Toshihiro Nagoshi saiu da Sega em 2021 com uma promessa de recomeço. O criador da franquia Yakuza fundou o seu próprio estúdio sob o chapéu da NetEase, a gigante chinesa dos videojogos, com o objetivo de construir uma nova IP de grande orçamento para o mercado global. Quatro anos e meio depois, esse projeto pode estar prestes a desaparecer antes de chegar às lojas.
Segundo o Bloomberg, um porta-voz da NetEase confirmou que a empresa vai deixar de financiar o Nagoshi Studio a partir de maio de 2026. Os funcionários do estúdio foram informados da decisão a 6 de março. O jogo em causa é Gang of Dragon, apresentado em dezembro de 2025 no The Game Awards, onde foi um dos destaques da cerimónia, e descrito na altura como estando em fase avançada de desenvolvimento.
A decisão de cortar o financiamento surgiu após a NetEase descobrir que Gang of Dragon precisaria de pelo menos 7 mil milhões de ienes, cerca de 44,4 milhões de dólares, para ser concluído, segundo fontes citadas pelo Bloomberg que pediram anonimato. O valor foi suficiente para que a empresa decidisse abandonar o projeto, numa altura em que está a reduzir ativamente os seus investimentos no desenvolvimento de jogos a nível global.
O Nagoshi Studio está agora a tentar encontrar financiamento alternativo para continuar o desenvolvimento, mas segundo as mesmas fontes, sem sucesso até ao momento. A NetEase “permitiu” que o estúdio prossiga por conta própria, mas com uma condição: se quiser manter os ativos, a marca e os direitos sobre tudo o que foi desenvolvido até agora, terá de pagar os custos correspondentes. A empresa só está disposta a negociar se o estúdio conseguir financiamento suficiente para se “comprar a si próprio”.
A situação lembra o que aconteceu com a Remedy Entertainment durante anos, a produtora finlandesa ficou impossibilitada de fazer uma sequela de Alan Wake durante quase uma década porque os direitos de publicação pertenciam à Microsoft, que adquirira o jogo original. Só depois de recuperar os direitos é que a Remedy conseguiu produzir Alan Wake 2. Se o Nagoshi Studio não conseguir financiamento externo para se libertar da NetEase, o mesmo destino pode aguardar Gang of Dragon, ou pior: a IP fica na posse da NetEase, que pode fazer com ela o que entender.
A retirada da NetEase do mercado ocidental
O caso do Nagoshi Studio não é isolado, é mais um capítulo de uma retirada sistemática da NetEase do mercado ocidental e do desenvolvimento de jogos AAA de grande orçamento. Nos últimos anos, a empresa fechou ou abandonou vários estúdios que tinha fundado ou adquirido: a T-Minus Zero Entertainment, a Jar of Sparks (criada pelo veterano da Xbox Jerry Hook), a Worlds Untold (fundada com Mac Walters, escritor de Mass Effect), e a Ouka Studio, o estúdio de Tóquio responsável por Visions of Mana, fechada em 2024. Outros estúdios japoneses como a Grasshopper Manufacture de Goichi Suda e a GPTRACK50 de Hiroyuki Kobayashi, produtor de Resident Evil, conseguiram avançar com os seus projetos sem o suporte contínuo da NetEase, mas as circunstâncias em cada caso foram distintas.
A ironia é que a NetEase teve um dos maiores sucessos recentes da indústria com Marvel Rivals, um shooter de heróis que foi quase cancelado internamente antes de se tornar um fenómeno global. Esse sucesso, porém, parece não ter alterado a estratégia de desinvestimento em projetos de desenvolvimento mais tradicional e de longa duração.
O que acontece a Gang of Dragon agora
Gang of Dragon é descrito como um jogo de ação em mundo aberto com claras influências da saga Yakuza, mas com uma atmosfera mais brutal e violenta. O protagonista é interpretado por Ma Dong-seok, o ator sul-coreano e americano conhecido por Train to Busan, The Outlaws e Eternals da Marvel. O trailer de dezembro impressionou quem acompanha o género e tornou a notícia do corte de financiamento particularmente amarga para os fãs.
Para já, nem a NetEase nem o Nagoshi Studio responderam publicamente às perguntas dos jornalistas sobre o estado atual das negociações.








