InícioAnime10 vilões de anime que têm histórias melhores do que muitos heróis

10 vilões de anime que têm histórias melhores do que muitos heróis

Há vilões que existem para ser derrotados. E há outros que são grandes demais para o espaço que ocupam. Os dez nomes que se seguem pertencem claramente à segunda categoria.

10
Naruto Shippuden — Pain

Naruto Shippuden

Nagato não acordou um dia e decidiu destruir o mundo. A história de Pain é a de alguém que começou exatamente no mesmo lugar que Naruto, com os mesmos ideais, a mesma crença de que a paz era possível, a mesma vontade de proteger quem amava. A diferença é que Nagato perdeu essa guerra muito antes de Naruto a começar. Viu amigos morrer, viu o mundo recompensar a violência e ignorar o sofrimento dos mais fracos, e chegou a uma conclusão que, por mais perturbadora que seja, tem uma lógica interna difícil de refutar, a única forma de criar paz duradoura é fazer o mundo sentir uma dor tão profunda que nunca mais se esqueça.

O que tornaria uma série centrada em Pain verdadeiramente poderosa não era a filosofia em si, era o percurso. Acompanhar a transformação de Nagato em tempo real, ver cada momento que o foi quebrando progressivamente, teria sido uma tragédia construída com precisão cirúrgica. Pain não age por ódio ou por sede de poder. Age por convicção. E há poucas coisas mais perturbadoras num vilão do que a certeza genuína de que está a salvar o mundo enquanto o destrói.

9
Mobile Suit Gundam — Char Aznable

Char Aznable é um dos fenómenos mais curiosos da história do anime. Apareceu em 1979 como antagonista de Amuro Ray, perdeu tecnicamente, e passou as décadas seguintes a ganhar todas as sondagens de popularidade da franquia. Há algo de profundamente revelador nisso, o público reconheceu desde o início que estava a seguir a personagem errada.

Char tinha tudo o que define um protagonista de ópera espacial, uma identidade falsa construída sobre uma vingança pessoal, uma inteligência política que o distinguia de qualquer outro piloto, e uma trajetória que o levou de soldado mascarado a líder revolucionário. A sua visão para a humanidade era radical e, em certos momentos, sedutora na sua lógica fria. Contar a história de Mobile Suit Gundam a partir dos seus olhos seria contar uma história sobre o custo de acreditar que tens razão quando toda a estrutura de poder à tua volta insiste que não tens, e sobre o que uma pessoa está disposta a fazer com essa convicção.

8
Vinland Saga — Askeladd

Vinland Saga vol 1 cover (1)

Askeladd é o tipo de personagem que aparece raramente, alguém em quem não se deve confiar, que faz coisas terríveis por razões que demoram muito tempo a revelar-se, e que mesmo assim se torna na figura mais magnética de toda a série. Vinland Saga tem a particularidade de apresentar Thorfinn como protagonista enquanto Askeladd rouba metodicamente todas as cenas em que aparece, e a série é honesta o suficiente para deixar isso acontecer sem tentar corrigi-lo.

A brutalidade de Askeladd nunca foi gratuita. Era calculada, instrumental, e sustentada por uma visão do mundo que só se começa a perceber quando a sua história pessoal é finalmente revelada. Os seus sonhos, que manteve escondidos durante toda a vida, explicam retroativamente cada decisão que tomou. Uma série contada a partir da sua perspetiva seria menos sobre guerra e mais sobre o que uma pessoa é capaz de sacrificar por uma ideia em que acredita em silêncio, sem nunca a partilhar com ninguém.

7
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba — Muzan Kibutsuji

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A maioria dos vilões de anime quer poder, domínio ou vingança. Muzan quer simplesmente não morrer, e é essa diferença que o torna genuinamente fascinante. Tem séculos de existência, uma capacidade de adaptação que o manteve vivo contra tudo e todos, e uma elegância fria que contrasta de forma perturbadora com o terror que semeia à sua volta. Não age por emoção. Age por cálculo e por um medo antigo que nunca o abandonou, independentemente do quanto cresceu em poder.

O que uma série centrada em Muzan poderia explorar é precisamente esse paradoxo, um ser que alcançou a imortalidade e continua consumido pela obsessão de a garantir. Muzan não nasceu monstro, as circunstâncias e as escolhas fizeram-no. Há uma versão desta história em que ele é uma figura tão trágica quanto aterradora, e essa tensão seria material narrativo mais do suficiente para uma série inteira.

6
Hunter x Hunter — Meruem

Hunter x Hunter vol 1 cover (1)

Há um momento em Hunter x Hunter em que Meruem, o Rei das Formigas Quimera, uma criatura criada para dominar a humanidade, se senta a jogar gungi com uma menina cega. Não há batalha, não há poder em exibição. Há apenas duas pessoas numa mesa. E é nesse momento que a série muda completamente de natureza.

Meruem começou como a encarnação do mal absoluto: frio, calculado, totalmente desprovido de empatia. E ao longo do arco das Formigas Quimera foi-se tornando, progressivamente, a personagem mais humana de toda a série, mais do que Gon, mais do que Killua. A transformação acontece de forma gradual, quase impercetível, até que já não há como ignorá-la. O seu arco completo é um dos melhor construídos em décadas de anime, e aconteceu numa série em que o protagonista desaparecia durante temporadas inteiras. A ironia nunca foi discreta.

5
Kill la Kill — Ragyo Kiryuin

Kill la Kill visual crunchyroll

Ragyo Kiryuin não tem contenção porque nunca precisou de a ter. Nasceu dentro do poder, cresceu dentro dele, e construiu à sua volta um império que misturava moda, controlo e uma visão do mundo completamente delirante que ela própria acreditava com convicção total. O Studio Trigger criou nela um vilão simultaneamente ridículo e genuinamente ameaçador, uma combinação que poucos argumentistas conseguem sustentar sem que uma das duas qualidades cancele a outra.

O que tornaria Ragyo uma protagonista realmente interessante não era a grandiosidade da vilania, era a relação com as filhas. Por baixo de toda a extravagância havia algo retorcido e dolorosamente pessoal. Uma série centrada nela seria a história de alguém que nunca aprendeu a distinguir amor de controlo, e que nem sequer se apercebeu de que havia uma diferença a fazer. Isso é material para algo muito mais perturbador do que qualquer plano de dominação mundial.

4
Psycho-Pass — Shogo Makishima

Psycho-Pass 2 visual HD

O sistema Sibyl governa a sociedade de Psycho-Pass com uma premissa aparentemente simples, mede o potencial criminoso de cada pessoa e age em conformidade. Makishima é imune a esse sistema, não metaforicamente, mas de forma literal e clinicamente verificável. O sistema não o consegue ler. E em vez de usar isso para se esconder, ele usa-o para expor o absurdo de uma sociedade que delegou o julgamento moral a uma máquina.

Numa outra história, Makishima seria o herói eleito para derrubar uma distopia. Nesta, é o criminoso mais procurado do país, o que diz tanto sobre a sociedade de Psycho-Pass quanto diz sobre ele. As perguntas que colocava sobre livre-arbítrio, autonomia e o custo de uma segurança sem fricção eram genuinamente desconfortáveis, e a série foi honesta o suficiente para não lhes dar respostas fáceis. Makishima merecia um palco ainda maior para as fazer.

3
Akame ga Kill! — Esdeath

Esdeath é uma das personagens mais polarizadoras de Akame ga Kill!, e é precisamente por isso que funciona tão bem. É cruel sem desculpas, leal a um império corrupto por princípio próprio e não por ignorância, e trata a violência com uma naturalidade que, vinda de outro tipo de personagem, seria apenas chocante. Vinda dela, é quase uma declaração filosófica sobre a forma como aprendeu a ver o mundo.

O que a tornava mais complexa do que parecia à primeira vista era a forma estranha como o afeto se manifestava nela. A obsessão que desenvolveu ao longo da série não era simplesmente mais uma faceta da vilania, era a única forma que Esdeath conhecia de se relacionar com alguém que genuinamente a surpreendia. Uma série centrada nela seria incómoda, contraditória, e provavelmente mais honesta sobre a natureza do poder do que a maioria dos animes do género alguma vez se atreveu a ser.

2
JoJo’s Bizarre Adventure — DIO

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DIO Brando é, antes de qualquer outra coisa, um performer. Cada entrada em cena é calculada para o impacto máximo. Cada linha de diálogo é entregue com a consciência plena de que vai ser citada, imitada e referenciada durante décadas. Há poucos personagens no anime, vilões ou heróis, com uma presença comparável, e menos ainda que a consigam manter de forma consistente ao longo de múltiplos arcos e gerações de personagens.

O que tornaria DIO um protagonista fascinante não seria a maldade em si, mas a construção metódica dessa maldade. O vampirismo, a obsessão com o poder absoluto, a incapacidade de aceitar qualquer forma de limitação, tudo isso tem raízes numa história pessoal que a série mostra apenas em fragmentos. Uma narrativa contada do seu ponto de vista seria a história de alguém que decidiu muito cedo que o mundo lhe devia tudo, e que passou a vida inteira a tentar cobrar essa dívida. E mesmo depois de morto, a sombra de DIO continuou a moldar gerações inteiras de personagens. Poucos vilões na história têm uma pegada comparável.

1
One Piece — Blackbeard

one piece WT100, World Top 100 (2)

Marshall D. Teach é, em muitos aspetos, o espelho negro de Monkey D. Luffy. Tem a mesma ambição sem limites, a mesma recusa em seguir regras que não fez, a mesma certeza inabalável de que o mundo está ali para ser conquistado. A diferença fundamental é o método, onde Luffy acumula aliados e liberta pessoas pelo caminho, Blackbeard acumula poder através da traição, da paciência e de uma disposição total para ser exatamente o monstro que toda a gente pensa que é.

O que torna Blackbeard particularmente interessante como potencial protagonista é que a sua filosofia de vida, não acreditar no destino, acreditar apenas nas oportunidades que se conseguem agarrar, é exatamente o tipo de coisa que, noutro contexto, seria apresentada como inspiradora. Teach fez o mesmo percurso que Luffy, mas sem a rede de segurança da bondade inata. Contar essa história de dentro, sem a distância cómoda do antagonista, seria perturbador de uma forma que One Piece raramente se permite ser.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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