
Há uma certa ironia em ver uma ministra do governo japonês a tornar-se viral por defender o anime com unhas e dentes. Kimi Onoda, ministra de Estado responsável pela Segurança Económica e pela estratégia Cool Japan, tem sido uma das vozes mais firmes dentro do executivo nipónico na defesa da liberdade criativa da indústria de entretenimento do país e o episódio mais recente no Niconico Chokaigi 2026, o grande festival da cultura de internet japonesa realizado em Makuhari Messe nos dias 25 e 26 de abril, voltou a colocar o tema em destaque.
Durante o evento, Onoda voltou a deixar claro que o Estado não tenciona ceder a pressões externas sobre o conteúdo do anime, do mangá ou dos videojogos. A frase em japonês que circula nas redes, “Yakamashii, kore ga Nihon ja!”, ou seja, “Calem-se, isto é o Japão!”, sintetiza uma postura que a ministra tem vindo a construir ao longo dos últimos meses e que encontrou eco bem além das fronteiras japonesas.
「やかましい、これが日本じゃ!」
小野田大臣がニコニコ超会議で「海外基準で日本のコンテンツが攻撃を受けたときに、国が毅然とした対応で守り抜くから “もう好きにやって” という腹の括りは必要」と言及
“政府は口出しせず後押し”クリエイターへの利益還元や人材育成も熱く語る#ニコニコ超会議2026 pic.twitter.com/jV3HllByQM— ニコニコニュース (@nico_nico_news) April 26, 2026
Criadores em primeiro lugar, burocracia em segundo
O argumento central de Onoda não é novo, mas ganha mais força quando vem de alguém com assento no governo. A ministra tem insistido que o sucesso colossal da cultura otaku, que inclui franquias anime com receitas na casa dos milhares de milhões de euros, não foi construído por decretos nem por funcionários públicos, mas pelo talento e pela dedicação dos criadores e pela paixão dos fãs. O papel do Estado, defende, é apoiar sem interferir.
Esta posição traduz-se numa proposta concreta, o governo japonês compromete-se a não influenciar o conteúdo das obras que apoia financeiramente, garantindo autonomia criativa total aos estúdios e artistas.
Onoda foi ainda mais longe ao abordar o problema da burocracia que recai sobre os criadores que pretendem internacionalizar o seu trabalho. A proposta de criação de um sistema de balcão único para tratar de todos os trâmites relacionados com a distribuição internacional surge precisamente com o objetivo de libertar artistas e estúdios de um peso administrativo que os distrai do que fazem melhor.
O escudo contra as pressões externas
A parte do discurso que mais atenção captou internacionalmente foi a que diz respeito à censura vinda de fora. Onoda deixou claro que, perante críticas ou pressões irracionais sobre obras japonesas provenientes do exterior, o governo atuará como uma espécie de escudo protetor, sem cedências para agradar a mercados ou grupos de pressão estrangeiros.
Esta declaração insere-se num contexto mais amplo de tensão entre a indústria criativa japonesa e operadores financeiros e plataformas ocidentais. Nos últimos anos, processadores de pagamento como a Visa e a Mastercard têm restringido os seus serviços a plataformas japonesas que comercializam conteúdo adulto, e a própria Niconico viu o seu serviço de conteúdo adulto encerrado em janeiro de 2025, numa mudança atribuída em parte à sensibilidade da Sony, novo acionista maioritário da Kadokawa, empresa-mãe da plataforma, às reações do mercado ocidental.
A postura do governo japonês representa “um sopro de ar fresco” num momento em que a tendência global aponta para um puritanismo cada vez mais motivado por razões políticas.
Uma aposta de 20 biliões
Por detrás do discurso político há números muito concretos. O Japão quer quadruplicar as suas exportações de conteúdo criativo até 2033, passando dos atuais 5,8 biliões de ienes para 20 biliões de ienes, cerca de 130 mil milhões de dólares. O objetivo, enquadrado na estratégia Cool Japan, abrange anime, mangá, videojogos e outras produções culturais, e só para a indústria de anime a meta é chegar aos 6 biliões de ienes em receitas internacionais.
Os dados de 2024 mostram que o mercado global de anime atingiu um valor recorde de 3,84 biliões de ienes, cerca de 25 mil milhões de dólares, com as receitas externas a crescer 26% face ao ano anterior. É sobre esta base que o governo pretende construir a sua estratégia de expansão.
Ministra japonesa assume-se otaku e defende anime contra censura
Quem é Kimi Onoda
Onoda não é uma figura de gabinete afastada da realidade do fandom. Filha de mãe japonesa e pai americano de origem irlandesa, nasceu em Chicago em 1982 e cresceu em Okayama. Antes de entrar na política pelo Partido Liberal Democrata, trabalhou numa empresa de videojogos. Nos últimos anos tornou-se viral por publicações antigas em que se declara abertamente fã de anime e afirma preferir personagens de ficção às relações reais, uma autenticidade que lhe valeu uma credibilidade invulgar junto da comunidade otaku.
A ministra tem defendido de forma consistente que os problemas sociais devem ser tratados com legislação adequada, sem transformar o anime ou o mangá em bodes expiatórios de fenómenos complexos. Para ela, a linha entre ficção e realidade é clara, e deve ser respeitada pelo Estado.
O facto de uma governante com este perfil ocupar uma posição central na definição da política cultural japonesa marca uma diferença assinalável em relação a abordagens anteriores, que tendiam a regular a indústria com suspeição em vez de a apoiar com convicção.









