a comprar? Se estás a comprar acesso, isso não soa lá muito sexy, para ser sincero. E as pessoas, como costumam fazer, vão imaginar na cabeça o pior cenário possível.
E isso é um grande golpe na marca e na reputação que – como disse, não tenho qualquer visibilidade sobre as finanças envolvidas – mas é um golpe significativo na marca, e espero que isso tenha feito sentido para eles“.








