1月11日,河南大上海城。一名女生因COS《我的英雄学院》角色,在商场内遭到一群人围追堵截。多人将其与两名同行的女生团团围住,一边高唱《义勇军进行曲》,并对其进行言语羞辱。期间,一名男子粗暴地将女生的假发扯下并当场焚烧,随后施暴者们强迫该女生一起唱《义勇军进行曲》。… pic.twitter.com/7TP2IUjIDY
— 李老师不是你老师 (@whyyoutouzhele) January 11, 2026
Uma jovem cosplayer foi vítima de uma agressão violenta no passado sábado, 11 de janeiro, num centro comercial na província de Henan, China. O incidente, que foi filmado e partilhado amplamente nas redes sociais chinesas, mostra uma multidão a cercar, insultar e agredir a jovem pelo simples facto de estar vestida como personagem de My Hero Academia (Boku no Hero Academia).
Os vídeos mostram agressores a cantar a Marcha dos Voluntários, o hino nacional chinês, enquanto perseguiam a cosplayer pelo centro comercial. Um homem arrancou-lhe violentamente a peruca e queimou-a ali mesmo, perante dezenas de espectadores. Após o ato, o grupo posou para fotografias com uma bandeira chinesa.
Quando a jovem e duas amigas tentaram fugir, a multidão bloqueou-lhes o caminho, impedindo-as de entrar num veículo enquanto continuavam os cânticos nacionalistas. O incidente gerou reações divididas nas redes sociais chinesas, enquanto alguns aplaudem a ação como defesa da honra nacional, outros comparam-na a bullying e delinquência.
Uma ferida histórica que não cicatriza
Para compreender a violência deste ataque, é necessário recuar a 2020. Nesse ano, My Hero Academia tornou-se alvo de controvérsia massiva na China quando foi revelado que um vilão da série, o Dr. Ujiko, tinha como nome verdadeiro Maruta Shiga.
O nome do Dr. Daruma Ujiko foi revelado no mangá no seu capítulo 259 como “Maruta Shiga“, com “maruta” a ser o nome japonês para as vítimas de experiências humanas durante a Segunda Guerra Mundial. Este é considerado como um dos piores crimes de guerra praticado pelos japoneses.
As vítimas, incluindo crianças, idosos, mulheres grávidas e pessoas com deficiências mentais, foram propositadamente infectadas com doenças, dissecadas, lobotomizadas e amputadas enquanto ainda estavam vivas.
A personagem do Dr. Ujiko no mangá é precisamente um cientista maluco que realiza experiências em seres humanos, criando os Nomu, criaturas geneticamente modificadas. A semelhança não passou despercebida aos leitores chineses e coreanos.
Autor de My Hero Academia pede desculpa por referenciar no mangá crimes de guerra japoneses
Pedidos de desculpas e alterações
Quando a controvérsia eclodiu em fevereiro de 2020, tanto o criador Kohei Horikoshi como a editora Shueisha emitiram pedidos de desculpas públicos, afirmando que a escolha do nome tinha sido completamente coincidental e sem intenção de fazer referência aos crimes de guerra.
A Shueisha divulgou uma declaração oficial através do Twitter: “Relativamente à personagem Maruta Shiga, que aparece no capítulo de My Hero Academia publicado no volume 10 de 2020 da Weekly Shonen Jump (à venda a 3 de fevereiro), recebemos inúmeras indicações de leitores na China e noutros locais no estrangeiro de que é uma lembrança de uma parte trágica da história. (…) Não havia absolutamente nenhuma intenção de sobrepor [o nome] a eventos históricos passados”.
O nome da personagem foi posteriormente alterado para Kyudai Garaki nas versões digitais e em volumes impressos. Contudo, o dano já estava feito.
1月11日,河南大上海城。一名女生因COS《我的英雄学院》角色,在商场内遭到一群人围追堵截。多人将其与两名同行的女生团团围住,一边高唱《义勇军进行曲》,并对其进行言语羞辱。期间,一名男子粗暴地将女生的假发扯下并当场焚烧,随后施暴者们强迫该女生一起唱《义勇军进行曲》。… pic.twitter.com/7TP2IUjIDY
— 李老师不是你老师 (@whyyoutouzhele) January 11, 2026
Banimento na China
A reação na China foi imediata e severa. My Hero Academia foi removido das principais plataformas digitais chinesas, incluindo Tencent e Bilibili. A Bilibili confirmou que a remoção foi feita “de acordo com as políticas da China”, mas recusou-se a comentar mais.
O jogo móvel My Hero Academia: Strongest Hero, em desenvolvimento pelo estúdio chinês Xin Yuan com publicação prevista pela Tencent, foi também cancelado. Seria o primeiro jogo da companhia.
Nas redes sociais chinesas, milhares de fãs partilharam a sua desilusão e raiva. Muitos sentiram-se traídos por uma série que tinham seguido durante anos. Mesmo depois das desculpas de Horikoshi e da alteração do nome, o estigma permaneceu em sectores mais nacionalistas da sociedade chinesa.
Shueisha emite comunicado formal de desculpas pelo nome do personagem de My Hero Academia
Nova lei aumenta tensões
O ataque à cosplayer ocorre num momento particularmente delicado. A 1 de janeiro de 2026, entrou em vigor na China a Lei de Sanções de Administração de Segurança Pública Revista, que penaliza o uso de vestuário ou símbolos que “promovam ou glorifiquem guerras ou atos de invasão” em locais públicos.
Conforme promulgado, o Artigo 35, item 5 limita o vestuário ou símbolos infratores àqueles que promovem ou glorificam guerras de agressão ou atos de invasão, que parecem referir-se principalmente, se não exclusivamente, à invasão e ocupação do Japão na China durante a Segunda Guerra Mundial.
A lei especifica que a punição só se aplica quando o infrator recusa dissuasão e causa impacto social negativo. Tecnicamente, o cosplay não se enquadra nesta proibição legal, mas o clima social tornou-se hostil.
A legislação revista, que passou de 114 para 144 artigos, representa a maior reforma em quase duas décadas e foi aprovada a 27 de junho de 2025 pelo Comité Permanente do Congresso Nacional do Povo. Para além das disposições sobre vestuário, a lei também aumentou penalizações para disseminação de conteúdo obsceno, ciberbullying e uso indevido de drones.
Precedentes preocupantes
Este não é o primeiro incidente de hostilidade contra fãs de cultura japonesa na China. Ao longo dos anos, vários cosplayers foram confrontados ou agredidos por usarem fatos inspirados em anime, particularmente em datas sensíveis como o aniversário de eventos históricos relacionados com a invasão japonesa.
Em 2023, a idol de K-pop Karina, do grupo aespa, foi alvo de críticas massivas nas redes sociais chinesas por ter recomendado My Hero Academia no Instagram. Netizens chineses inundaram as suas publicações com comentários negativos, levando-a a emitir um pedido de desculpas onde explicou não ter conhecimento da controvérsia, uma vez que o nome da personagem já tinha sido alterado.
O caso de Karina ilustra como a ferida permanece sensível mesmo anos após as desculpas oficiais e alterações ao material original.
Nas redes sociais chinesas, as opiniões sobre o ataque à cosplayer estão profundamente divididas. Grupos nacionalistas defendem que a ação foi justificada como forma de proteger a memória das vítimas da Unidade 731 e educar os jovens sobre história.
Por outro lado, muitos utilizadores criticam a violência, questionando se este tipo de agressão coletiva difere do bullying ou criminalidade comum. Alguns apontam que a jovem cosplayer pode simplesmente ser uma fã de anime sem qualquer conhecimento da controvérsia histórica, especialmente considerando que o nome da personagem já foi alterado há anos.
Há também quem argumente que responsabilizar fãs individuais pelos erros (intencionais ou não) de criadores japoneses é injusto e contraproducente. A cultura de anime e mangá tem milhões de seguidores na China, muitos dos quais jovens sem memória direta dos eventos da Segunda Guerra Mundial.
O incidente levanta questões difíceis sobre até que ponto conflitos históricos devem afetar o consumo cultural contemporâneo. My Hero Academia é uma das séries mangá e anime mais populares do mundo, com fãs em dezenas de países, incluindo, até 2020, milhões na China.
A série conta a história de Izuku Midoriya, um rapaz que nasce sem superpoderes num mundo onde a maioria das pessoas os possui, mas que sonha tornar-se herói. Não tem conteúdo político ou militar; é uma história sobre crescimento pessoal, amizade e superação.
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O facto de um erro de nomenclatura (que o autor afirma ter sido acidental) poder banir uma obra inteira e, anos depois, levar a agressões físicas contra fãs individuais, demonstra quão profundas permanecem as feridas históricas entre China e Japão.









