
Syundei, a autora por detrás do mangá de boys’ love Go for It, Nakamura! (Ganbare! Nakamura-kun!!), desapareceu do X (antigo Twitter) no passado dia 12 de abril, numa decisão que gerou uma onda de reação na comunidade internacional de anime e mangá. O episódio levanta questões que já não são novas, mas que continuam sem resposta, até onde pode ir a pressão dos fãs sobre os criadores japoneses quando uma obra nicho ganha visibilidade global?
O mangá original começou a ser publicado nas páginas da revista Opera, da Akaneshinsha, em dezembro de 2014, um one-shot que Syundei desenhou a pedido do editor para preencher espaço numa edição da revista. O projeto ganhou vida própria e passou a serialização regular em junho de 2015, terminando em 2017 com um único volume compilado.
Seguiu-se uma sequela, Motto Ganbare! Nakamura-kun!!, que foi lançado na Opera entre junho de 2017 e agosto de 2021, e Syundei ainda regressou com Yurūku Ganbare! Nakamura-kun!! no site Hero’s Web, em abril de 2025.
O ponto de viragem foi a adaptação para anime. O anime estreou a 1 de abril de 2026, com o estúdio Drive na produção e Aoi Umeki na direção. A Crunchyroll assegurou os direitos de streaming para a América do Norte, Europa, Oceânia e outras regiões, abrindo a obra a uma audiência muito maior do que a que o mangá alguma vez atingiu.
O que desencadeou o assédio
As críticas centraram-se numa ilustração de Syundei que retratava os personagens Aiki Hirose e o seu professor Sō Otogiri num cenário hipotético. Uma fã brasileira acusou a autora de representar uma relação inapropriada entre as duas personagens. O que se seguiu foi uma cascata de comentários negativos, muitos deles de espectadores que chegaram à obra através do anime recente e que desconheciam o contexto mais alargado da série.
A situação escalou ao ponto de Syundei ter sido alvo, segundo relatos nas redes sociais, de ameaças de morte, um nível de hostilidade que vai muito além da crítica legítima a uma obra de ficção.
As últimas palavras antes de desaparecer
Nas horas anteriores ao encerramento da conta, Syundei publicou uma série de mensagens. Começou com uma pergunta simples: “Posso apagar a conta?”, o que foi suficiente para alarmar os fãs mais atentos. Depois, num texto que se viralizou rapidamente, expôs o estado em que se encontrava:
“Só recebo queixas sobre porque é que desenhei algo assim, e não tenho capacidade para fazer algo que agrade a todos como esperam, por isso já não faz sentido ser mangaká, pois não?”.
E acrescentou que teria deixado uma última despedida, mas que, como lhe disseram para desaparecer o mais depressa possível, faria isso até ao meio-dia de 12 de abril.
A conta foi encerrada nesse mesmo dia.

Um padrão que se repete
Este não é um caso isolado. Fãs nas redes sociais recordaram situações semelhantes com Kōhei Horikoshi, o autor de My Hero Academia, que também foi alvo de ameaças de morte e assédio por parte de uma fação do fandom que considerava que a narrativa devia seguir uma direção diferente. A lógica é a mesma, a crítica legítima, “não gostei desta cena”, transforma-se gradualmente em algo muito mais agressivo, “isto está errado e tu és uma má pessoa por o teres feito, muda ou sofres as consequências”.
O que torna o caso de Syundei particularmente revelador é o choque entre duas realidades distintas. O mangá japonês de boys’ love tem convenções e tradições próprias, desenvolvidas ao longo de décadas num mercado específico, com um público que conhece o contexto. Quando uma obra chega de repente à Crunchyroll e é descoberta por centenas de milhares de pessoas sem esse enquadramento cultural, o potencial para mal-entendidos e hostilidade multiplica-se.
Os fãs de longa data de Syundei tentaram contrariar a maré com mensagens de apoio, mas a autora já tinha tomado a sua decisão. O dano, como frequentemente acontece nestas situações, estava feito antes de qualquer mobilização positiva conseguir ter efeito.








