Karoshi – A morte por excesso de trabalho

Karoshi – A morte por excesso de trabalho

Recentemente divulgamos no OtakuPt um artigo falando sobre o mundo obscuro que existe dentro do universo das Idols e no texto é citado o caso de uma garota que se suicidou após ser obrigada a trabalhar em períodos de 12 horas, por 20 dias em um mês e recebendo apenas 300 dolares. O que ocorreu com esta garota não é um caso isolado dentro da sociedade japonesa e possui até um nome especifico, Karoshi (ou morte por excesso de trabalho em tradução literal).

Ao final da Segunda Guerra Mundial o Japão passou por um período de reconstrução e no decorrer dos anos seguintes o país teve um grande impulso econômico graças a ajuda dos trabalhadores de diversas áreas essenciais para a economia japonesa. Nos anos de 1980 diversos trabalhadores que possuíam poucos anos trabalhados em áreas executivas de diversas empresas acabaram morrendo subitamente e sem qualquer tipo de sinal de terem alguma doença, logo isso chamou a atenção da mídia e do governo japonês e rapidamente este fenômeno foi nomeado como Karoshi. Foi a partir de 1987 que o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão passou a emitir relatórios com estatísticas sobre esta nova ameaça a força de trabalho do país.

Para entender o que é o Karoshi primeiro temos que conhecer a rotina de trabalho que ocorre atualmente no Japão. Dentro do país o trabalhar é pago por hora trabalhada e, conforme lei trabalhista local, a faixa de trabalho normal deve ser de 8 horas diárias (40 horas semanais). É permitido que o trabalhador japonês tenha acesso a realizar até 45 horas extras por mês, porem existem empresas que “permitem” seus empregados a trabalhar além do período de horas extra normal e existes pessoas que chegam a trabalhar mais de 100 horas além do horário normal, como ocorreu recentemente com um professor que denunciou ser forçado a realizar atividades extra-curriculares fora de suas obrigações com a escola e chegou a ter 155 horas extras por mês.

Existem alguns costumes culturais na pratica do japonês trabalhar demais, como o ato de ter “amor” ao trabalho ou prestar “fidelidade” a empresa, mas o fator dinheiro é o que mais pesa principalmente. O Japão é considerado um 20 países mais caros para se viver e as cidades de Tóquio e Osaka figuram na quarta e quinta posição das cidades mais caras do mundo segundo a Worldwide Cost of Living Survey. Segundo o Portal Mie, o valor do salário mínimo no Japão varia muito entre as província, sendo que o menor salário é da província de Kagoshima em Kyoshu (761 Iene/h) e a maior é o da província de Kanagawa em Kanto (983 Iene/h) e quem acompanha algum dos diversos canais no Youtube de Decasségui (estrangeiros com descendência japonesa) que moram e trabalham no Japão deve perceber que comprar produtos básicos para a sobrevivência humana diária custam na maioria das vezes um valor próximo ou superior aos valores de salário mínimo citados acima.

Em outras palavras, para uma pessoa ter acesso e manter uma vida com uma qualidade mais elevada no Japão ela terá que trabalhar muito, em diversos casos sacrificar horas de sono ou de descanso e isso causa o agravamento de alguma doença já existente e resultar na morte prematura de uma pessoa no auge de sua carreira e na flor da idade adulta. O estresse e o bullying ocorridos em ambiente de trabalho também vem sendo um fator que tem causado muitas mortes no Japão e eles ocorrem através do ato suicida, como ocorreu com a Idol citada no início desde artigo e com um animador do estúdio A-1 Pictures em 2010.

Karoshi – A morte por excesso de trabalho

O governo japonês já tomou diversas medidas nos últimos anos para tentar conter o Karoshi, as medidas tomadas vão desde criar novos feriados nacionais a criar um dia para que os trabalhadores possam sair mais cedo do trabalho. Como resultado em 2015 a média de japoneses trabalhando além do horário caiu, assim como o número de ocorrências de Karoshi. Porém o fator cultural ainda é o principal inimigo, principalmente quando estas medidas não são adotadas ou incentivadas pelas próprias empresas japonesas ou pelos trabalhadores, é neste ponto que vemos o entretenimento sendo usado como um aliado para falar sobre o assunto do excesso de trabalho.

Em Bakuman temos logo no início da série de anime/manga a revelação de que o tio do personagem Mashiro Moritaka havia morrido de tanto trabalhar tentando criar uma nova obra de sucesso como mangaka. No decorrer da série o assunto acaba ganhando mais força quando Mashiro acaba doente por trabalhar por muitas horas seguidas e mesmo internado o personagem insiste em continuar focado em seu trabalho como mangaka para entregar um capítulo de sua obra dentro do prazo.

Outra obra que mostra um personagem em situação de excesso de trabalho é Shirobakoainda em seus primeiros episódios vemos uma desenhista caindo doente após ter trabalhado por um longo período para finalizar um trabalho que seria utilizado na animação de uma série anime. Lembrando que é de conhecimento publico que os animadores e desenhista de produções anime trabalham por longos períodos recebendo salários que na maiorias das vezes não condizem para gerar uma condição de vida adequada.

Já no popular anime Boruto: Naruto Next Generations vemos o personagem Naruto Uzumaki em diversas situações de excesso de trabalho, no inicio da série o pai do personagem título apareceu exausto, pegando roupas extras para retornar ao serviço e abandonando um jantar com a família para priorizar um chamado de emergência que já estava sendo atendido por outra pessoa. Trazendo para o mundo real, a função do Hokage pode ser considerada como um equivalente à de um executivo de uma grande empresa.

Já na série Super Sentai Doubutsu Sentai Zyuohger vemos a complicada relação do personagem Yamato Kizakiri com seu pai, aonde o personagem corta relações com seu progenitor desde a infância por culpa-lo por trabalhar demais e nunca estar presente, inclusive no momento em que sua mãe falece por causa de uma doença.

Seja através de ações de incentivo do governo japonês ou da mídia de entretenimento, a morte por excesso de trabalho é algo que ira depender exclusivamente de uma mudança cultural da população japonesa para ser solucionado. Este problema não será solucionado de forma imediata em curto prazo, mas este pode ser o pontapé inicial para que as próximas gerações adotem uma rotina mais saudável em seu dia a dia.

Karoshi – A morte por excesso de trabalho