
A funcionalidade de tradução automática do X, a plataforma anteriormente conhecida como Twitter, está no centro de uma discussão que ganhou força online nos últimos dias. A questão não é técnica. É sobre imagem, identidade nacional e o que acontece quando comentários que antes ficavam confinados a uma bolha linguística passam a circular globalmente.
O que disse Kanon Aoki
Kanon Aoki, ex-apresentadora de televisão e YouTuber japonesa, publicou no X uma mensagem que rapidamente se espalhou para além das fronteiras do Japão. Aoki expressou preocupação com o impacto que a tradução automática está a ter na forma como o Japão é visto internacionalmente.
“Ver publicações no X a serem automaticamente traduzidas e mostradas a pessoas de todo o mundo, e depois ver a imagem dos japoneses a piorar entre os estrangeiros, deixa-me um pouco em baixo”, escreveu.
Aoki foi cuidadosa a sublinhar que não está a falar da maioria. O problema, na sua perspetiva, está num grupo reduzido de utilizadores cujos comentários, frequentemente agressivos ou depreciativos em relação a outros países, chegam agora a audiências que antes nunca os teriam visto. “Não gosto de ver publicações onde um pequeno número de japoneses troça de outros países e acaba por provocar reações negativas de pessoas de todo o mundo”, acrescentou, avisando que “por causa dessas pessoas de baixo nível, a impressão do país inteiro acaba por descer”.
O raciocínio de Aoki parte de uma realidade simples, o X passou a ter tradução automática integrada, o que significa que um comentário escrito em japonês pode agora ser lido por qualquer utilizador do mundo sem qualquer esforço. Durante anos, a barreira linguística funcionou como um filtro natural, o que circulava no Twitter japonês ficava, em grande parte, no Twitter japonês.
Essa separação desapareceu. E com ela, comentários que antes passariam despercebidos fora do Japão ganham agora visibilidade global, incluindo os mais negativos, que tendem a ser também os mais partilhados.
A publicação gerou reações diversas. Muitos utilizadores concordaram com o diagnóstico. “Infelizmente, a voz negativa é quase sempre a mais proeminente nesta plataforma. O algoritmo está basicamente concebido para isso. E concordo, é uma pena que, por causa de poucos, o resto tenha de pagar as consequências”, respondeu um comentador. Outros foram mais resignados: “Não te preocupes tanto com essas coisas; há pessoas horríveis em todo o mundo”.
Houve também quem contestasse a premissa, argumentando que este fenómeno não é exclusivo do Japão, todas as comunidades linguísticas têm os seus utilizadores mais agressivos, que agora ficam igualmente expostos à escala global.
Um problema mais amplo
O debate tocado por Aoki vai além do Japão. A tradução automática em plataformas como o X levanta questões que ainda não têm resposta clara, até que ponto o discurso online de um país representa esse país? Quem tem a responsabilidade de contextualizar o que é dito, a plataforma, os utilizadores, os media?
O que é certo é que a dissolução das barreiras linguísticas transforma profundamente a dinâmica das redes sociais. Comentários que antes viviam e morriam dentro de uma comunidade fechada passam agora a alimentar narrativas internacionais, para o melhor e para o pior.









