
O mangá é, há décadas, um dos pilares da cultura popular japonesa. Presente nas casas, nas escolas e nos transportes públicos, foi durante gerações a forma de entretenimento mais democratizada do país. Mas há sinais cada vez mais preocupantes de que essa relação está a mudar e não de forma gradual.
Em abril de 2026, o canal japonês Edu-NEWS divulgou um relatório que veio acender o debate público, um número crescente de crianças e adolescentes no Japão já não consegue ler mangá de forma fluida. Não por falta de acesso ou de interesse declarado, mas por dificuldade real em acompanhar a leitura de uma história mais longa.
O que os números revelam
À superfície, o mercado do mangá parece saudável. Em 2024, atingiu um máximo histórico de 704,3 mil milhões de ienes (cerca de 4,47 mil milhões de dólares), segundo dados do Research Institute for Publications. Em 2025, registou uma ligeira contração de 1,7%, para 692,5 mil milhões de ienes, a primeira descida desde 2017, com as vendas de volumes impressos a cair 14,4% e as revistas de mangá a recuar 12,7%.
Mas por detrás destes valores globais esconde-se uma realidade que preocupa especialistas em educação e analistas da indústria, cerca de 76% das receitas digitais do mangá provêm de conteúdo pago direcionado a adultos, deixando as crianças e adolescentes estruturalmente à margem do acesso a novo conteúdo. Segundo o investigador e jornalista Ichishi Iida a taxa de não leitura de revistas de mangá entre adolescentes chegou aos 77,7%. Para contextualizar, nos anos 80, no auge da popularidade das revistas, um estudante do ensino básico ou secundário lia em média dez revistas de mangá por mês. Em 2025, esse número caiu para uma.
Os dados de leitura física contam uma história semelhante. Em 2023, a taxa de leitura de mangá em formato impresso era de 68% entre alunos do 4.º ao 6.º ano do ensino primário, 60% no ensino básico e 49% no secundário, uma queda de cerca de 20 pontos percentuais em todas as faixas etárias face aos valores de 1985, de acordo com dados da Japan School Library Association recolhidos por Iida.

Mais do que um problema de acesso
A questão não se resume, no entanto, à barreira económica. O relatório do Edu-NEWS aponta para algo mais profundo, a erosão do que os especialistas chamam de “leitura ativa”.
Ler mangá não é uma tarefa passiva. Exige que o leitor interprete a sequência de painéis, compreenda o fluxo dos diálogos, infira contextos visuais e narrativos e mantenha o fio de uma história ao longo de dezenas ou centenas de páginas. São competências que se desenvolvem com prática, e que estão a atrofiar.
A causa apontada com maior frequência é o consumo intensivo de vídeos curtos em plataformas como o TikTok e o YouTube Shorts. Uma revisão sistemática publicada em janeiro de 2026 na Tandfonline, que analisou 23 estudos sobre o impacto cognitivo do consumo excessivo de vídeos curtos em adolescentes, concluiu que a dependência deste tipo de conteúdo “perturba principalmente a atenção e o autocontrolo, com efeitos adicionais na memória, na tomada de decisões e no envolvimento cognitivo”. Os dados neurológicos incluídos na revisão apontam para uma redução da atividade pré-frontal, a região do cérebro associada ao foco e ao raciocínio complexo, e um aumento da resposta límbica, explicando porque razão estes utilizadores “se distraem com facilidade e têm dificuldade em desligar-se”.
Uma revisão narrativa publicada também em janeiro de 2026 no ResearchGate reforça a mesma tendência, os utilizadores que consomem vídeos curtos de forma intensiva apresentam menor capacidade de leitura sustentada, piores resultados académicos e maior dificuldade de concentração em tarefas prolongadas.
A comparação com a Coreia do Sul
O contraste com o modelo de distribuição digital da Coreia do Sul tem sido amplamente citado no debate. No país vizinho, as plataformas de webtoons, banda desenhada digital otimizada para dispositivos móveis, oferecem uma proporção elevada de conteúdo gratuito ou em acesso inicial sem custos, o que criou uma base jovem de leitores robusta e fiel. No Japão, o modelo digital está orientado para adultos com poder de compra, criando uma fratura geracional, os jovens que têm menos hábitos de leitura consolidados são precisamente aqueles que têm maior dificuldade em aceder ao conteúdo digital de forma regular e acessível.
Iida alerta que, se esta tendência se mantiver, o atual boom do mangá digital pode esgotar-se numa geração, uma vez que a base de leitores jovens, o futuro da indústria, está a ser negligenciada.
Um debate que divide
O relatório gerou uma discussão intensa nas redes sociais japonesas, com opiniões divididas sobre o que realmente está em causa. Um argumento que circulou amplamente sugere que a competência de leitura não está a desaparecer, mas a transformar-se, os jovens que dificilmente conseguem seguir uma narrativa em texto são os mesmos que navegam com total naturalidade em interfaces digitais complexas, leem sinais visuais em ecrãs tácteis e interpretam sistemas de informação que as gerações anteriores consideram confusos.
A resposta a este argumento foi, porém, maioritariamente cética. Muitos especialistas e comentadores refutaram a comparação, defendendo que as dificuldades dos adultos mais velhos com a tecnologia se devem sobretudo ao deterioramento físico natural, problemas de visão, reflexos mais lentos, e não a uma falha cognitiva equivalente à incapacidade de acompanhar uma narrativa longa. Para os educadores, a leitura baseada em texto continua a ser um pilar fundamental da aprendizagem e da comunicação, independentemente da fluência digital.
A indústria do mangá, por seu lado, enfrenta agora uma pressão adicional. Depois de anos a crescer impulsionada pelos leitores adultos e pelo mercado internacional, começa a confrontar-se com a questão de como reconectar com uma geração cujos padrões de atenção foram moldados pela imediatez do scroll infinito.








