
O caso poderia ter passado despercebido. Em vez disso, tornou-se num dos momentos mais comentados da semana no mundo do anime e do mangá. Syundei, autora do mangá de boys’ love Go for It, Nakamura! (Ganbare! Nakamura-kun!!), apagou a conta no X no domingo, 12 de abril, depois de descrever uma situação de alegado assédio online. O encerramento da conta desencadeou uma reação em cadeia entre criadores japoneses, que aproveitaram para falar sobre temas que raramente abordam em público.
O que aconteceu
O anime baseado no mangá de Syundei estreou a 1 de abril de 2026, produzido pelo estúdio Drive sob a direção de Aoi Umeki. A Crunchyroll assegurou os direitos de streaming para a América do Norte, América Central e do Sul e Europa e com essa distribuição global, a obra chegou de repente a uma audiência muito maior do que a que o mangá original alguma vez atingiu.
As críticas centraram-se numa ilustração que Syundei tinha publicado, retratando os personagens Aiki Hirose e o professor Sō Otogiri num cenário hipotético. Segundo o K-Comics Beat, uma fã brasileira acusou a autora de representar uma relação inapropriada entre as duas personagens. O que se seguiu foi uma cascata de comentários negativos que levou Syundei a publicar uma última mensagem antes de encerrar a conta:
“Porque só recebo queixas a perguntar por que razão desenhei algo assim, e uma vez que não tenho talento para fazer algo que agrade a toda a gente, não vejo qualquer sentido em continuar como criadora de mangá. Pensei que devia oferecer uma despedida final, mas como me disseram para desaparecer o mais rapidamente possível, vou fazê-lo antes do meio-dia [12 de abril]”.
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A resposta da comunidade
Nos dias seguintes, vários criadores pronunciaram-se. Labo Asai, autor de Dances with the Dragons, descreveu o fenómeno em termos quase clínicos:
“Vi uma história sobre um criador de mangá BL a receber ameaças de fãs estrangeiros. Ao que parece, já aconteceram incidentes semelhantes com criadores de mangá japoneses. Segundo a análise de um especialista estrangeiro, há fãs que interiorizam as obras como parte de si próprios, e quando a história toma um rumo que entre em conflito com a sua própria moral ou preferências sexuais, ou algo de que não gostam, sentem que o seu sentido de identidade está ameaçado e ficam enraivecidos”.
E acrescentou:
“Assim como há pessoas que reagem exageradamente a eventos reais e questões sociais que entram em conflito com a sua moral ou sexualidade, agora estamos a ver pessoas a enlouquecer por causa de ficção. Acho que já é altura de os profissionais de saúde mental atribuírem um nome diagnosticável a esta tendência e tornarem-na uma condição tratável”.
Miki Matsuda (Sarissa of Noctilucent Cloud) aproveitou para abordar um ângulo diferente, apontando para uma aparente inconsistência nos critérios de aceitação de determinados conteúdos:
“A noção de que o conteúdo erótico direcionado para homens é inaceitável, mas o BL é aceitável, foi completamente invertida. Não é uma sensação de ‘bem feito’, mas sim de ‘eu avisei’. Não devemos tolerar a correção política forçada”.
E concluiu com uma declaração que resume a postura de vários criadores face à pressão externa:
“Vou continuar a desenhar mangá com o espírito de ‘fiz o que quis. Vocês façam o que quiserem, também'”.
Michiru Nakayama (Hagure Yūsha no Isekai Bible) tocou num tema paralelo mas igualmente relevante, o dos leitores de sites de pirataria que, sem pagarem pelo conteúdo, acabam por ser os mais exigentes:
“Parece que muitas pessoas que leem o meu trabalho de graça em sites de edição internacional iludem-se ao pensar que estão a controlar a história, por isso recebo muitos pedidos (como, ‘Se não juntares X e Y, então não és uma verdadeira autora’). Estou contente por ter fãs no estrangeiro, mas são surpreendentemente opinativos para leitores que não pagam um cêntimo, e honestamente gostaria que pagassem pelo meu trabalho”.
Yuiko, autora de Dear Sister, I’ve Become a Blessed Maiden, foi ainda mais direta ao ligar a agressividade online ao consumo ilegal de conteúdo:
“Leitores que acedem à história através de canais oficiais, os que a leem legalmente de graça, e a escória que a lê em sites piratas. Quando se comparam as opiniões destes três tipos de leitores, as diferenças são gritantes. Não vou especificar exatamente como, mas é exatamente o que se esperaria. Foram maioritariamente a escória dos sites piratas que me rotularam a mim e ao Theo repetidamente de pedófilos e continuaram a queixar-se sobre o Ujin e a Momo”.
Liberdade de criação e pressão dos fãs
Hyogo Onimushi, criador independente de videojogos, abordou o que considera ser uma consequência direta deste tipo de pressão sobre os autores:
“Bem, para começar, quero dizer a todos os criadores que, se têm medo de reações negativas e pensam ‘vou tentar um estilo seguro, sem queixas, para agradar a um público global’, vão acabar simplesmente com uma obra super medíocre. Para além disso, forçarem-se a suprimir o que realmente querem fazer não é bom para a vossa saúde mental”.
Kyōichirō Tarumi (History of the Kingdom of the Orcsen) optou por enquadrar o debate na perspetiva da liberdade de expressão de forma mais abrangente:
“A liberdade de expressão que imagino é esta: conteúdo militar, moe, erótico, BL, visões de direita, visões de esquerda, ideias extravagantes, academia, literatura, ficção ligeira e ficção pesada, até livros que criticam esses géneros. Um sistema onde os leitores possam escolher livremente o que quiserem numa livraria, e os críticos possam avaliá-los livremente”.
Yuma Ichinose (No God in Eden), por seu lado, escolheu uma resposta mais reflexiva, sem referir explicitamente o caso de Syundei, mas claramente enquadrada nele:
“Ocorreu um evento infeliz. Por sorte, eu só tenho recebido palavras amáveis. Tenciono tornar-me mais resiliente e menos sensível às vozes que ouço online, ao mesmo tempo que expresso a minha gratidão. Em sentido inverso, quando exprimo as minhas próprias opiniões online, vou esforçar-me por ser mais ponderado e sensível. Talvez seja melhor abordar o vasto oceano do espaço digital com a compreensão de que estamos constantemente a roçar os ombros de outra pessoa”.








