O anime está a crescer. Então, por que os animadores vivem na pobreza?

O The New York Times num dos seus mais recentes artigos virou as suas atenções para a indústria anime, com o título “Anime Is Booming. So Why Are Animators Living in Poverty?” a reputada publicação aborda a enorme discrepância entre os lucros da indústria anime e as condições de trabalho.

No artigo acompanham o animador Tetsuya Akutsu que começou a trabalhar na indústria há 8 anos quando esta ainda tinha metade dos lucros que agora obtém. Ele revela que a trabalhar quase todas as horas em que está acordado leva para casa entre 1400 a 3800 dólares como animador principal e ocasionalmente como diretor em alguns dos animes mais populares.

Tetsuya Akutsu foi animador chave em animes como Darling in the Franxx, Aikatsu Stars!, Konbini Kareshi, The Rising of the Shield Hero e Fate/Grand Order Absolute Demonic Front: Babylonia.

No artigo vemos que ele é um dos felizardos, uma vez que os animadores mais novos ganham ao final do mês pouco mais de 200 dólares. Em vez de recompensá-los, o crescimento explosivo da indústria anime apenas aumentou a lacuna entre os lucros que ajudam a gerar e os salários insignificantes, deixando muitos a questionar se podem continuar a seguir sua paixão como animadores.

Tetsuya Akutsu revela que gostava de trabalhar na indústria para sempre, mas que sabe que terá de fazer alguns sacrifícios.

Eu quero trabalhar na indústria anime para o resto da minha vida… Eu sei que é impossível casar e criar um filho.

Normalmente, o aumento da demanda iria, pelo menos em teoria, estimular a competição por talentos, aumentando os salários dos trabalhadores existentes e atraindo novos.

Qual é o trabalho mais bem remunerado na indústria anime?

Isso está a acontecer até certo ponto nos níveis mais altos das companhias. Os ganhos anuais médios para ilustradores importantes e outros talentos de primeira linha aumentaram para cerca de 36.000 dólares em 2019, de cerca de 29.000 dólares em 2015, de acordo com estatísticas divulgadas pela Japan Animation Creators Association.

Esses animadores são conhecidos em japonês como “genga-man”, o termo para aqueles que desenham o que chamamos de quadros-chave / key frames. Como um deles, Tetsuya Akutsu é um freelancer que circula pelos muitos estúdios de animação do Japão, ganha o suficiente para comer e alugar um apartamento num subúrbio de Tóquio.

Mas o seu salário está muito longe do que ganham os animadores nos Estados Unidos, onde o salário médio é de 75.000 dólares por ano, de acordo com dados do governo, com ilustradores experientes muitas vezes a obter facilmente seis dígitos.

Segundo Simona Stanzani, que trabalhou como tradutora na indústria, o problema deve-se em parte à estrutura da indústria, que restringe o fluxo de lucros para os estúdios. Mas os estúdios conseguem-se safar com o baixo salário em parte porque há um grupo quase ilimitado de jovens apaixonados por anime a sonhar em fazer um nome na indústria.

Os negócios vão tão bem que quase todos os estúdios de animação do Japão estão com trabalhos reservados com anos de antecedência. A Netflix revelou que o número de famílias que assistiam anime no seu serviço de streaming em 2020 aumentou 50% em relação ao ano anterior.

O que significa fazer parte de um comité de produção anime?

Mas muitos estúdios foram excluídos da bonança por um sistema de produção obsoleto que direciona quase todos os lucros da indústria para os chamados comités de produção.

Estes comités são coligações de fabricantes de brinquedos, editoras de mangá e outras empresas que financiam cada projeto. Eles normalmente pagam aos estúdios de animação uma taxa fixa e reservam royalties para si próprios.

Embora o sistema proteja os estúdios do risco de um fracasso, ele também os impede de ganhos inesperados criados por sucessos.

Em vez de negociar taxas mais altas ou participação nos lucros com os comités de produção, muitos estúdios continuaram a apertar os animadores, reduzindo custos ao contratá-los como freelancers.

Recentemente os animadores têm vindo a denunciar com mais frequência condições de trabalho precárias o que já resultou em várias vitórias em tribunal.

Depois de Madhouse também o Studio 4°C é acusado de não pagar horas extraordinárias

O artigo termina com o exemplo de Ryosuke Hirakimoto, que decidiu sair da indústria após o nascimento do seu primeiro filho. Trabalhar em anime foi o seu sonho de toda a vida, mas mesmo depois de anos na indústria, ele nunca ganhava mais de 38 dólares por dia.

Muitas pessoas achavam que havia valor em poder trabalhar num anime que elas amavam. Não importa o quão pouco eles recebam, eles estavam dispostos a fazer o trabalho.

Sobre a sua saída da indústria anime ele afirmou:

Eu não me arrependo da decisão de forma alguma.

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13 Comentários
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luiz
luiz
26 , Fevereiro , 2021 4:11

surpreende pouco qdo vemos que é algo que acontece em igual escala na indústria de games

essas empresas canalha se valem da paixão dos animdores ou desenvolvedores para sugar até o último deles, se valendo TAMBÉM daquela coisa nojenta de agir como se dar emprego fosse favor.

o próprio fato de haver um incentivo a desunião dos funcionários criou esses sistemas precários, onde conseguem criar algo análogo a escravidão (pq convenhamos que esses salários são uma coisa indecente perto dos lucros)

enquanto não houver uma maior união dos funcionários tanto contra estúdios (que tem SIM parcela de culpa, mas um pouco menor) quanto contra os comitês de produção (esse sim os grandes vilões da indústria), nada disso vai mudar

Ronoroa Zoro
Ronoroa Zoro
26 , Fevereiro , 2021 1:46

a industria de animação japonesa , tratar animadores pior q lixo velho , os estúdios chineses e americanos vão pegar todos os animadores top do japão para eles fica vendo , já q as condições e salários são bem melhores ..

Jujutsu Kaisen é podre
Jujutsu Kaisen é podre
26 , Fevereiro , 2021 0:21

Mais negócio a China dominar o mercado de animação e contratar animadores japoneses!

Bernardo
Bernardo
25 , Fevereiro , 2021 22:07

A indústria de animes precisa de uma revolução e de mangás também, a carga horária dos cara é ABSURDA DEMAIS! e não recebem o que deveria.

Pedro Rodrigo
Pedro Rodrigo
25 , Fevereiro , 2021 21:10

Posso estar a ser muito injusto o que não me admiro, se assim for peço desculpa e não levem a sério mas os produtores e chefes dos estúdios ficam com tudo a meu ver, é como o do estúdio Mappa pegou em Shingeki e mandou para a staff para a destruição e não vi preocupado, secalhar estava preocupado era o quanto ia ganhar com, aquela quantidade absurda de animes e ainda ter aquela animação a nível de Jujutsu Kaisen, enfim, a Ufoutable á uns tempos passou pela mesma polémica, ou de o chefe dela estar podre de rico á pala do dinheiro que supostamente teria roubado, enfim e os produtores igual, que devem ficar com uma grande fatia do dinheiro, duvido que com os jogos vendidos, e merchandising se não ganham tão mais, vendas essas que só existem pelo trabalho e esforço da staff que foram responsáveis pela propagação, se eu realmente estiver certo, com os serviços de streaming segundo sei as receitas dos estúdiosmultiplicaram se, se a situação se revertesse, o mercado seriam tão mais saudável, e inclusive a indústria e qualidade das produções seriam tão melhor e maior, uma vez que haveria mais gente a querer trabalhar nela e empenhados no seu trabalho já que as condições de vida eram melhores, quem sabe teriam mais tempo para a sua vida pessoal, e de preferência darem maior tempo para as produções, seria o melhor para a staff e sua saúde e para a qualidade dos animes, consequentemente para a popularidade do anime e não só, da indústria inteira, de maneira que a longo prazo lhes renderia ainda mais dinheiro, seja pq o anime envelheceria muito bem, o que for, se estiver certo no que digo, o que eles têm na cabeça, gostaria de ver um estúdio a vir dar uma explicação, ainda bem que vêm estes artigos e que há propagação deles como foi aqui no Otakupt, coitados, um apartamento minúsculo em Tokyo vale se for preciso 4 vezes o seu salário

toygame
toygame
25 , Fevereiro , 2021 20:54

A situação dos animadores nunca vai melhorar com a economia do país em colapso.
E melhor os animadores tentarem vagas de emprego em estudios americanos ou europeus.

?Pico Trap Delícia?
?Pico Trap Delícia?
25 , Fevereiro , 2021 19:45

É triste ver pessoas abandonado o que amam, mas é bom pro Japão ver se abre os olhos é melhora logo esse sistema precária.?

Nate
Nate
25 , Fevereiro , 2021 19:04

Mais um talento que desistiu, quando não se aposentam acontece isto. Como que essa indústria vai continuar desse jeito? Vai ficar lotado de animes CG.

1102
1102
25 , Fevereiro , 2021 18:25

Fiu.

Kiba
26 , Fevereiro , 2021 10:18

Para mim animadores no Japão estão parecendo atendente de telemarketing, existe vários e não é tão reconhecido. Fico realmente triste com isso, porque eu também estou a trabalhar com animação e da pra ver que em outros países estão dando bem mais valor.

As pessoas estão ganhando cerca de 2000 dollars por modelos animados no Live2D onde a maioria das vezes elas mesmo consegue definir seu próprio tempo…
O cara fica 1 mês todo sem dormir para animar key frames com uma puta pressão de entrega, além de não conseguir se relacionar onde basicamente tem que dedicar sua vida para o studio e não recebe oque realmente deveria ?
EXPLORAÇÃO DE MERCADO E FALTA DE VALORIZAÇÃO !!

Nomura-San
Nomura-San
Reply to  Kiba
26 , Fevereiro , 2021 10:56

Foda que todos esses problemas tem aver com a econômia estagnada japonesa, as empresas simplesmente não ficam mais produtivas e fazem os trabalhadores trabalharem mais

Ψυκιησ 『Deus Da Censura』
Ψυκιησ 『Deus Da Censura』
26 , Fevereiro , 2021 5:42

Mesmo sendo tão desvalorizados, eles continuam, isso é oq quão eles amam oq tão fazendo.

Ronanfalcon
Ronanfalcon
25 , Março , 2021 16:38

É frequente discrepâncias quando alguma coisa tem um aumento repentino.
Um exemplo simples, é o tanto de smartphone que se tem hoje, teve um “boom” também, e as pessoas estão cada vez mais burras, ao invés de se aproveitarem de ter todo conhecimento nas mãos.