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Crunchyroll não vai usar IA nas legendas, mas deixa a decisão aos criadores

CEO da Crunchyroll explica posição sobre IA no anime em 2026

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O CEO da Crunchyroll, Rahul Purini, voltou a pronunciar-se sobre o uso de inteligência artificial no processo criativo da plataforma e desta vez as palavras foram as mais claras até hoje. Em entrevista ao Radio Times, Purini afirmou que a Crunchyroll não tenciona usar IA nas suas próprias legendas nem nas dobragens, mas que os criadores de anime são livres de usar a tecnologia que entenderem.

“Diria que não é assim tão difícil! Temos muito bem definido o que faremos e o que não faremos. Sempre dissemos que a autenticidade dos criadores é muito importante para nós. Queremos garantir que os criadores contam as histórias da forma como querem contá-las, com a tecnologia que quiserem usar, mas é a intenção do criador”.

E acrescentou: “São eles que contam a história, e nós queremos ser autênticos à forma como a contam, e é por isso que não estamos a usar IA no nosso processo criativo, seja nas legendas ou nas dobragens”.

Segundo Purini, a IA continua a ser explorada internamente, mas apenas em áreas como recomendações e personalização de conteúdo para os utilizadores.

Uma posição que foi mudando ao longo dos anos

A clareza desta declaração contrasta com o que foi dito nos anos anteriores. Em 2024, Purini tinha revelado que a empresa estava a testar ativamente a IA para a produção de legendas, com o objetivo de lançar conteúdo em simultâneo com o Japão em mais idiomas. Na altura, sobre as dobragens, admitiu que a tecnologia “ainda não estava lá”, dado que as dubs não são traduções diretas mas sim adaptações criativas, com requisitos de sincronização labial que representam um desafio significativo.

Em 2025, numa entrevista à Forbes, Purini afirmou que a Crunchyroll não estava a considerar usar IA no processo criativo, incluindo atores de voz, reconhecendo-os como criadores que contribuem para a narrativa. Contudo, essa declaração ficou sem resposta relativamente a se o processo de legendagem estava ou não incluído.

A entrevista ao Radio Times vem agora preencher essa lacuna.

Quando a teoria não bateu certo com a prática

Apesar das garantias, a Crunchyroll já foi apanhada com IA nas legendas, ainda que, segundo a empresa, contra a sua vontade.

Em julho de 2025, o anime Necronomico and the Cosmic Horror Show estreou na plataforma com legendas alemãs onde constava literalmente o texto “ChatGPT said:” seguido do diálogo traduzido, numa gafe que se tornou rapidamente viral. As legendas inglesas continham igualmente múltiplos erros de tradução, incluindo um crédito com o placeholder genérico “Translated by: Translator’s name”.

A Crunchyroll respondeu afirmando que as legendas tinham sido produzidas por um fornecedor externo em violação do contrato entre as partes, que proibia o uso de IA. A empresa declarou estar a investigar a situação, mas nunca tornou públicas as conclusões dessa investigação nem as medidas preventivas tomadas para o futuro.

O que a Crunchyroll controla e o que não controla

Há uma distinção importante que a declaração de Purini torna evidente, a Crunchyroll está a falar pela sua própria atividade criativa, não pela dos estúdios japoneses com quem trabalha.

A plataforma é um dos investidores mais frequentes em comités de produção de anime e posiciona-se como uma ponte entre os criadores japoneses e o público global. Quando Purini afirma que os criadores podem usar a tecnologia que quiserem, está a deixar a porta aberta para que os estúdios de animação usem IA na produção, o que já acontece de forma crescente.

Não é uma questão hipotética, empresas do grupo Sony, que inclui a co-empresa-mãe Aniplex e as subsidiárias A-1 Pictures e CloverWorks, estão a desenvolver abertamente ferramentas de IA para a produção de anime. A Crunchyroll nunca respondeu a questões sobre se pode controlar ou auditar o uso de IA por parte dos estúdios com quem trabalha, dado o modelo descentralizado dos comités de produção e a cadeia de subcontratação envolvida.

Neste contexto, a declaração do CEO soa mais a uma definição dos limites da responsabilidade da plataforma do que a uma tomada de posição sobre a indústria no seu conjunto.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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