
A Nippan Group Holdings, uma das grandes distribuidoras de livros do Japão, confirmou ter vendido livros japoneses à Anthropic, a empresa norte-americana que desenvolve o Claude. A informação, avançada na quarta-feira pela imprensa japonesa, caiu mal no setor editorial, onde cresce o receio de que os exemplares tenham sido cortados, digitalizados e usados no treino de inteligência artificial sem que os editores tivessem conhecimento.
A confirmação consta de uma carta dirigida à Associação de Editores de Livros do Japão (JBPA), que a fez chegar a cerca de 380 editoras associadas. No documento, o grupo esclarece que as vendas ficaram a cargo da Nippan IPS, a subsidiária responsável pela venda de livros japoneses no estrangeiro. O contrato com a Anthropic foi fechado em novembro de 2024 e os fornecimentos prolongaram-se de dezembro desse ano até dezembro de 2025.
Tudo começou com os documentos internos da Anthropic que foram tornados públicos no âmbito do processo movido nos Estados Unidos por um grupo de autores, que acusa a empresa de violar direitos de autor. Esses papéis mostram que, através do Project Panama, a Anthropic comprou grandes quantidades de livros a distribuidores na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Entre as empresas referidas surge a Nippan Japan, que se acredita ser a Nippan.
O Project Panama arrancou no início de 2024 e assentava numa ideia simples, obter livros impressos mais antigos, de texto cuidado, para ensinar o Claude a escrever melhor. Um fornecedor usava uma máquina hidráulica para cortar a lombada dos volumes e digitalizar as páginas uma a uma. Um dos documentos internos resumia o objetivo em poucas palavras: digitalizar “destrutivamente todos os livros do mundo”. A mesma publicação refere que um fornecedor chegou a ser procurado para converter entre 500 mil e dois milhões de livros num período de seis meses.
Com estas revelações em cima da mesa, a JBPA enviou à Nippan, a 17 de setembro, um questionário escrito. A associação quis saber se entre os livros vendidos à Anthropic havia obras de editoras suas associadas e que posição tem a distribuidora sobre vender grandes quantidades de livros a clientes estrangeiros sem autorização dos editores. Pediu ainda que deixasse de fornecer publicações para treino de IA. A JBPA reúne 380 editoras, entre as quais a Kodansha, conhecida pelos seus mangás.
A resposta da Nippan foi, no essencial, uma confirmação parcial. Admite as vendas, mas garante que não sabia que os livros se destinavam ao treino de IA. A Nippan IPS chegou a perguntar à Anthropic qual era a finalidade das compras antes de fechar o negócio. Os contratos não previam que os livros pudessem ser usados para treinar modelos de IA.
O grupo não revelou quantos livros vendeu nem por que valor, e os documentos judiciais não permitem concluir que o comprador identificado como Nippan Japan seja de facto a Nippan IPS. Também não está confirmado que os livros japoneses em causa tenham sido realmente usados no treino dos modelos da Anthropic.
O mal-estar é visível sobretudo pelo papel que a Nippan ocupa na cadeia de distribuição dos livros que os editores querem proteger.
A venda de livros físicos não constitui, por si só, uma violação de direitos de autor. Nos Estados Unidos, o juiz William Alsup entendeu que digitalizar livros comprados legalmente e usar o respetivo texto no treino de um modelo é permitido pela doutrina do uso legítimo (fair use). Já a obtenção de livros através de bibliotecas piratas foi tratada de forma diferente e acabou num acordo de 1,5 mil milhões de dólares.
O que preocupa os editores japoneses é o passo seguinte, como são tratadas as obras depois de vendidas e se os criadores devem ser compensados quando o seu trabalho contribui para o desenvolvimento de sistemas comerciais de IA. A Nippan Group, entretanto, diz que vai responder às dúvidas que os editores lhe colocarem.









