InícioJogosValve responde a processo de Nova Iorque sobre loot boxes e vai...

Valve responde a processo de Nova Iorque sobre loot boxes e vai lutar em tribunal

Quase duas semanas após o processo movido pela procuradora-geral de Nova Iorque, a Valve respondeu publicamente, comparando as suas loot boxes a cromos de Pokémon e comprometendo-se a lutar em tribunal.

Steam Deck recondicionada screenshot valve

A 26 de fevereiro de 2026, a procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James, moveu um processo contra a Valve, alegando que as mecânicas de loot boxes nos jogos Counter-Strike 2, Dota 2 e Team Fortress 2 violam as leis estaduais contra o jogo ilegal. A procuradoria pediu ao tribunal que obrigue a Valve a eliminar as funcionalidades de gambling dos seus jogos, a devolver os ganhos obtidos de forma ilícita e a pagar multas. Na semana passada, a procuradora tinha também declarado em comunicado que “a promoção de jogos que glorificam a violência e as armas ajuda a alimentar a epidemia perigosa de violência armada”.

Dia 11 de março, a Valve publicou no Steam uma resposta extensa e diretamente endereçada aos jogadores de Nova Iorque e, por extensão, ao resto do mundo. A empresa rejeitou as alegações, anunciou que irá combater o processo em tribunal e deixou claro que não tenciona cumprir algumas das alterações exigidas pela procuradoria.

Processo contra a Valve por loot boxes pode afetar todos os jogos

Dois anos de cooperação antes do processo

Um dos argumentos centrais da Valve é a cronologia da relação com a procuradoria. A empresa refere ter sido contactada pela primeira vez pelo gabinete da NYAG no início de 2023 e ter cooperado com a investigação, explicando o funcionamento dos sistemas de itens virtuais e partilhando os seus esforços para bloquear contas ligadas a sites de gambling. “Ficámos desapontados ao ver a NYAG fazer essa alegação depois de termos trabalhado para os educar sobre os nossos itens virtuais e loot boxes desde que nos contactaram pela primeira vez em 2023”, escreveu a empresa.

Segundo a Valve, foram bloqueadas mais de um milhão de contas Steam ligadas a gambling, fraude e roubo envolvendo itens dos seus jogos, um número que a empresa usa para demonstrar que age ativamente contra o uso indevido dos seus sistemas.

“É como abrir uma caixa de cromos de Pokémon”

A estratégia argumentativa da Valve passa por equiparar as suas loot boxes a produtos colecionáveis físicos de longa tradição. A empresa escreveu: “Estes tipos de caixas nos nossos jogos são amplamente utilizados, não apenas em videojogos, mas também no mundo físico, onde gerações cresceram a abrir cromos de baseball e blind boxes e sacos, e depois a trocar e vender os itens que recebem. No lado físico, os produtos populares utilizados desta forma incluem cromos de baseball, Pokémon, Magic: The Gathering e Labubu”.

A Valve acrescenta ainda que os itens obtidos são essencialmente cosméticos, não alteram a capacidade funcional do jogador, e que a maioria dos utilizadores nunca abre uma única caixa. “Na verdade, a maioria de vocês não abre caixas nenhumas e simplesmente joga os jogos”, lê-se no comunicado.

A transferibilidade como linha vermelha

O ponto de maior atrito entre a Valve e a procuradoria de Nova Iorque é a possibilidade de os utilizadores venderem e trocarem os itens que obtêm nas loot boxes. O gabinete da NYAG quer que os itens deixem de ser transferíveis, uma alteração que a Valve recusa categoricamente. No comunicado oficial, a empresa escreveu: “Temos sérias preocupações com muitas das alterações que a NYAG afirma serem necessárias nos nossos jogos. Em primeiro lugar, a NYAG parece acreditar que as caixas e os seus conteúdos não devem ser transferíveis. Parecem assumir que as caixas mistério digitais e os itens nos nossos jogos são diferentes de itens tangíveis como pacotes de cromos de baseball (que contêm cromos aleatórios), e ter objeções ao facto de os utilizadores terem a capacidade de transferir os itens que recebem através do Steam Trading ou de vendas entre utilizadores no Community Market. Pensamos que a transferibilidade de um item de jogo digital é boa para os consumidores, dá ao utilizador a capacidade de vender ou trocar um item antigo ou indesejado por outra coisa, da mesma forma que um proprietário pode vender ou trocar um item tangível como um cartão Pokémon ou de baseball. A NYAG propõe retirar aos utilizadores a capacidade de transferir os seus itens digitais dos jogos da Valve. A transferibilidade é um direito que acreditamos não dever ser retirado, e recusamo-nos a fazê-lo”.

Jogos e violência: a Valve respondeu a isso também

A inclusão, no comunicado de imprensa da NYAG, de uma referência à violência nos videojogos como fator agravante da crise de violência armada nos Estados Unidos gerou reação imediata da Valve. A empresa não deixou o ponto sem resposta: “Além disso, embora este caso seja sobre loot boxes, sentimos necessidade de abordar os comentários feitos pela NYAG sobre jogos, violência no mundo real e crianças. Esses comentários extrajudiciais são uma distração e uma deturpação que já ouvimos antes. Numerosos estudos ao longo dos anos concluíram que não existe qualquer ligação entre os meios de comunicação (filmes, televisão, livros, banda desenhada, música e jogos) e a violência no mundo real. De facto, muitos estudos destacam o impacto benéfico dos jogos para os utilizadores”.

Esta parte da resposta foi a que mais atenção gerou junto da comunidade de jogadores, que considerou a ligação entre loot boxes e violência armada no comunicado original da procuradoria um salto argumentativo difícil de justificar.

A Valve termina o comunicado com uma declaração que deixa claro o caminho a seguir: “Em última análise, um tribunal decidirá qual posição — a nossa ou a da NYAG — está correta. Entretanto, queríamos garantir que estavam a par do potencial impacto para os utilizadores em Nova Iorque e noutros locais”.

Valve enfrenta processo por alegado sistema de jogo ilegal

O processo original foi movido a 26 de fevereiro. Desde então, a Valve foi também alvo de uma ação coletiva separada sobre o mesmo tema, e de um processo no Reino Unido por alegada venda de música sem as devidas licenças. O gabinete da procuradora-geral ainda não respondeu ao comunicado da empresa.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

Artigos Relacionados

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente
Inline Feedbacks
View all comments
- Publicidade -

Notícias

Populares